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O trabalho realizado através do audioblgue Rádio AfroLis deu origem à criação da AFROLIS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL, em outubro de 2015!

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Nós No Cabelo – Testemunho de Maria Andrade

Esta é a minha história com os meus nós. Já passei por várias fases, já fiz de tudo um pouco para desfazer-me desses nós que pensava existir. Lembro-me bem quando menina a minha mãe nunca me deixava com o cabelo solto, andava sempre de tranças, para ela era normal, porque não tinha outra forma de “domar” aquele volume todo (foto).
Comecei a usar químicos desde muito cedo, aos 13/14 anos. Ao ver as minhas amigas todas desfrisadas, achava que cabelo bonito era cabelo liso, porque crescemos com aquela coisa que SÓ cabelo liso é que é bonito e também porque as pessoas gozavam com o cabelo no seu estado natural, chamando de “cabelo cripi”. Na altura era uma expressão muito usada comparando o cabelo crespo à massa de cimento que colocavam nas paredes das casas por fora, ou seja, um cimento duro e esta foi uma expressão muito forte que marcou muitas de nós na época e deixava- nos com a cara no chão, sentíamos uma enorme agonia por dentro e chegávamos ao ponto de odiar os nossos cabelos. Não fomos educadas/os para nos amarmos e aceitarmos como somos e daí nasciam as diferenças.

Foi a partir desse momento que resolvi desfazer dos nózinhos. Com os famosos químicos eram uma boa solução para ser como as outras, ser mais bem aceite, cabelo solto ao vento, “mais bonita” mas, não tardou muito fiz o meu primeiro big chop aos 20/21 anos (foto) derivado a uma queda de cabelo provocada pelo uso dos químicos, mas ainda assim não aceitava aquele cabelo.

Na altura comecei a gostar dos cachos, mas como achava que não eram tão perfeitos  assim, resolvi usar químicos para ficar com o cabelo mais cacheado, porque só o aceitava se estivesse “bem arrumado”. Não cheguei a dar tempo para ver o meu cabelo como era, 100% natural.

Com 23 anos emigrei e a partir daí encarei com uma outra realidade, encontrava-me na terra da chapinha, mas continuei sempre com os meus cachos e com os famosos químicos sempre comigo e foi então que tive uma segunda queda de cabelo, mas desta vez muito  pior porque tive uma pelada, uma queda de cabelo brusca e o meu couro cabeludo ficava liso, dois buracos na cabeça onde não existia um fio de cabelo. Nesse momento foi um  desespero, mas eis que seguidamente engravidei, o que veio a ser a minha salvação,  porque com as hormonas o cabelo voltou a crescer rápido e foi uma altura bastante boa,  porque durante a gravidez não usei químicos, o meu cabelo estava bonito, brilhoso, bem cacheado.

Após o nascimento do meu filho veio a revolução do alisamento progressivo e ninguém tinha-me visto ainda de cabelo liso porque só usava cabelo cacheado até então. Foi a partir daí que começaram-me a incentivar para alisar o cabelo fazendo progressiva, era uma época em que estava a procura de trabalho, as pessoas com quem me dava diziam que era melhor alisar porque seria mais fácil, ou seja, uma ditadura, uma imposição, era uma forma de conseguir um trabalho (com o cabelo liso), essa é a sociedade onde vivo, onde o preconceito a descriminação racial reina. Derivado a esses fatores resolvi fazer a progressiva, voltei a ter o cabelo liso tendo durado apenas um ano porque para mim não dava mais!, não combina comigo, não era eu.

Voltei a cortar o cabelo de novo e já lá vão 4 anos de muito amor e dedicação, amo a minha coroa de paixão, não quero viver nesse sistema, o meu filho quer deixar crescer o afrozinho e incentivo muito. Já chegou-me a dizer que achava o cabelo liso mais bonito e que não é negro, que é francês! Enfim, é uma longa batalha, porque é a imagem que lhe chega, é a imagem que tem dos desenhos da escola, os coleguinhas tem todos cabelo liso, mas tento explicar-lhe o porquê, é a minha obrigação fazê-lo entender qual é a sua origem e a amar-se acima de tudo.

