Nós Nos Livros: “Génocidé” de Révérien Rurangwa-Muzigura

Eu acho importante ler este livro porque…

Por Apolo de Carvalho

Enquanto africano que aspira ao renascimento da África e à expurgação de todas as feridas que desde a escravatura vêm debilitando e amputando esse processo, conhecer a história e cultivar a memória, por mais perturbantes que sejam certos episódios, revela-se urgente e necessário.

O genocídio do Ruanda foi uma das mais vergonhosas atrocidades do século XX. Em apenas três meses, cerca de um milhão de ruandeses[i], na sua maioria tutsis, foram brutalmente assassinados sob a indiferença e a passividade cúmplice de uma comunidade internacional que, conquanto, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, em luto pelas vítimas da Shoah[ii], em uníssono, declarava ”Plus Jamais”.

No livro Génocidé (destruídos/vítimas de genocídio) publicado em 2006, Révérien Rurangwa-Muzigura, ruandês tutsi, faz o relato de como testemunha de forma perturbante o sádico extermínio de 43 elementos da sua família, da qual é o único sobrevivente.

Mutilado física e psicologicamente, enquanto assiste impotente ao massacre perpetrado pelo seu próprio vizinho, um hutu amigo próximo ao seu pai, Rurangwa-Muzigura não cede. Sobrevive sob o peso de corpos esventrados, violados e profanados para ser encontrado três dias depois pela Cruz Vermelha.

 “Ils m’ont tué, moi et toute ma famille, sur une colline du Rwanda en avril 1994. J’avais 15 ans. Je ne suis pas mort.” [Eles mataram-me, a mim e a toda a minha família, num monte no Ruanda, em abril de 1994. Eu tinha 15 anos. Eu não estou morto.]

genocidé livroSobrevivente e resiliente, Rurangwa-Muzigura rejeita o ódio mas não perdoa. Como poderia, se ainda vive o seu carrasco e na maior das impunidades? Apega-se à memória. Ibuka, souviens toi [lembra-te] diz-se na sua língua materna. Combate o silêncio com o testemunho, por mais penoso que seja, de revisitar os momentos da chacina. Descrever todo o horror vivenciado é morrer vezes sem conta. O seu relato perturba-nos enraivece-nos, engaja-nos, desilude-nos, faz-nos questionar instituições, sistemas e valores.

As suas palavras têm gosto de fel, são murros de indignação, lanças de amargura. Absorvemo-las com um misto de sensações que nos apunhalam, solicitando às glândulas lacrimais para, de imediato, nos invadirem com uma torrente de culpabilização e vergonha pelo sentimento de pena primária quase efémero. Não se consegue imaginar nem avaliar tamanho sofrimento. Não há reparação ou palavras que compensem a dor daquele que tudo perdeu, que foi morto mas que não morreu, que se tornou doravante o único da sua linhagem, carregando em si o derradeiro ADN dos seus.

Há uma raiva violenta que transtorna o leitor, ao descobrir a perseguição que ainda hoje sofrem as vítimas do genocídio ruandês. Após sair do Ruanda, Rurangwa-Muzigura sofre várias tentativas de assassinato por parte de criminosos hutus que fugiram do país. O calvário do martirizado não termina com a “crucificação” nem tampouco com a “ressurreição”. O sobrevivente é uma ameaça para os carrascos que fugiram e se camuflaram na população. O sobrevivente é um incómodo. A sua existência agita a falsa normalidade e constitui uma ameaça à fictícia paz. Rurangwa-Muzigura possui no corpo o estigma do crime sofrido. É presa fácil que escapa a vários atentados. Mas, possui 43 vidas pelas quais é responsável. Tem de sobreviver.

A impunidade em relação ao genocídio do Ruanda é ainda hoje gritante. Voltou-se ao quotidiano como se nada tivesse acontecido mas, as chagas continuam abertas sem que as vítimas tivessem sido devidamente amparadas. Em 1996 Rurangwa-Muzigura volta ao Ruanda, sedento por justiça, o seu executor, Simon Semba, ainda vive. Rurangwa-Muzigura sofre ameças. Denuncia Simon Semba às autoridades e este é preso mas, dois anos depois, Semba é solto.

O testemunho de Rurangwa-Muzigura confronta-nos com o difícil papel que é exigido às vítimas . O esquecimento e o perdão, o dizer não à vitimização palavra doravante “sequestrada” às vítimas. Para Rurangwa-Muzigura, não há perdão sem justiça. Hoje, duas décadas passadas, reina o silêncio sobre a pior atrocidade do século XX. Um massacre que foi feito nas barbas da cega e seletiva justiça internacional.

O livro Genocidé é o testemunho de um sobrevivente que tem que lutar para sobreviver exatamente por ser um sobrevivente. Uma história pessoal mas com muitos rostos. Um livro que leva a outras leituras e questionamentos vários sobre o passado o presente e o futuro de África. Ler para não esquecer. Lembrar é hoje o singelo tributo que podemos, no nosso incómodo conforto, prestar aos milhares de vidas às quais o futuro foi negado.

[i] A ONU estima que tenham morrido mais de 800 mil pessoas em 100 dias.

[ii] Shoah é o termo da língua iídiche usado para definir o holocausto judeu.

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