Especial Nós Nos Livros: 12 tons de negro

Todas as quintas-feiras costumamos publicar uma entrevista áudio com uma pessoa da comunidade negra a viver em Lisboa. Esta semana temos uma excepção! Apresentamos “Um Ano Em Busca Da Minha Negritude”, por Eliana Nzualo, que nos disponibilizou uma lista de livros que leu durante um ano!

 

  • AmericanahAmericanah (Chimamanda Ngozi Adichie): Já escrevi sobre este livro aqui. A história acompanha a ida de Ifemelu da Nigéria para os Estados Unidos da América e a (re)construção da sua identidade num espaço onde nem sempre se sente bem-vinda ou sequer vista.

Zami – A New Spelling Of My Name (Audre Lorde): Uma autobiografia sobre amor. Sobre como Audre, uma mulher descendente de imigrantes, lésbica, negra, gorda nos anos 50 nos EUA encontra o melhor em si e no mundo.

 

Be lovedBeloved (Toni Morrison): Baseado numa história verídica, é o trágico destino de Sethe, uma escrava fugitiva que se vê obrigada a matar a própria filha para salvá-la da escravidão e o regresso imaginado da menina para se juntar à família.

I Know Why The Caged Bird Sings (Maya Angelou): Esta autobiografia comove e diverte: numa infância marcada pelo abandono, racismo e violação sexual, há sempre luzes de compaixão, amor e esperança.

 

Aké – The Years of Childhood (Wole Soyinka): Imaginem uma fotografia da Nigéria antes e durante a Segunda Guerra Mundial tirada por um astuto e curioso rapaz de 5 anos. Pois é, este livro é mesmo isso.

The Beautytul Ones Are Not Yet Born (Ayi Kwei Armah): No Ghana pós-independência, onde reina a corrupção, um pobre e honesto funcionário publico procura manter os seus valores, mesmo sem o apoio dos colegas e da família.

Ghana Must Go (Taiye Selasi): A busca da família Sais, de origem nigeriana e ganesa, pela união, justiça e verdade à medida que as suas vidas individuais os afastam de quem eles sempre sonharam ser.Ghana must go

Dead Aid – Why Aid Is Not Working and How There Is Another Way For Africa (Dambisa Moyo): Um livro sobre a mentira da ajuda humanitária e das consequências económicas, políticas e sociais para os países africanos e sobre uma possível solução sustentável.

Ain’t I A Woman – Black Women And Feminism (bell hooks): Um estudo histórico da marginalidade da mulher negra no movimento feminista desde a Escravatura aos anos 70-80 nos EUA.

Maka Na Sanzala – Mafuta (Uanhenga Xitu): Em Angola, numa vila onde pouco se sente o poder colonial, a história de uma jovem moça para manter a honra da sua família.

Ninguem matou suhuraBalada de Amor Ao Vento (Paulina Chiziane): Um amor verdadeiro no Sul de Moçambique, num casamento polígamo e a força de uma mulher, Sarnau para não ter de abandonar os seus sonhos.

Ninguém Matou Suhura (Lília Momplé): Este livro é uma colectânea de contos que contam um pouco da História de Moçambique no período colonial, onde os personagens, sentimentos e circunstâncias formam uma moldura daquilo que era a sua realidade.

Por Eliana Nzualo
Desde pequena que sempre me interessei por histórias.
Contar histórias é uma arte que descobri na escola ao ler escritores como sophia de mello breyner andressen; luis de camões; josé saramago; luís de stau monteiro e eça de queirós, entre outros que certamente muitos afrolisboetas devem reconhecer dos livros de leitura obrigatória do currículo português.

Aliás, é uma pena que em Portugal, um país cuja História passa por África, não se cultive mais a literatura africana (ou pelo menos lusófona).
E infelizmente os nomes que acompanharam a minha infância, à semelhança de outros africanos na diáspora, são nomes de quem conta histórias de pessoas brancas; de meios urbanos; de famílias aristocratas; histórias de situações e realidades que negam ou ignoram uma parte de mim.

Eliana Nzualo Colaboradora R

Eliana Nzualo

Eu precisava de encontrar validade nas histórias que eu ouvia ao meu redor. Eram histórias diversas: africanas; americanas; portuguesas; sobre mulheres; sobre homens; sobre liberdade; sobre colonialismo; sobre escravidão… histórias para que eu descobrisse a minha História.
Então decidi: vou ler negritude.

