Saudades

Saudades Sonia 1por Sónia Vaz Borges

Sinto saudades.
Sinto saudades de dançar.
Sinto saudades de dançar, mesmo que tenha dois pés quase esquerdos e nunca tenha atinado muito com os passos de kizomba e funaná e zouk nas longas noites africanas de Lisboa dos anos 90,
onde dançar era um prazer suado cheio de risos,
e não uma demonstração de passos técnicos memorizados como acontece hoje.
Sinto saudades de dançar onde o corpo era um todo e não um somente rebolar aqui e ali.
Sinto saudades de dançar,
dançar uma dança onde o companheiro embora num passo trocado e desequilibrado de dois pés quase esquerdos que tenho,
sabia levar-te e continuar a dança sem criticar e no meio de risos
” não tem mal, continua a dançar, o importante é dançar” dizia.
Sinto saudades de dançar e de ouvir uma musica sensual e não uma musica de caráter quase pornográfico medíocre.
Sinto de saudades de dançar.
Sinto saudades das músicas decoradas em frente ao rádio,
ou do set do Dj.
Sinto saudades de dançar,
onde num dançar aprendia sobre as histórias e o Cabo Verde dos meus pais e ainda no meio praticava o meu crioulo.
Sinto saudades de dançar,
onde a dançar aprendi o romance e as ser romântica.
Sinto saudades de dançar, e do pós dançar,
em que de madrugada ia-se para casa com os pés doridos, mas o ritmo continuava nos pés e o zumbido de uma noite ainda ia nos ouvidos e nas camionetas cheias.
Sinto saudades das festas em família, e da mesa sempre cheia.
Sinto saudades de dançar,
com os meus primos e primas, tios e tias, avós e vizinhos,
com as minhas irmãs e os meus pais.
Hoje deu-me para isto.
Sinto saudades de dançar,
em que dançar era brincar, rir, brigar.
Sinto saudades de dançar.
Sinto saudades de muitas coisas.
Sinto saudades

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Os Tubarões apresentados por Mário Bettencourt

“Reconhecido grupo cabo-verdiano que marcou de forma indelével a cultura musical do país de origem, regressa aos palcos para, ao lado de nomes sonantes da música feita nos países de expressão portuguesa, celebrar os 40 anos de independência das ex-colónias.
Labanta Braço Grita Bo Liber­dade, o mote do Rotas & Ritu­ais, é um dos temas do pri­meiro álbum do grupo cabo-verdiano Os Tuba­rões, lan­çado em 1976.” Quem fala é o baixista da banda, Mário Bet­ten­court. Mais infos

Áudio 59 – Nástio Mosquito No Rotas & Rituais

“Nástio Mosquito nasceu no Huambo, Angola, em 1981. Foi jornalista, é artista plástico e músico. Naquele que considera ser o seu primeiro álbum, Se eu fosse Angolano, apresenta ao público a sua visão do mundo e de uma Angola plural onde o campo e a cidade se redefinem, onde a sociedade contemporânea toma conta da realidade urbana, ao mesmo tempo que nos reinventamos como nação, como sociedade.” Esta é uma parte da apresentação que se pode ler no programa do Rotas e Rituais, festival que a AfroLis tem vindo a acompanhar desde o dia 22 de maio, dia da inauguração. Esta quarta-feira, 27 de maio, tivemos a oportunidade de falar com o músico Nástio Mosquito que veio apresentar o seu trabalho num concerto/performance.

Entrevista com Realizadora Ike Bertels sobre o filme “Guerrilla Grannies

**Áudio em inglês

Rádio AfroLis (RA): Obrigada Ike por falar com a AfroLis sobre o filme que trouxe [ao Festival Rotas e Rituais], ”Guerrilla Grannies”. Pode falar-me um pouco sobre o filme, do que trata o filme?

Ike Bertels (IB): É a história de três mulheres da guerrilha que vi num filme quando eu própria era muito jovem. Tinha visto, por acaso, um filme sobre uma guerra de guerrilha em Moçambique e a maior parte desses filmes de guerra eram sobre homens que libertaram o país e neste filme havia três mulheres sentadas no mato com as suas espingardas e falaram sobre o que estavam a fazer e porquê. E elas estavam tão entusiasmadas e cheias de esperança e acreditavam que eram capazes, juntamente com os homens, de mudar o mundo, de mudar o seu mundo, de mudar Moçambique que foi colonizado por muito tempo e tornar-se independentes. Eu fiquei impressionada com isso porque eu própria era jovem e queria libertar-me da vida em que vivíamos e fiquei tocada por elas. Depois de ver o filme fiquei a pensar no que teria acontecida a estas três mulheres, então fui procura-las. Eu vivo na Holanda e é longe, então levei muito tempo para descobrir. Se elas ainda estavam vivas e onde viviam.