Já levei pessoas próximas a mim a fazerem Big Chop, que inspiraram-se na minha pessoa e hoje são felizes e acima de tudo livres. Não se deixem prender nesses preconceitos,  amem-se como são sejam vocês mesmas, somos rainhas, somos mulheres de fibra e essa é a nossa força, é ela que nos destaca, é ela que nos representa!

Obs: Esses famosos “NÓS” não existem foram criados para nos manterem prisioneiras, LIBERDADE!!

Nós No Cabelo – Testemunho de Cátia Moreira

Toda a minha vida conheci a minha carapinha de várias maneiras: desfrisada, trançada, com tissagens, postiços entre outras.

Tudo isto só ia deteriorando, não só o meu cabelo que agora sei ser parte da minha essência e das minhas raízes, mas também a percepção que eu tinha em relação ao ser africano, porque o estereótipo que conheci desde muito cedo foi, que uma africana para ser aceite na sociedade tinha de ter um cabelo liso, claro e completamente perfeito. Ou seja, tínhamos que sacrificar a nossa carapinha em prol de uma aceitação física por parte dos mais ignorantes.

Resolvi meter um ponto final a este ciclo de ir matando aos poucos aquilo que nasceu comigo, que foi crescendo comigo, que me foi concedido pelos meus antepassados que é a minha carapinha, rija, encaracolada, preta, brilhante e linda.

Vai fazer três anos que uso o meu cabelo natural, sem químicos e sem fachadas. Descobri que sou mais feliz, mais bonita até. Hoje acordo e vejo todos os dias a mesma pessoa, o mesmo eu, e sabe tão bem… é uma sensação petrificante porque nós podemos ser bonitas com o que nós temos com o que nos pertence sem termos que recorrer a modas e a estereótipos de que a mulher africana só é bonita com perucas lisas, claras e brilhantes.

Pode ser ou parecer exagero da minha parte, mas eu sou uma pessoa diferente graças à minha carapinha natural, porque sei que é real e é minha.

Áudio 163 – Violência Policial contra jovens da Cova da Moura reconhecida pelo Ministério Público

Mamadou Ba, dirigente da SOS Racismo, comenta acusação do Ministério Público noticiada pelo Diário de Notícias no início desta semana (10 julho, 2017):

“Dezoito agentes da PSP, entre os quais um chefe, estão acusados dos crimes de tortura, sequestro, injúria e ofensa à integridade física qualificada, agravados pelo ódio e discriminação racial contra seis jovens da Cova da Moura, na Amadora.

É uma acusação sem precedentes no nosso país e surge após dois anos de investigação da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária (PJ) ao caso de violência policial contra seis jovens, ocorrido a 5 de fevereiro de 2015, que teve como palco a esquadra da PSP de Alfragide, que serve o bairro da Cova da Moura (…)” Continuar a ler…

Notar que referência temporal “ontem” na entrevista corresponde ao dia 11 de julho de 2017.

Entrevista com Flávio Almada (LBC), um dos jovens agredidos na esquadra de Alfragide em 2015:

Áudio 44 – Violência Policial na Cova da Moura

Outros links:

Caso Cova da Moura: falsificação de autos pela polícia não é inédita

Advogada das vítimas considera acusação dos 18 agentes da PSP uma “decisão histórica”

 

Nós No Cabelo – Testemunho de Monique Eleotério

Transição capilar. Termo estranho. Não acho que passei por uma transição capilar. Acho que passei por uma transição de consciência e o cabelo coincidentemente caminhou junto com as outras mudanças.

Quando fui ficando uma “mocinha” por volta dos 11 ou 12 anos começam as tentativas de dar um jeito no cabelo. Meu único “problema” era o volume, eu tive sorte, tinha um cabelo fino e com cachos. Tentava relaxamentos em alguns salões e era sempre a mesma coisa: saía com o cabelo molhado bem baixinho e orgulhosa, mas em seguida vinha a frustração do cabelo que secava e ficava cheio de novo. Mais uma vez não tinha dado certo. Eu não conseguia os cachos definidos e sem volume das outras meninas, aquele tipo um “miojinho” como chamamos por aqui.

