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O trabalho realizado através do audioblgue Rádio AfroLis deu origem à criação da AFROLIS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL, em outubro de 2015!

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Nós No Cabelo – Testemunho de Carina Ismael

O meu nome é Carina Ismael, tenho 27 anos, nasci em Lisboa e sou moçambicana. Retornei ao natural há 4 anos e 3 meses. Voltar a ter o cabelo natural foi como renascer. Já desfrisava o cabelo desde os 9 anos e desfrisei até aos 22. Então já eram demasiados anos sem fazer a mínima ideia de como era realmente o meu cabelo. Passei mais de 1 ano em transição sem saber que estava em transição sequer. Estava pura e simplesmente cansada de ir ao cabeleireiro para ter um cabelo liso, que só ficava liso no primeiro mês, que não passava dos ombros porque as pontas se partiam sempre, e estava cansada de ir “disfarçar a raiz” porque já estava muito grossa. E eu já me perguntava porque tinha que disfarçar algo que crescia na minha cabeça. Bem, hoje sou grata por esta raiz grossa porque é graças a isso que o meu afro, que tanto me orgulho, tem mais volume. Cabelo afro não é só moda, embora esteja na moda. Cabelo afro é identidade, é teres orgulho da naturalidade, das tuas raízes sem disfarce.

Especial – Intervenção de Joacine Katar Moreira na Conferência “Racismo e Cidadania”

Ontem foi a conferência “Racismo e Cidadania” no Teatro S.Luiz, em Lisboa, na qual partilhei a mesa com Francisco Bethencourt, Mamadou Ba e Jorge Vala. A minha gaguez não me permitiu expressar-me de todo, o que lamento profundamente! Para que não fique nada por dizer, partilho agora aqui o que planeei para a minha intervenção. (Publicado na página do Facebook de Joacine Katar Moreira)

Conferência “Racismo e Cidadania”
Teatro São Luiz
24 de Maio de 2017
18h

Antes de mais queria saudar o Francisco Bethencourt pela iniciativa, a Joana Gomes Cardoso pelo convite e naturalmente a EGEAC e ao Teatro S. Luiz.
A minha intervenção será uma reflexão sobre a participação política dos cidadãos de origem africana em Portugal.

Esta conferência é importante porque é preciso e é urgente falar de racismo no país. Isto porque Portugal é um país historicamente e estruturalmente racista.
A sociedade portuguesa, apesar de alguns avanços ocorridos (mais em termos teóricos do que na prática quotidiana) padece daquilo a que posso chamar de esquizofrenia racial, porque de um modo geral ninguém vê, reconhece e identifica o racismo, os comportamentos racistas, as leis racistas, as observações racistas, excepto aqueles que são as vitimas desse racismo. Aliás, um bom exemplo desta esquizofrenia é que ninguém aceita que é racista neste país, apesar de na realidade os cidadãos de origem africana verem-se confrontados sistematicamente e quotidianamente com situações de racismo e discriminação.
E porque é que eu falo de esquizofrenia? Porque, por coincidência, estive a ler sobre esta patologia e consegui ver uma correlação com a forma como os racistas se comportam e posso aproveitar para dar alguns exemplos concretos.
Parece que os cinco sintomas desta patologia são os delírios, as alucinações, as alterações de pensamento, as alterações de afectividade e a diminuição de motivação:

Delírios: são ideias falsas, das quais o paciente tem convicção absoluta. Aqui se enquadram as ideias de que os negros são inferiores, ou de que o colonialismo até ajudou a desenvolver o continente africano ou que o colonialismo português foi suave em comparação com os outros países colonizadores.

Alucinações: são percepções falsas (dos órgãos dos sentidos). Aqui poria a ideia de que um grupo de jovens negros pode constituir algum perigo, a falácia do racismo inverso, por exemplo.

Alterações do pensamento: as ideias podem se tornar confusas, desorganizadas ou desconexas, tornando o discurso do paciente difícil de compreender. Tais como dizer que tem amigos negros e ter um discurso racista; ou então estar casado com um negro ou negra e julgar que isso é um atestado de não-racismo óbvio; ou então gostar muito de guineenses mas achar que os senegaleses deviam ser todos proibidos de entrar em Portugal.

