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Áudio 166 – Lugar de Fala e Relações de Poder com Jota Mombaça (Parte I)

“Eu me coloco como atitivista do lugar de fala, como uma pessoa que acredita e aposta no lugar de fala como uma ferramenta política importante nesse momento da história. (…) O lugar de fala não é estático.”

Jota Mombaça vem do Brasil, onde começou a desenvolver práticas da escrita, das artes performativas que refletem a sua racialidade, desobediência de género  e as violências a que estas posições estão associadas.

Esta entrevista divide-se em duas partes e na próxima semana (26 de outubro 2017) continuamos com a reflexão sobre as valências do conceito de Lugar de Fala e as dinâmicas das relações de poder, sempre considerando a violência presente nestas relações e posicionamentos.

 

Nós No Cabelo – Testemunho de Tatiana Almeida

 

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Olá o meu nome é Tatiana Almeida mais conhecida por Taty tenho 25 anos e venho contar um pouco da história do meu crespo.

Houve tempo em que as meninas tentavam de todas as formas esconder o volume do cabelo, retiravam os cachos e eliminavam os crespos. Custasse o que custasse, todas as técnicas disponíveis eram usadas para deixar as madeixas lisas. Produtos químicos, escova e chapinha faziam parte da vida de muitas mulheres desde a infância. Algumas nem sequer sabiam como era o cabelo e era esse o meu caso mas o mais estranho é que eu gostava de afro e de cabelos encaracolados tanto que mesmo alisando e desfrisando o cabelo usava gel e hidra caracois para fazer caracois, e em 2014 eu conheci o meu actual namorado Telmo que me questionava o porquê de não usar o cabelo natural.

Eu respondia que tinha medo e que não iria saber cuidar dele e que já nem sequer me lembrava de como ele era antes sem químicos. Ele foi insistindo que tentasse e que ia gostar de mim na mesma com o cabelo crespo ou não. Entretanto eu decidi tentar fiquei vários meses sem químicos mas estava a ser difícil ele não estava a dar jeito nenhum porque a raiz estava grossa e as pontas lisas e eu estava a detestar… depois decidimos fazer uma viagem para a Inglaterra para angariar algum dinheiro para a nossa universidade e a partir daí como trabalhava muito não me preocupava muito com o cabelo até que ele foi crescendo bem forte e como andava com ele preso não ligava as pontas que estavam finas.  A fim de um ano voltamos para Portugal e foi aí a primeira vez que fiz o meu dito big shop e foi aí que conheci o meu verdadeiro cabelo e adorei os meus caracois pequeninos mas meus e ao longo dos meses fui cortando cortando e hoje o meu cabelo é completamente natural.

Decidi assumir o meu crespo e não quero outra coisa. É muito AMOR da raiz as pontas. Aconselho a todas a fazer o mesmo mesmo porque existem produtos acessíveis para todos os tipos de cabelo no princípio não é fácil mas depois será só AMOR. Continuar lendo

Nós No Cabelo – Testemunho de Yara Costa

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Sou natural à 6 anos (desde 2011). Deixar relaxante/desfrisante foi a melhor decisão que alguma vez tomei e a mais libertadora sem dúvida. Foi a partir desse momento que comecei a aceitar o meu cabelo crespo tal como é, sem necessitar da aceitação dos outros e da sociedade cujos padrões de beleza europeus escravizam a mulher africana e outras que não tem o cabelo liso.

Depois de sentir na pele a discriminação vinda não só da sociedade, mas da própria família, por ter o cabelo “bedju” (velho/crespo  em criolo como dizem os meus familiares), deixar o meu cabelo natural foi uma verdadeira jornada.

Antes as correntes estavam nos nossos pescoços, mãos e pés, mas hoje encontram-se sobretudo na nossa cabeça, literalmente. Ao ponto de os próprios africanos desprezarem o que cresce da sua cabeça.

Posto isto, aceitar o nosso cabelo natural não é moda, é uma afirmação de libertação dos padrões de beleza que nos foram impostos e uma forma de homenagear a herança genética e cultural que nos foi transmitida pelos nossos ancestrais.

O nosso cabelo é mais do que cabelo, é pura arte, é o único tipo de cabelo que cresce em direcção ao sol e em forma de espiral (o que nós chamamos de “caracóis”, uns mais apertados do que outros), o que para mim resulta numa coroa, bela, imponente e versátil. Porquê esconde-la? Porquê ter vergonha duma coroa natural?  Segurem as vossas coroas rainhas 😉

 

 

Nós No Cabelo – Testemunho de Salete Costa

20631530_10213964294205314_1378630587_nAos 11 anos foi quando pela primeira vez desfrisei o cabelo. Um pouco porque me iria facilitar na hora de me pentear de manhã, um pouco para me sentir mais “normal” como as minhas amigas na escola. Depois de desfrisar, os meus colegas de escola deram-me algum descanso e deixei de ouvir algumas das piadas que era alvo. Mas ainda assim ouvia.

Alguns anos mais tarde, aos 17 anos começou a cair imenso cabelo, (quando digo imenso, estou a dizer IMENSO) foi nessa altura que decidi deixar de desfrisar. Por falta de opção comecei a deixar o meu cabelo ao natural.

Qual de nós, mulheres, nunca passou horas e horas ao espelho a tentar fazer o possível e o impossível para ficar bonita?  E parte dessas horas até é para nos convencermos a nós próprias que estamos bem e que vamos receber vários elogios. O mundo cai ao chão quando não.

