Nós Nos Livros: “Sangue Negro” de Noémia de Souza

Eu acho importante ler este livro porque…

por Hirondina Joshua

Um livro que me fez viajar sem sair do sítio foi: ” Sangue Negro ” de Noémia de Sousa, poeta moçambicana.
É um livro de poemas ou atrevo-me: é um livro de poesia.
Que assenta na realidade diária, tem uma forte expressão coloquial. Poesia de combate mas que ao mesmo nos traz intimidade, privacidade do quotidiano da autora. Nota-se nele o “modus vivendi” das pessoas que a cercavam e mais particularmente o meio envolvente.
Textos que passamos disso, afinal contam a História de um povo, a vida das gentes diversas unidas por uma só força. A força de viver e ver a vida mais digna com respeito aos Direitos Humanos.
Poesia do quotidiano, mas com alma divina e para seres humanos que na verdade buscam afinal um pouco do que têm dentro: a bondade, a justiça e a misericórdia.

DEIXA PASSAR O MEU POVO

Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimbas chegam até mim
— certos e constantes —
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar…
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Maria cantam para mim
spirituals negros do Harlem.
Let my people go
Snague Negro— oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo –,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
Let my people go.

Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo…
(Dentro de mim,
oh let my people go…)
deixa passar o meu povo.

E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda — minha Irmã.

Escrevo…
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada de Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças,
algodoais, e meu inesquecível companheiro branco,
e Zé — meu irmão — e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Noemia de SouzaTodos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso do rádio
— let my people go,
oh let my people go.

E enquanto me vierem do Harlem
vozes de lamentação
e meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insônia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Marian gritando comigo:
Let my people go,
OH DEIXA PASSAR O MEU POVO.

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PéKáPéLá 1: Herberto Smith revisitando S. Tomé

“Durante algumas semanas estarei em S.Tomé e Príncipe. Durante este período irei aproveitar para descansar, estar com familiares e amigos e recuperar algumas memórias. Também será uma oportunidade para dar a conhecer aos meus filhos as suas raízes e mostrar-lhes o que faz deles uns Afrolisboetas.” Heberto Smith

Casal

Pastelaria Geli-Doxi

Marcal

Mural Restaurante em S. Maçal

Mioga

Restaurante Miónga

Vivenda

Vivenda Amor ao Trabalho Sucesso da Época 2000

Novas trancas

As novas tranças da Bri II

Tranças da Bri

As novas tranças da Bri I

 

PéKáPéLá – Dormindo no mar

CIMG1196Dormindo no mar
entre corpos desconhecidos
que quando se movem formam ondas humanas

E surgem os toques inesperados,
as respirações, mais ou menos ofegantes,
as vozes, mais ou menos graves,
que penetram os nossos ouvidos,
quase adormecidos pelo balançar do barco,
que se deixa embalar pelo mar.

Deitados no chão,
tentamos atrair o sono com um livro
lido à luz dos intervalos das manchas de sombras
de passantes distraídos em conversas animadas.
As tentativas de atrair o sono
revelam-se vãs…

E acabamos por entrar também em conversas.

Mais ou menos animados,
falamos da falta de sono,
das condições que nem são más,
ou dos cheiros que podiam ser piores.
E quando se esgotam as banalidades
acabam-se as conversas.

Resignados, lá voltamos a tentar dormir.
Os breves momentos de sono profundo
fazem esquecer o desconforto do chão.
Assim se dorme no mar,
dormindo entre ondas de corpos desconhecidos.
(Agosto 18, 2011 – a caminho da ilha de S. Vicente, Cabo Verde)

Por Carla Fernandes

Áudio 62 – Mário Lopes sobre o TEDx São Tomé: de olho e mãos nos sonhos

Hoje vamos falar de inspiração e empreendedorismo com Mário Lopes: empreendedor de origem santomense que para além de estar envolvido na Conexão Lusófona, organiza a TEDx São Tomé desde 2013. Neste momento, está a preparar a 3 edição do evento TED (Technology, Entertainment, Design) Tecnologia, Entretenimento e Design no seu país, a decorrer a 25 de Julho na Biblioteca Nacional em São Tomé. Mário Lopes deixa-nos com a vontade de influenciar de forma positiva a vida de pessoas para que estas não entreguem as armas antes de darem o primeiro passo para concretizar os seus sonhos.