Alterações da afetividade: muitos pacientes têm uma perda da capacidade de reagir emocionalmente às circunstâncias, ficando indiferentes e sem expressão afetiva. Aqui eu iria mais longe e diria que não apenas dificuldades de reagir emocionalmente, mas politicamente, socialmente e culturalmente. E aqui como exemplos entra a normalização da violência policial, os despejos de bairros de comunidade de origem africana de forma absolutamente desumana, os insultos públicos racistas, por exemplo aos futebolistas; o desprezo pelos clientes negros em muitos estabelecimentos – sem que ninguém reaja contra elas.

Diminuição da motivação: o paciente perde a vontade, fica desanimado e apático. E em caso de desemprego, eu diria que culpa os estrangeiros e seus descendentes da sua situação. Esta falta de motivação para o que é bom pode originar motivação para o que é mau, como tornar-se agressivo e violento contra aqueles que julga serem responsáveis pela sua situação, ou que julga serem inferiores ou com os quais não pretende partilhar o espaço social ou a nacionalidade.

Mas voltando à participação política da população de origem africana em Portugal.
Esta intervenção poderia durar apenas 1 minuto porque não há nada que possa suportar as minhas afirmações sobre esta temática: Não há informação estatística, científica, porque a origem étnica e racial dos portugueses não tem interessado ao Estado e às suas instituições.
Contudo, Associações de afrodescendentes e a investigadora Cristina Roldão do ISCTE, aqui presentes, têm chamado a atenção para esta lacuna e esta omissão dos dados étnico-raciais dos cidadãos portugueses, que permitiria um conhecimento integral da realidade política e social, combater problemas como o racismo estrutural e dinamizar a vida política nacional com base nas diferentes realidades dos cidadãos que a habitam.

Mas podemos sempre supor, coisa esta pouco científica e pouco profissional, sobre o porquê de aparentes comportamentos políticos dos cidadãos de origem africana no cenário político português:
– Supomos que não vão votar;
– Supomos que não estão representados na maioria das esferas da sociedade – exceptuando provavelmente a esfera desportiva.
– Supomos que não se revêm nos partidos políticos, nos políticos e suas intenções;
– Supomos que continuam a comportar-se como imigrantes, limitados na sua cidadania;
– Supomos que são um segmento da população que é invisível, não apetecível pelos partidos que não os consideram cidadãos eleitores;
– Supomos que se trata de uma população alienada da vida política; com comportamentos mesmo apolíticos;

Cinco aspectos se colocam como imediatos entraves à participação política dos cidadãos de origem africana:
1 – As desigualdades sociais e económicas que garantem a sua posição de fragilidade social e de exclusão e os limitam fortemente nas diversas esferas, quer no acesso ao ensino superior, a melhores empregos, melhores condições de habitabilidade, etc.
2- A lei da nacionalidade vigente – que rejeita a cidadania a indivíduos que mesmo nascidos em Portugal são tratados como estrangeiros até à idade adulta. Depois estranha-se a aparente alienação política destes cidadãos;
3 – A não disponibilização dos dados étnico-raciais que permita uma maior atenção e maior conhecimento sobre a realidade social dos negros portugueses, e que possa fazer face a situações de discriminação e de racismo que afetam estas populações de forma específica.
4 – O facto dos imigrantes, na sua maioria, não poderem exercer o direito de voto em Portugal, apesar de serem residentes e contribuintes. Este dado é pertinente se tivermos em conta os entraves burocráticos que a maioria tem para aceder à nacionalidade. Isto faz com que muitas pessoas, algumas há mais de 20 anos em Portugal, com filhos nascidos no país sejam até hoje estrangeiros.
5 – Por último, e talvez a causa-resultado de todos os entraves, o racismo estrutural da sociedade portuguesa, que empurra os negros para a subalternidade cidadã e para a invisibilidade política.

O que leva as pessoas a participar?
– Ou o Desejo de manter as coisas como estão, ou a vontade de mudar o estado das coisas;
No caso da população de origem africana em Portugal as respostas são curiosas:
– Claro que a motivação de cada um é o motor-chave para se alcançar qualquer feito. Mas para que haja motivação é preciso que hajam expectativas. E pelo o que os afrodescendentes e os portugueses naturalizados negros dizem, a questão é que não sentem expectativas sobre a política portuguesa. As suas vidas não mudariam perante as propostas apresentadas pelos partidos e políticos; a sua voz não conta; os seus interessem não são válidos.