Com o passar do tempo e da idade pude optar por tratamentos mais fortes, mais eficazes. Usei guanidina, hidróxido de sódio e progressiva, que me lembre. Não esqueço a sensação da cabeça queimando, o olho ardendo e a dica infalível da cabelereira para passar vinagre nas feridas do couro cabeludo. Placas de casca nas queimaduras e aquele cheiro de vinagre, me lembro nitidamente. Cheguei ao ponto de ter os cabelos totalmente alisados.

Enfim, uma história como a maioria das pretas por aí, com traumas, com agressões, com medo, vergonha e insegurança, humilhações em público. Nada muito novo na construção da auto-estima de uma jovem preta brasileira. Mas mesmo com tudo isso eu queria ser atriz. Uma ideia que eu hoje acho absurda. Mas que me fez ir até uma agência de publicidade, buscar oportunidades em comerciais. Me lembro da fala da responsável pelo casting como se fosse hoje: “Você é bonita, mas com esse cabelo não posso vender você. Preciso de algo natural.” Pintei o cabelo de preto novamente no dia seguinte. Em seguida comecei a deixar de relaxar. Fiz tranças de raiz para ajudar o crescimento e depois coloquei implantes de trança para ajudar no período que estava híbrido. Nada ligado a identidade racial. A busca por trabalhos com atriz acabou, mas o cabelo já era outro e o contextos da vida também, então seguimos em frente.

Nessa altura já surgiam os questionamentos das mudanças: “Por que você fez isso no cabelo”, “Prefiro seu cabelo assim ou assado”. Nossos corpos pretos são tão tidos como propriedade pública que fica subentendido o direito de qualquer pessoa questionar ou opinar sobre nossa aparência, independe de abertura ou intimidade para tal. Isso foi o mais marcante nesse processo de mudança para mim. Era como se o tempo todo as pessoas tentassem me dizer que limites poderia atingir, que decisões poderia tomar. O tempo todo queriam me impor que eu precisava de aprovação para ser assim ou assado. Tentavam me lembrar que eu não poderia ser algo que desagradasse. Obviamente essa possibilidade de aceitação se deu pelo fato de eu ter a pele relativamente clara, o que neste país serve como atenuante e como instrumento de alienação ainda maior.

Certo dia tirei as tranças e cortei o cabelo no banheiro de casa. Uns 3 ou 4 centímetros de raiz sem química foi o que ficou. A comoção foi geral, críticas atrás de críticas. A partir daí fomos nos conhecendo, nos experimentando. Descobri aos 22 anos como era meu cabelo realmente. Já não me lembrava mais. Três anos depois ele estava enorme e já havia aqui no Brasil um boom da moda “black”. Eu estava no “padrão”, na moda. Óbvio que uma moda restrita ao alternativo, ao cool, nada que fosse de bom tom para uma entrevista de emprego. Mas já era muito mais do que eu tinha atingido a vida toda. Os cachinhos definidos e o volume; tudo bem dentro do modelo que as páginas da internet estavam divulgando. Minha auto-estima começou a dar bons sinais, frágeis, sem base concreta, mas bons sinais. Mas junto com esse processo ocorria também uma revolução política na minha cabeça, a consciência de ser preta, o contato com posições políticas equivocadas, dor, sofrimento, estudos, decepções…Comecei a me compreender como toda dentro desse processo: meus relacionamentos, minha estética…