Desafiei-me a ler um livro por mês durante todo o ano de 2015 e tinha apenas um único critério: autor negro.
Nessa viagem pela negritude passei por Angola, Moçambique, Gana, Nigéria, Inglaterra e EUA.

Percorri séculos na História mundial e andei por cheiros e paisagens que jamais tinha visto, mas que ainda assim, me eram familiares.
Encontrei negras lésbicas no movimento feminista nas Fábricas Americanas dos anos 60. Deparei-me com escravas fugitivas assassinas. Perdi-me nas teias da corrupção em África no período pós-colonial.

E descobri, a cada página virada, uma nova cor para a minha identidade.
Por 12 meses mergulhei em mim mesma e surgi na margem da Literatura. E que lindo lugar para se estar!

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Áudio 110 – Afrodescendentes no Sistema Educativo Português

“O que nos dizem as estatísticas oficiais sobre a situação dos afrodescendentes no sistema educativo português, do 1º ciclo ao ensino superior? Qual o papel do racismo institucional nas desigualdades evidentes?”

A investigadora Cristina Roldão (CIES-IUL) apresentou em Abril resultados do seu trabalho “Afrodescendentes no Sistema Educativo Português”. Hoje vamos ouvi-la falar sobre o processo de investigação e os resultados.

Áudio 109 – Lançamento do livro A Leste de Tudo: Flaviano Mindela Dos Santos

Flaviano Mindela Dos Santos, pintor, fotógrafo e escritor, lança o seu livro A Leste de Tudo no Bar/Restaurante Tabernáculo.  Flaviano fala-nos do seu percurso como escritor, de histórias da sua infância. e de famílias perseguidas durante o colonialismo.  Na mesa de apresentação: A editora representada por Paula OZ, o autor Flaviano Mindela Dos Santos, o apresentador Abílio Bragança Neto e Hernâni Miguel.

A LESTE DE TUDO – Crónicas de uma Infância: uma história verídica, bastante marcante, emocionante e expressiva.

 

Áudio 108 – “Queer é questionar”, Alexa Santos

“Queer é questionar. Queer é dizer assim: Este é o status quo. E por que é que este é o status quo? É perceber que tudo vem de uma construção e que nós podemos desconstruí-la.”

“O Queering Style é um lugar de comunhão, de convergência de diferentes identidades. É um espaço onde podemos falar dos assuntos que nos interessam através dos meios que mais gostamos, da forma mais nossa possível. O Queering Style não é de ninguém, é de toda a gente que se identifique com o projeto.” Esta é parte da descrição do blogue Queering Style.  Alexa Santos é a impulsionadora do projeto que foi lançado em inícios de 2016 com uma equipa de pessoas que dão corpo ao seu sonho, que agora é de muitas pessoas. Alexa já trabalha desde 2009, através do voluntariado, com organizações que tratam questões de género, LGBT e  Queer e agora fala-nos Queering Style.

 

Reportagem: “Ser mulher negra é a minha essência, não a minha sentença”

Por Ana Yekenha Ernesto

“Ser mulher negra é a minha essência, não a minha sentença”. Com esta frase terminava a apresentação em vídeo preparada pelas criadoras da Plataforma Femafro, e estava aberto o debate no 1.º Encontro de Feministas Negras em Portugal. A Plataforma Femafro, uma organização de mulheres negras, africanas e afrodescendentes em Portugal, apresentou-se no MOB – Espaço Associativo e abriu as portas a quem se quisesse juntar à luta pela defesa e promoção dos direitos destas mulheres. O evento teve lugar no dia 30 de abril de 2016.

Cartaz

Numa sala cheia, onde as cadeiras não foram suficientes para o número de inscritas, dezenas de mulheres de todos os tons de negro, e não só, partilharam experiências. Experiências de exclusão, discriminação, e micro e macro agressões. Se somos todas mulheres, porque não encontramos produtos de beleza e cabelo para nós nos mesmos locais que as mulheres brancas? Somos demasiado bonitas ou inteligentes para sermos negras – porque quando nos elogiam também nos ofendem? Porque não acreditam que somos portuguesas e perguntam três vezes onde nascemos? Ou porque assumem sempre que somos as empregadas domésticas?