E o que poderia criar esta expectativa?
– Maior representatividade dos negros nas instituições nacionais e em lugares de visibilidade;
– Mudança nos discursos políticos, que raramente abordam as questões que afetam esta população e os seus familiares, como a lei da nacionalidade, como o racismo e a segregação, a violência policial, como a importância do voto dos negros, etc.
– Abertura dos partidos políticos a cidadãos negros e que os queiram colocar em cargos elegíveis.

– Qual o impacto de uma maior e mais visível participação política dos cidadãos de origem africana em Portugal?
– Reforço da democracia nacional, com uma maior participação da sua população; Ou seja, a participação política destes cidadãos contribui para a consolidação da democracia em Portugal.
– Reforço da democracia nacional e europeia pois esta população dificilmente elegerá partidos racistas de extrema direita que ameaçam a democracia europeia.

 

Sobre Joacine Katar Moreira: assistente de investigação no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL e membro da PADEMA – Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana.

 

Áudio 158 – Isabél Zuaa sobre ser atriz negra

“O maior talento é permanecer nesse meio que é tão hostil para corpos que são diferentes (…) Nós somos diferentes e temos que assumir essa diferença sem constrangimentos.” (Isabél Zuaa)

Isabél Zuaa nasceu de uma mãe angolana e de um pai da Guiné-Bissau em Lisboa.  Foi aqui que iniciou a carreira de atriz e bailarina e foi para o Brasil para alargar os seus horizontes e aprofundar a sua formação. Integrou-se no grupo de Gustavo Ciriaco e, no cinema, como coprotagonista do filme Joaquim. Aqui em Portugal faz parte do elenco da peça de teatro Moçambique , de Jorge Andrade, que ganhou o prémio de “Melhor Espectáculo”, da Sociedade Portuguesa de Autores e foi nomeada para os Globos de Ouro.

 

 

Jantares do Livro

Os Jantares do Livro são uma iniciativa da Afrolis – Associação Cultural que pretende juntar amantes de literaturas negras, ou seja, livros que expressem as vivências de pessoas negras no continente africano e na diáspora, escritos por autores negros mas também por autores que expressem realidades de povos afrodescendentes.

Os jantares do livro têm três objetivos:
1) Recolher e emprestar livros para o que chamamos a “Estante Nós Nos Livros”
2) Angariar fundos para a publicação de um livro de poesia resultado da produção de textos literários do grupo Djidiu – Herança do Ouvido através das receitas dos jantares
3) Proporcionar um momento de troca de experiências com pessoas do mundo da literatura em conversas com convidados (escritores, contadores de histórias, editores, etc.)


A “Estante Nós Nos Livros” vai ser alimentada por livros doados por pessoas que venham a estes encontros mensais e queiram ter acesso a outros livros que façam parte da estante, mas todas contribuições são bem-vindas. As intenções de doações podem ser comunicadas por mail: afrolisassociacao@gmail.com.

A primeira estante estará no Atelier Aberto, no entanto, encorajamos interessados em acolher uma “Estante Nós Nos Livros” nos seus espaços, especialmente outras associações que tenham bibliotecas ou espaços de leitura, a escrever-nos uma proposta de acolhimento dos livros para afrolisassociacao@gmail.com.


Condições de empréstimo de livros:

– É obrigatório tornar-se sócio da Afrolis para levar livros emprestados da estante, mas este tipo de sócios paga apenas 5 euros anuais, desde que tragam, no mínimo, um livro para a estante.
– Haverá uma lista de livros disponíveis para empréstimo.
– Pode levar um livro emprestado quem já tenha deixado um livro para emprestar, pelo menos uma vez.
– Os livros são emprestados e devolvidos apenas nos jantares do livro e podem ser entregues por terceiros mas as requisições devem ser feitas apenas pelos sócios.
– Cada sócio pode requisitar no máximo 2 livros de cada vez, desde que traga um livro para a estante e deve devolvê-los no jantar seguinte.
– Cada sócio pode requisitar apenas 1 livro de cada vez, se não trouxer nenhum livro para a estante e deve devolvê-lo no jantar seguinte.
– Todos os livros devem ser estimados ao máximo e devolvidos nas condições em que foram emprestados para que a nossa família literária continue e crescer em harmonia!