E aí observar que meu cabelo virava objetivo de outras pretas que não estavam nesse “padrão” da moda começou a me incomodar. O excesso de elogios nas ruas também. Me sentia invadida, exposta. Pessoas brancas tentavam me tocar o tempo todo e faziam questão de me demonstrar sua aprovação, como se eu precisasse dela. A “necessidade” de me elogiar parecia um ato de misericórdia. Meu cabelo natural para mim começou a se concretizar como prova da minha existência enquanto resultado da miscigenação, dos ideais de embranquecimento, da hierarquização dos tons de pele, virou um peso. Decidi então fazer dreads e aí se instaurou novamente o caos. Ninguém gostou. Família, amigos, pretendentes. Ninguém apoiou, ninguém gostou, ninguém entendeu. No início eu me dei um pouco ao trabalho de explicar, mas cansei rápido, impaciente que sou. Alonguei os dreads, porque sempre gostei de cabelos grandes mesmo. E aí melhorou um pouco. Fiquei exótica, diferente, estilosa. Mas a pergunta “como é que você vai tirar isso depois” não acabava nunca. Assim como o ar de desespero quando eu falava que não dava para “tirar”. Fui muito feliz com meus dreads, mas por questões religiosas precisei raspar a cabeça. Como fiquei de resguardo um bom tempo não me viram careca. E quando retornei com os cabelos curtos explicava o motivo e então não questionavam muito. Mas questionavam sempre. Hoje, aos 27 anos, 1 ano após raspar totalmente a cabeça tenho um pequeno black, voltando a crescer. Não sei o que acontecerá com ele, mas com a correria da vida acho que vou deixa-lo assim, pra não ter trabalho com manutenção. Não prometo nada, sinto saudades dos meus dreads. Mas hoje meu cabelo não me pesa, é extensão do que eu sou. E é muito bom tocá-lo e senti-lo parte de mim, não um acessório ou um adorno.

Vejo muitos textos incentivando a transição. Mas não vejo quase nada que nos diga que o fundamental é sermos livres. Passei todos esses anos recebendo “conselhos” e “opiniões”. Tive que engolir pessoas que se achavam no direito de me dizer como eu deveria ser, o que deveria fazer e me cobrando explicações por decisões minhas sobre minha aparência. A maior parte do que vemos hoje sobre nossos cabelos tenta ainda nos dar soluções sobre como podemos adequá-los, como podemos torná-los agradáveis para nós e para os outros, sobre como podemos mudá-los, amenizá-los. Quase nenhuma são as referências que nos dizem “alimente-se bem para fortalecer o cabelo, mantenha o higienizado para sua saúde, acorde, tome um banho, saia livremente e sinta-se bonita assim.”. Eu tento me dar esse direito, embora uma auto-estima danificada por tantos anos insista em me deixar insegura. A liberdade em aceitar nossos cabelos é consequência da liberdade de aceitar a nós mesmos. E esse é um trabalho árduo e constante.

Áudio 162 – Performance: “Preta”, por Gio Lourenço

No programa de hoje falamos sobre a criação do ator de origem angolana, Gio Lourenço.

“PRETA parte das memórias do criador, do período em que nos anos 90, chegado de Luanda, passa a viver no Bairro do Fim do Mundo. O corpo reencontra os gestos e os itinerários da transição da infância para a juventude.
Preta era a cadela feroz que delimitava a fronteira entre a casa e a escola, obrigando a experimentar movimentos de fuga, de silêncio e de transgressão.” Continuar a ler…

Nós No Cabelo – Testemunho de Mindy

Olá sou a Mindy!

A minha transição para o natural começou praticamente em 2014 (quando deixei de usar químicos no cabelo). Foram vários fatores que influenciaram a minha mudança e aceitação, mas a coragem para cortar e começar do zero só veio em 2015.
Confesso que não me imaginava com cabelo curto, nunca cortei mais do que pontas estragadas… Não me arrependi e confesso que durante esta caminhada:
– Aprendi a aceitar a minha carapinha tal como ela é; vou aprendendo a ter paciência para tratar do meu cabelo; aprendi o porquê de não gostarmos que as pessoas toquem no nosso cabelo (agora faz sentido); aprendi a lidar com perguntas curiosas, por vezes ignorantes, sobre o meu “tipo” de cabelo; aprendi que não preciso de alisar a minha carapinha para ser aceite.
Conclusão: sinto-me mais ligada às minhas raízes. Tenho consciência do que a minha carapinha  representa para mim. E tenho orgulho dela tal como é.
Se soubesse o que sei hoje e se pudesse voltar uns anos atrás, não usaria químicos para relaxar o meu cabelo, sabendo que existem outras maneiras de amaciá-lo sem recorrer a químicos.

O objetivo continua lá, o caminho ainda é longo, os olhares desaprovadores continuam a espreitar pelo canto, mas sou fiel à minha .