As interrogações não paravam, num local onde as mulheres tinham total liberdade para perguntar. Várias vozes questionaram como seria organizada a plataforma. Qual é o objectivo e o que propõem? Que tipo de eventos vão organizar? As mulheres brancas poderão participar no projeto? Quem fará parte da administração e o que será, de facto, esta plataforma?
Foram mais as perguntas, muitas delas difíceis, do que as respostas.

A questão que nunca foi colocada, no entanto, é a do porquê da criação de uma plataforma exclusivamente para negras, africanas e afrodescendentes. As mulheres receberam a plataforma como um projecto indubitavelmente necessário e muitas o elogiaram.

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Alexandra Santos (Foto de Sara Carlos Campos)

“É importante porque existe racismo e existe discriminação e é como um tabu”, afirma Alexandra Santos, “depois porque é para mulheres, pessoas que sofrem discriminação ou são oprimidas por determinada coisa por serem mulheres”. Para a jovem de 29 anos, o facto de a Plataforma Femafro defender a intersecção entre diferentes opressões é uma mais valia, porque acabam por falar “de duas coisas que são mais ou menos vivíveis, mais ou menos invisíveis, de que se fala, mas não se fala”.

Mas a intersecionalidade da Plataforma não fica por aqui. No vídeo, apresentado por Raquel Rodrigues, Daryh Carvalho e Joana Sales, criadoras do projeto, retractavam-se os temas que a Plataforma Femafro se propõe a discutir e combater: racismo, sexismo, lesbofobia e transfobia.

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Luzia Gomes (Foto de Sara Carlos Campos)

Na década internacional do afrodescendente, como foi destacado no início do encontro, a Plataforma pretende dar visibilidade à mulher negra e questionar o papel, até histórico, desta na sociedade. Para Luzia, a mulher negra foi limitada “a uma invisibilidade em espaços de poder, espaços de arte, e em espaços de estar sociais privilegiados”. “É muito diferente acostumar a ver uma mulher negra no shopping a limpar do que ver essa mulher negra como professora na universidade ou como jurista”, explica.

Por exemplo, “quando uma mulher negra se torna ministra e causa incómodo é justamente pelo lugar onde nos colocaram sempre, no lugar de limpar o chão para o branco”, continua Luzia. Por este motivo, Luzia, de 37 anos, acredita que é urgente discutir temáticas que trabalhem as especificidades da mulher negra na sociedade portuguesa.

Ao longo da sessão e do debate que se segue, a Plataforma Femafro tenta mostrar porque o feminismo negro é diferente do típico feminismo. Porque é preciso criar uma divisão dentro do movimento. Para a Alexandra é porque “os outros espaços são para brancos, para homens, para a maioria”.

Para Beatriz Gomes Dias, a divisão é necessária porque “quando estamos a discutir as questões das mulheres estamos a discutir as questões das mulheres brancas”, conforme explica a professora de 45 anos. “Não estamos a discutir as questões da desigualdade que é ampliada pela cor da pele”, continua. “As mulheres brancas têm lutas de direitos mas não estão a lutar para que haja uma representação social diferente”.

“As nossas lutas não são idênticas porque têm a ver com a nossa história”, completa Paula Almeida. “A base histórica é completamente diferenciada e daí temos pontos que não nos tocam da forma idêntica”.

“É como andar. Nós todos aprendemos a andar mas aprendemos de forma de forma diferente”, diz Juliana Penne. A jovem de 21 anos mostra-se contente por finalmente haver um “espaço de respiração” e partilha para as mulheres negras. Afinal, “uma mulher negra de forma geral tem um percurso diferente de uma mulher branca”.

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Paula Almeida (Foto de Sara Carlos Campos)

Para Paula Almeida, de 37 anos, este projecto vai levantar uma parede para proteger as comunidades. “Nós temos um racismo institucional, um racismo crónica, contra tudo aquilo que muitas vezes as mulheres passam em casa para as suas crianças”, conta Paula. “E muitas vezes parece que o outro lado tem mais poder”.

Mulheres negras, africanas, afrodescendentes e brancas reuniram-se para decidir quais seriam as bases de uma plataforma que está agora ainda a dar os primeiros passos. Sem hierarquias e aberto, este projecto pretende acabar com pouca representação da mulher negra ou, como disse Paula Almeida, dar-lhe uma voz que não existia.

PARA OUVIR

Mais infos Entrevista com as coordenadoras do projeto