A doação de livros pode ser preparada através do preenchimento do formulário: Inscrição  NÓS NOS LIVROS 

E no dia do jantar basta entregar os livros.

Como/Onde e quando vão ser os encontros?

Todos os últimos domingos do mês temos um encontro marcado no Atelier Aberto às 18h, momento em que recolhemos e emprestamos livros para/da “Estante Nós Nos Livros”
Das 19h30-20h00 temos uma pequena apresentação de um convidado do mundo da literatura que janta connosco e com quem os restantes convidados poderão conversar e trocar ideias.
A partir ds 20 horas jantamos comida africana por um valor de 10 euros (Reservar até ao sábado anterior ao jantar através do mail afrolisassociacao@gmail.com)

Nós No Cabelo – Testemunho de Renata

Olá chamo-me Renata e tenho 27 anos. Há um ano e tal decidi não usar mais químicos (desfrisantes) no meu cabelo. Como usava sempre extensões, o meu cabelo ficou muito danificado e tinha sempre a necessidade de desfrisar alguma parte para ficar liso e igual à tissagem. Decidi cuidar do meu próprio cabelo e usar os produtos adequados para deixá-lo mais saudável e garanto que, cada vez mais, estou feliz e satisfeita com o resultado. Esta decisão não só foi tomada pelo facto do meu cabelo estar danificado, mas também porque decidi aceitar-me como a mulher africana poderosa que sou. O meu afro representa as minhas origens, a minha cultura, a minha força, poder e o meu valor. O meu cabelo é bonito e não preciso de cobri-lo com outros penteados “aceitáveis”.

Áudio 157 – Sobre Violência e Género na Literatura

Francy Silva é doutoranda em literaturas de língua portuguesa na PUC Minas e investigadora visitante na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e fala sobre a sua área de estudo, que se foca em retratos de género e violência, nas  literaturas africanas e afro-brasileira,  feitos por mulheres negras.

Poema lido no final do programa intitula-se “Vozes-mulheres” e é da autoria de Conceição Evaristo.

Poemas da autoria de Francy Silva podem ser encontrados no site Alma Preta.

Livro Recomendado: Literaturas africanas – Narrativas, Identidades, Diásporas  (obra organizada e prefaciada por Francy Silva)

Ouçam também: Áudio 66 – Lília Momplé E Contos Sobre Colonialismo

Nós No Cabelo – Testemunho de Jacqueline

“Isto não é moda, isto não é fashion. A posição da mulher em aceitar-se e aceitar o seu cabelo natural é uma posição política, a postura política afirmar-se como negra, o nosso corpo é um espaço de resistência, temos que resistir perante a sociedade de hoje. A violência atual no Brasil contra a mulher negra que cresceu em 57% em 10 anos, é lindo ver como as nossas irmãs no Brasil estão-se a posicionar, estão-se a aceitar, estão a aparecer e é triste ver como é que a violência no Brasil aumentou em relação às minhas irmãs negras.”

“Só vais parar, só vais conseguir olhar no espelho e amares-te como és, quando finalmente entenderes que és linda, que és importante e que não importa o que a sociedade possa dizer, tens que aceitar como és, pelos nossos ancestrais, pela nossa história, tudo isto faz com que a resistência seja mais importante” “Uma forma de honrarmos a lembrança e tudo o que aconteceu com elas (nossas antepassadas) é resistir, é resistir contra essa moda fascista, contra a política em que o branco é que prevalece. Temos que estar unidos, sempre. Se te aceitares como és, já é uma forma de resistir, já é uma forma de fazer parte da revolução.” Jacqueline

Enviem o vosso testemunho em vídeo, áudio ou por escrito para mary_csc@hotmail.com  (Mariama Djalo)  ou para cjg_86@hotmail.com  (Carlos Graça).

Sobre projeto “Nós No Cabelo”: pretende ser mais um instrumento de partilha de testemunhos/experiências sobre o cabelo africano na primeira pessoa. A ideia é desconstruir a ideia de cabelo ruim/sem valor/menos bom/indomável e resgatar a nossa negritude, que é muitas vezes auto-negada/reprimida pela pressão ou repressão de padrões de beleza impostos. É questionar/debater o significado, a importância do cabelo para nós enquanto sujeitos negros, através da divulgação/narração de histórias, empoderando o nosso consciente e inconsciente.