Reportagem: Sons de Liberdade por Angola

Liberdade ja

Por Ana Yekenha Ernesto

“A liberdade é palavra única, não tem plural!”. Eram estas as palavras de ordem que davam início ao concerto marcado para dia 11 de novembro, em Lisboa. Nesta data especial para todos os angolanos, o motivo era de comemoração e lamento. No dia em que se celebra a independência de Angola, lamenta-se a falta de liberdade.

“Comemora-se a independência sem se esquecer quem ainda luta por ela”, dizia António Macedo, homem que já escreveu o seu nome na história das artes em Portugal. No palco declamava um poema, com a entoação própria de quem vive o teatro, e apresentava aquela que seria “uma noite de música, noite de poesia e noite de liberdade”.

Às 18h30, enquanto começava a anoitecer, o primeiro artista subiu ao palco. As pessoas iam chegando, vindas do trabalho ou da escola, aproveitando do fim do dia para apoiar uma causa ou apenas ouvir boa música. O concerto “Liberdade já”, organizado pelo grupo Liberdade aos presos políticos em Angola, a Amnistia Internacional, a associação Solidariedade Imigrante e que contava com o apoio de várias associações, iniciava.

À capela, um grupo no palco repetia o pedido de uma das primeiras manifestações em Angola a causar problemas nos últimos anos: “menos cuca, mais água”. Batida completava a performance com rimas e batuque. Para fechar o ato inicial, fotografias dos 15 presos políticos foram mostradas em palco.

Enquanto o cabo-verdiano Dino D’ Santiago subia ao palco, provando mais uma vez que o apoio à causa não tem barreiras e NBC pedia, em palco, para cantarmos “songs of freedom”, alguns dos presentes assinavam a petição que a Amnistia Internacional passava pela libertação dos 15 jovens presos em Luanda.

“ ’Tá-se mal!”, disse Laura Ferreira, em resposta aos versos do Bob da Rage Sense. Laura referiu logo que apoiava o MPLA porque devemos a eles a independência e a liberdade em Angola. “Se não fossem eles ainda estávamos lá a explorar-vos”, acrescenta a senhora de  64 anos, que se deslocou a Campolide para marcar a sua presença no dia da independência de Angola. Laura afirmou ainda que  “Enquanto tiver forças tenho de apoiar as causas que defendo (…) mesmo que isso implique ouvir músicas de que não gosta muito”.
A música, no entanto, foi o que mais atraiu Jenny. Com 21 anos, a jovem foi atraída pelos nomes presentes no cartaz, mas não ignora a causa. Depois de Francisco Fanhais, subiriam ao palco improvisado no Jardim da Amnistia Internacional também Ana Bacalhau, Terrakota, Vicente Palma, Ana Moura, Gospel Collective e Joana Alegre- No cartaz, os nomes de Karyna Gomes, Luís Varatojo, Luisa Sobral, Luiz Caracol, Márcia, Milton Gulli Octapush, Samuel Úria, Sara Tavares, Selma Uamusse, Sérgio Godinho, Tiago Gomes, Tó Trips e Rita Red Shoes também dão força ao evento. Com duetos e solos, os músicos juntaram-se ao movimento e deram música e voz a quem não o pode fazer.

Beatriz Nogueira, com 20 anos, reconhece a importância da causa e diz que “quanto mais gente se mexer melhor”. “Não sei se vai ter algum resultado concreto mas sei que vai sensibilizar os portugueses e não só e vai fazer com que os angolanos saibam que não estão sozinhos”, explica a jovem voluntária do evento.

Para Tiago Fonseca, 21 anos, é óbvio que o evento vai ter resultados positivos. “Mobilizações de pessoas sempre são espetaculares”. “Quando há visibilidade há ações para resolver os problemas”, acrescenta Carminho Archer, também com 21 anos, enquanto iam comprar comida a uma das roulottes presentes no local.

José Brandão veio a este concerto porque “direitos humanos e democracia nunca são demais”. Com 54 anos, o jornalista diz que nunca foi a Angola nem irá “enquanto estes governantes e esta gente que se apodera de tudo lá estiver”.

O poema A cor da Liberdade, de Manuel Alegre é declamado no palco. “O teu nome é liberdade”. O nosso? Música, poesia e liberdade.”

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