Este ano faz seis anos que fiz a transição, comecei a usar tranças e foi aí que encontrei a minha identidade, aquilo que verdadeiramente sou. Já as tive de várias cores, e confesso que quando tiro sinto falta delas, porque é desse jeito que me sinto ligada à minha cultura, que a homenageio. É com as tranças que grito ao mundo que sou africana e tenho MUITO ORGULHO nisso.

E hoje vos digo que, não é cogumelo, não é ananás, não é palmeira, não é ninho de ratos… É cabelo, e é o meu cabelo. Respeito é bom e ele também gosta.

Foram milhares de anos de evolução que o tornaram assim. É meu, é bonito e acima de tudo é a sua natureza ser assim, não me vou transformar no que não sou só porque vocês gostam de “brincar” com o que não conhecem.

O que para vocês são comentários inofensivos, para mim são comentários maldosos, que me magoaram (mesmo gozando também e fingindo muitas vezes que não me afetava). Basta! Uso o meu cabelo como eu quero e me sinto bem.

O importante é assumirmos a nossa natureza para nós próprios e a maneira como usamos o nosso cabelo não deve ser mais do que isso mesmo, um penteado.

Nós No Cabelo – Testemunho de Antonieta Gomes

Uso cabelo natural à 4 anos!! Tudo começou numa altura em que recebi mais informação sobre as minhas origens e história e também sobre os grandes revolucionários africanos espalhados pelo mundo. Para mim usar cabelo natural é aceitação é identidade e não moda. Ao princípio foi um pouco difícil pois não entendia nada sobre cabelos crespos toda a vida desfrisei, trancei, usei tissagens e até mesmo perucas.. hoje em dia quem usa o cabelo natural por estar na “moda” está a usá-los pelos motivos errados mas cada pessoa leva o seu tempo para despertar.

Eu gosto do estilo curto portanto estou constantemente a cortar o meu cabelo… por vezes deixo-o crescer até um certo ponto e vou fazendo tranças para mudar de visual mas acabo sempre por cortá-lo

Hoje só tenho a agradecer às pessoas que me incentivaram a usar o cabelo natural! A escravatura foi-nos imposta até na beleza… nao sei porquê mas quando corto o meu cabelo sinto-me livre..

Nós No Cabelo – Testemunho de Jéssica Silva

Desfrisei o meu cabelo pela primeira vez quando tinha cerca de 11/12 anos, não me lembro bem da idade, mas lembro-me que foi porque umas amigas minhas tinham “relaxado” o cabelo (aquela espécie de desfriso mais fraco que passado uns tempos parece que o cabelo volta ao normal) e eu era a única com o dito “cabelo bedjo” no grupo de amigas, então decidi pedir à minha mãe para me o desfrisar. Ela não queria, mas depois de muito insistir ela lá me fez a vontade. Foi uma das piores decisões de sempre, pois o meu cabelo até era saudável, estava grandinho porque a minha mãe tratava bem dele e nem sequer era assim tão dito “bedjo”. Depois de desfrisar, o meu cabelo começou a partir imenso, principalmente na parte de trás da cabeça, e foi por volta dessa altura (12/13 anos por aí) que comecei a usar postiço, pois até então nunca tinha usado. Acho que depois do primeiro desfriso só voltei a desfrisar o meu cabelo mais uma ou duas vezes, não mais do que isso. A minha transição para o cabelo natural foi um bocado sem querer, o facto de usar postiço e depois mais tarde tissagem também, ajudou-me a transicionar mas não foi propositado. Quando me apercebi que o meu cabelo já estava de volta ao seu estado original e estava sem saber o que fazer com ele,uma amiga estava a começar a jornada natural dela o que me motivou a começar a minha também, e isso aconteceu na mesma altura em que estava a tornar-me mais consciente do mundo em que vivemos e a aperceber-me da importância de manter o cabelo longe dos químicos, e foi então que decidi deixar o meu cabelo no seu estado natural. No início tinha alguma vergonha pois não sabia bem como tratar dele nem como o pentear para não parecer uma criança, e também porque na escola devia ser uma das únicas com o cabelo natural, mas sentia-me livre e com o tempo a auto-estima começou a subir. Como Marcus Garvey uma vez disse, é necessário remover os “kinks” da nossa cabeça e não do nosso cabelo, e assim que fiz isso consegui aceitar-me a 100%. Há uma citação, não sei de quem, que diz: “Being natural is the closest I can get to being myself” e eu não podia concordar mais. Agora, sinto-me de facto empoderada com o meu cabelo natural (principalmente naqueles dias em que ele porta-se bem, LOOL). Apesar de em Londres parecer ser norma o uso de perucas e lace fronts, adoro o facto de ver muitas jovens com o cabelo natural, de haver e de ver imensos grupos e páginas nas redes sociais que incentivam as mulheres negras a deixarem os químicos, que se apoiam e dão conselhos umas às outras das melhores técnicas para certos penteados e os melhores produtos para usar para conseguir os melhores resultados. Funciona também como uma maneira de criar alguma união entre nós enquanto mulheres negras. O nosso cabelo é uma afirmação de quem somos, é também uma arma contra a opressão e contra a ditadura do cabelo liso e “fino”. É a nossa coroa e devemos usar com orgulho. Como a actriz Afro-Americana Tracee Ellis Ross disse “I love my hair because it’s a reflection of my soul. It’s dense, it’s kinky, it’s soft, it’s textured, it’s difficult, it’s easy and it’s fun. That’s why I love my hair.”.