Mais sobre Mário Lopes

Nós Nos Livros: “A minha empregada” de Maggie Gee

Eu acho importante ler este livro porque…

por Joacine Katar

FullSizeRenderÉ um livro que procura retratar as relações raciais, culturais e afectivas que se estabelecem entre uma família inglesa londrina (Vanessa Henman, seu filho Justin e o pai deste Trevor) e a empregada ugandesa Mary Tendo, assim como o questionamento dos lugares-comuns e os pré-conceitos existentes.

Li-o há alguns anos atrás e no final fiquei com uma vontade imensa de continuá-lo, agora por palavras minhas e com outras coordenadas, porque o livro trata de uma categoria profissional sobre a qual sempre quis escrever, que são as empregadas domésticas negras na Europa, geralmente imigrantes africanas e de condição social e económica muito desfavorecida. Enfim, mulheres de rostos e corpos invisíveis, cujos nomes são as únicas coisas que se materializam nas casas onde trabalham, nomes estes que têm donas e patroas, que regra geral ignoram as suas vidas e as suas experiências.

Porém, quando as empregadas-trabalho dão lugar às empregadas-pessoa, elas conseguem a relativização dos valores e os padrões culturais das famílias e das sociedades onde estão inseridas, inspirando até a criação cultural europeia, de que este livro de Maggie Gee é exemplo, e aqui mais próximo de nós, o mais recente filme “Bobô” da realizadora portuguesa Inês Oliveira, que foi baseada na relação que começa quando a patroa consegue olhar com olhos de pessoa para a empregada-pessoa que ali se encontrava. Penso neste livro e recordo-me também do pouco que sei do Movimento Negro no Brasil, onde as empregadas domésticas negras são uma das faces da necessidade de mudança cultural e política induzida pela luta contra o racismo, a violência e a segregação racial, sendo símbolos da desigualdade social, da exploração económica e do racismo institucional que se quer transformado!

Nós, as crianças, sempre soubemos que tínhamos de deixar a aldeia. Para voltar. Mais, melhores, diferentes. Eram os nossos pais que nos diziam para ir. Viam-nos como professores, advogados, dentistas, médicos, até presidentes. Não viam que poderíamos ser porteiros e empregados de limpeza, motoristas de táxi ou arrumadores de carros? – apesar das nossas habilitações e diplomas. (Mary Tendo)

 Maggie Gee, numa escrita fluída e espontânea, foca as personagens Vanessa e Mary e consegue apresentar-nos os dois lados da moeda, os preconceitos e as críticas mentais que cada uma das personagens faz permanentemente à outra, provando, ao mesmo tempo, que são mais as constantes do que as mudanças no que diz respeito ao hipotético choque cultural existente entre elas.

O facto é que V. Henman personifica o indivíduo branco europeu preconceituoso e arrogante, que sofre de um complexo de superioridade frágil e que subestima permanentemente os imigrantes africanos, menosprezando a sua cultura, ainda que partilhando quotidianamente o mesmo espaço físico. Ao mesmo tempo, a autora apresenta-nos o retrato de um imigrante africano na figura de M. Tendo, que encontra na Europa um escape às sérias dificuldades do seu país de origem, sem que isso represente necessariamente a melhoria das suas condições de vida, e foca também a falsa submissão destes face aos seus patrões brancos, por quem muitas vezes nutrem um profundo desprezo, conscientes da exploração económica de que são alvo, mas que aceitam por falta de melhores opções. Simultaneamente, estas relações dão lugar a espaço para negociações formais e subtis, avanços e recuos, numa luta simbólica e também efetiva pelo controlo. Aqui entram os afectos, as dependências de ambas as partes e a desconfiança permanente que ameaça minar a boa convivência.

