Áudio 68 – Solidariedade para com ativistas angolanos presos

Hoje não vamos ter uma entrevista como é habitual, vamos antes fazer fotografias sonoras do que foi a concentração pela libertação dos presos políticos em Angola. Desde o dia 20 de junho foram colocados em prisão preventiva, 15 jovens ativistas, suspeitos de estarem a preparar em Luanda um atentado contra o Presidente e outros membros dos órgãos de soberania. Na ocasião, a informação foi dada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de Angola à agência noticiosa Lusa. Esta quarta-feira, dia 29 de julho, a solidariedade para com os ativistas angolanos fez-se notar também em Lisboa com uma concentração no Largo de S. domingos no Rossio. Testemunhos de Aline Frazão, José Eduardo Agualusa, Kiluanji Kia Henda, Selma Uamusse​, entre outros cidadãos solidários.

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Áudio 66 – Lília Momplé E Contos Sobre Colonialismo

O programa de hoje é o segundo feito no âmbito da rubrica PéKáPéLá, onde retratamos experiências a partir do continente mãe, África. Ainda na cidade de Maputo, em Moçambique, encontrei-me com Lília Momplé, escritora nascida na Ilha de Moçambique, que tem como tema central o colonialismo português. Escreveu vários livros de contos aos quais ainda poucos têm acesso, que deram origem à Antologia de contos de Lília Momplé.

Áudio 65 – Nzualo Na Khumalo: Ensaios Fotográficos Em Maputo

Hoje o programa é feito pensando na nossa nova rubrica PékáPéLá, onde retratamos experiências em viagens ao continente mãe, África. Desta vez a viagem leva-nos a Moçambique, Maputo, onde conversei com Eliana Nzualo. Eliana é uma das fundadoras do blogue Nzualo Na’ Khumalo, onde ensaios fotográficos servem de base para contar estórias identitárias de duas jovens moçambicanas e não só. Vamos conhecer Eliana Nzaulo e o seu blogue!

 

PéKáPéLá: ALTO-MAÉ QUE MORA EM MIM

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Jovem moçambicano que podia ser um afrolisboeta, a meu ver [Carla Fernandes]!

Por Hirondina Joshua (Moçambique/Maputo)

O bairro onde moro foi atropelado pelo tempo que forçosamente nega-se a empacotar outros destinos. Chama-se “Alto”…Quando a chuva que lhe corre é fria não nas suas temperaturas, escorregadia como a brisa que se ventea nos buracos felizes destas ruas serpenteadas em areias ao invés de betão.

Chama-se “Alto”…Este habitat de “latas” novas trazidas por sei lá quem a este paraíso urbano sem nome em nós, queremo-lo assim entre-alma e carne, passageiro, nomes são significados que não significam nada. Além de mais não os sabemos ler nem escrever e se soubessemos isto menos significaria. Em nós há um bairro onde moramos e nos moramos, vivemos e morremos a cada milésimo de segundo. E isto basta-nos. Basta-nos.

Tenho um alto-maé que vive em mim

alto-maé de casas que testemunham o silêncio a fúria em cinza

das moças que vestem saias que demarcam fronteiras suspeitas

com os rapazes que ao invés de calças vestem “tchuna boys”

suas roupas interiores são mais curiosas que o mundo.

Há muitos alto-maés em mim,

das flores que transpiram a volúpia nocturna perto da pelé-pelé

das rotundas de jardins quadrados

da gente alegre e mais esperta da cidade (alto-maé não me deixa mentir)

nem suas mesquitas e igrejas calam a voz de Deus aqui onde o sol se senta

mesmo de noite

do negro mercado negro que devia se chamar lua ao invés de “estrela” pois nela embarcam todas ânsias daquelas gentes, muitas delas não daqui,

da padaria Moçambique que desde sempre alimentou a esperança de um melhor pão,

dos barulhos quentes dos ralis antes do fim de semana

do sapateiro que canta com o seu martelo abingalado

de alguém a escrever um verso que talvez não mude nada, mas um verso é um verso,

um verso é um universo

o inverso disto é que não era é humano

cada um com o seu alto-maé.

Este é o meu. Este foi o que me deram. Este é o que vejo e que me olha sempre.

De um outro não preciso.

Daqui consigo sentir a voz de todos alto-maenses

porque o som não tem gente na sua metafísica

nem um bairro existe quando não se tem por existir

repito: cada um com o seu alto-maé, e este meu é altíssimo em mim.

Áudio 64 – Blaxploitation e Afrofuturismo no Queer Festival Lisboa

Pedro Marum um dos programadores do Queer Festival volta a falar com a AfroLis sobre a parceria que fazem, mais uma vez com, o Africa. Cont. Desta vez, as duas entidades juntam-se na realização do ciclo “Are you for real?” Uma viagem Afrofuturista do Blaxploitation às Utopias Queer Visuais e Sonoras, que vai acontecer de 4 a 11 de julho. Pedro Marum conta-nos mais em entrevista.

Nós Nos Livros: “Sangue Negro” de Noémia de Souza

Eu acho importante ler este livro porque…

por Hirondina Joshua

Um livro que me fez viajar sem sair do sítio foi: ” Sangue Negro ” de Noémia de Sousa, poeta moçambicana.
É um livro de poemas ou atrevo-me: é um livro de poesia.
Que assenta na realidade diária, tem uma forte expressão coloquial. Poesia de combate mas que ao mesmo nos traz intimidade, privacidade do quotidiano da autora. Nota-se nele o “modus vivendi” das pessoas que a cercavam e mais particularmente o meio envolvente.
Textos que passamos disso, afinal contam a História de um povo, a vida das gentes diversas unidas por uma só força. A força de viver e ver a vida mais digna com respeito aos Direitos Humanos.
Poesia do quotidiano, mas com alma divina e para seres humanos que na verdade buscam afinal um pouco do que têm dentro: a bondade, a justiça e a misericórdia.

DEIXA PASSAR O MEU POVO

Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimbas chegam até mim
— certos e constantes —
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar…
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Maria cantam para mim
spirituals negros do Harlem.
Let my people go
Snague Negro— oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo –,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
Let my people go.

Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo…
(Dentro de mim,
oh let my people go…)
deixa passar o meu povo.

E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda — minha Irmã.

Escrevo…
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada de Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças,
algodoais, e meu inesquecível companheiro branco,
e Zé — meu irmão — e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Noemia de SouzaTodos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso do rádio
— let my people go,
oh let my people go.

E enquanto me vierem do Harlem
vozes de lamentação
e meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insônia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Marian gritando comigo:
Let my people go,
OH DEIXA PASSAR O MEU POVO.