RA: Depois de vermos o filme, disse que esta foi uma viagem em três fases. Esta foi primeira fase, qual foi a segunda?

IB: A primeira fase foi um filme que fiz em 1984, que se chamava “Mulheres da Revolução” [“Women of the revolution”]. Foi um filme onde tentei retratá-las com as imagens que tinha visto. Então mostrei-lhes num cinema, às três mulheres, depois da independência, eu vi com elas como elas eram quando eram jovens. Este foi o ponto de partida para falar sobre os seus ideais e no que eles se tinham tornado.

Depois de 1984, quando terminei o filme, a vida delas mudou porque houve uma nova guerra. A guerra civil que se iniciou entre os dois grupos políticos a FRELIMO, principal partido,  e a RENAMO. Durante a guerra eu não podia encontrar-me com elas, estas mulheres que tinha filmado e de quem tinha gostado tanto, então, depois da guerra fui vê-las e pensei que seria importante fazer outro filme sobre elas.

 

guerrilla_granniecopiaQuando fui a segunda vez, ficámos mais próximas umas das outras. Elas ficaram impressionadas por eu ter querido voltar. E, depois, voltei a Moçambique por um outro motivo e quis encontrar-me com elas, novamente, e nessa altura fui mesmo convidada para as suas casas e para conhecer as suas famílias. E, a partir daí, encontrávamo-nos todos os anos. Eu ia lá todos os anos para vê-las. Depois disso decidi que tinha de fazer um terceiro filme porque assim tinha a imagem completa. A situação em Moçambique era uma história paralela às vidas delas, às suas lutas.

RA: De que modo é que este filme mudou a sua maneira de olhar para as mulheres em África ou para as mulheres em geral?

IB: Durante o primeiro filme que fiz, estava impressionada e admirava-as porque elas tinha feito uma coisa tão maravilhosa. Mas vivi com elas a fase da desilusão por não terem conseguido cumprir o sonho por completo e terem de lidar com a realidade, mesmo sendo uma má realidade, então, aprendi com isso. Também aprendi com a força delas a nunca desistir, continuar. O que também achei muito importante, para mim, foi a forma como elas mostraram que podiam continuar a viver sem o apoio de homens, mesmo estando sozinhas a cuidar, não só da própria família, mas da família alargada. A Amélia é um bom exemplo com a sua pequena machamba (horta). Ela alimentava uma família grande, de trinta pessoas. Para mim isso foi incrível e faz-te ficar humilde e pensar que é um bom exemplo para todas as mulheres, estejas em África ou no norte.

RA: Agora só para resumir, estivemos sempre a falar “delas”, mas na realidade,  acabou de dizer  o nome de uma delas, Amélia. Mas gostaria que descrevesse cada uma delas. Eu vou dizer o nome e queria que me desse três adjetivos para cada uma delas.  Não sei se é difícil descrevê-las com apenas três adjetivos, mas essa seria a minha sugestão. Se sentir que precisa de alargar a explicação pode fazê-lo. Vou começar pela Amélia:

IB: A Amélia é uma mulher, dura, cheia de humor, fuma muito e é muito severa com os homens.

RA: Maria?

IB: A Maria é uma mulher muito inteligente mas burguesa, que consegue sempre encontrar uma forma de melhorar a sua vida e a da sua família.

RA: E agora, vamos falar sobre a Mónica, a única que ainda está viva.

IB: A Mónica é uma agricultora, apesar de não praticar a agricultura, no sentido em que tem opiniões fortes e bem assentes na terra. Ela é uma mulher muito forte e terra a terra. Ela também tem um tipo de humor muito peculiar que não é muito fácil de compreender porque ela tem um sentido de liderança natural, e se ela sente que tu és uma pessoa igualmente forte, ela gosta de entrar em “combate”.

RA: Se tivesse de convidar as pessoas a verem o filme o que diria?

IB: Eu diria que estas três mulheres, por elas próprias significarem tanto e viverem uma vida normal com as suas famílias, pode mostrar-nos algo sobre a vida em África que não vemos frequentemente. E também por causa do tempo que passamos com elas, porque as vemos a mudar e a crescer e a lidar com dificuldades. O que também gostei foi que tive a oportunidade de contar histórias paralelas através das quais também podemos ver o crescimento de um país que se torna independente e com as mesmas lutas e os mesmos problemas que elas sentem pessoalmente.

 

 

 

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