Vanessa Henman é uma escritora neurótica, desligada das suas origens e que se refugia na escrita para fazer face à sua solidão, à depressão do seu filho com quem não tem uma relação afectiva salutar, ao seu ex-marido de quem tem ciúmes e a quem continua ligada emocionalmente, e que se sente posta em causa por Mary Tendo, a sua empregada negra de curvas generosas, “uma africana pujante e corajosa, imbuída de valores ancestrais sobre a família, a boa alimentação, a vida saudável”. Tendo vem desequilibrar os dados pré-determinados da vida dos Henman, apontando alternativas de vida e ocupando um lugar central na estabilidade emocional da família. Contudo, ela tem os seus planos pessoais e o seu trabalho em casa dos Henman está ligado a um projecto financeiro que a faz negociar e explorar a dependência dos Henman a seu benefício. Porém, a vida familiar de Tendo também se encontra longe do desejado, tendo sido afastada do seu único filho pelo pai deste.

Um aspecto importante presente neste livro, e que é sintomático em muitas famílias de imigrantes negros, são os problemas familiares de Mary Tendo, especialmente os do seu filho Jamie Jamil. Ocupada a cuidar de Justin, Mary não pôde dar a mesma atenção a Jamie, hoje um jovem problemático. Em resposta ao amor e à atenção que sempre recebeu de Mary, Justin corresponde e tem em Mary a figura maternal que lhe falta e que o consegue tirar da depressão, mas terá ela a mesma força e capacidade de salvar o seu próprio filho?

Mãe Preta - pinturaEste facto remete-me para um passado mais distante que é o das escravas negras, que pode ser representado pelo quadro intitulado “Mãe Preta”, sobre o Brasil de 1912, do pintor Lucílio de Albuquerque, exposto no Museu de Belas Artes da Bahia, Salvador.

Aqui, a ama-de-leite negra amamenta o bebé louro da sinhá, enquanto olha enternecidamente para o seu próprio filho, deitado no chão como que esperando a sua vez, desapropriado do seu lugar natural, que é ocupado e explorado pelo bebé branco. Este é sem dúvida um panorama de hierarquia, de subjugação e da diferença racial e social, mas também é um espaço de partilha, um espaço de intimidade e um espaço de amor. Provavelmente esta escrava amou as duas crianças e a exploração da sua hiperfeminiilidade constrata com a secura formal da mãe branca, que ama mas não nutre nem cuida dos seus filhos, como tão bem retratou Maggie Gee neste livro.

Joacine Katar Moreira 

(Investigadora associada do CEI-Instituto Universitário de Lisboa)

Nós Nos Livros: “Um Negro Que Quis Viver” de Richard Wright

O negro que quis viverEu acho importante ler este livro porque…

por Griot Alkebu-lan

“Um Negro Que Quis Viver” (título original “Black Boy”), de Richard Wright, é um livro em que só o título diz tudo. Não só diz tudo, como, na minha opinião, diz muito a um/a jovem negro/a, visto que, ao longo de toda a história, o autor traz-nos as vivências de um jovem negro, que se assemelham às de tantos/as outros/as jovens negros/as desde a infância até à fase adulta, onde tudo o que esse ser deseja é viver, viver como um ser normal e não viver condicionado segundo regras, valores e pré-julgamentos.

É uma autobiografia que fala maioritariamente dos dramas e desafios que um negro vive durante toda a sua vida, somente por ter uma cor diferente à da sociedade em que se encontra inserido e onde tem que aprender a adaptar-se forçadamente a esse meio (ou meios, uma vez que muda muitas vezes de residência). No decorrer da história, apercebermo-nos como a família, o ambiente escolar e o trabalho o pressionam para ser socialmente correto de acordo com a sua “limitação”, ser negro.

Richard cresce com uma personalidade bem vincada, num ambiente familiar que cada vez se deteriora mais. Um ambiente duro, onde o tentam mudar constantemente, achando ser o melhor para ele, mas que se revela num isolamento, acabando mesmo por desistirem da sua “salvação”. É daqueles livros que mal uma pessoa comece a ler não deseja parar. O desenrolar da história vai-nos prendendo cada vez mais, é um livro apaixonante, onde, por vezes, dava por mim não só a sorrir para as letras, mas também a rir alto devido à inocência da personagem principal em determinadas situações. É uma busca incessante não só de felicidade, liberdade e realização, mas de uma vida vivida segundo a sua vontade, onde encontrará o seu escape na leitura e na escrita.