Reportagem: “Ser mulher negra é a minha essência, não a minha sentença”

Por Ana Yekenha Ernesto

“Ser mulher negra é a minha essência, não a minha sentença”. Com esta frase terminava a apresentação em vídeo preparada pelas criadoras da Plataforma Femafro, e estava aberto o debate no 1.º Encontro de Feministas Negras em Portugal. A Plataforma Femafro, uma organização de mulheres negras, africanas e afrodescendentes em Portugal, apresentou-se no MOB – Espaço Associativo e abriu as portas a quem se quisesse juntar à luta pela defesa e promoção dos direitos destas mulheres. O evento teve lugar no dia 30 de abril de 2016.

Cartaz

Numa sala cheia, onde as cadeiras não foram suficientes para o número de inscritas, dezenas de mulheres de todos os tons de negro, e não só, partilharam experiências. Experiências de exclusão, discriminação, e micro e macro agressões. Se somos todas mulheres, porque não encontramos produtos de beleza e cabelo para nós nos mesmos locais que as mulheres brancas? Somos demasiado bonitas ou inteligentes para sermos negras – porque quando nos elogiam também nos ofendem? Porque não acreditam que somos portuguesas e perguntam três vezes onde nascemos? Ou porque assumem sempre que somos as empregadas domésticas?

As interrogações não paravam, num local onde as mulheres tinham total liberdade para perguntar. Várias vozes questionaram como seria organizada a plataforma. Qual é o objectivo e o que propõem? Que tipo de eventos vão organizar? As mulheres brancas poderão participar no projeto? Quem fará parte da administração e o que será, de facto, esta plataforma?
Foram mais as perguntas, muitas delas difíceis, do que as respostas.

A questão que nunca foi colocada, no entanto, é a do porquê da criação de uma plataforma exclusivamente para negras, africanas e afrodescendentes. As mulheres receberam a plataforma como um projecto indubitavelmente necessário e muitas o elogiaram.

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Alexandra Santos (Foto de Sara Carlos Campos)

“É importante porque existe racismo e existe discriminação e é como um tabu”, afirma Alexandra Santos, “depois porque é para mulheres, pessoas que sofrem discriminação ou são oprimidas por determinada coisa por serem mulheres”. Para a jovem de 29 anos, o facto de a Plataforma Femafro defender a intersecção entre diferentes opressões é uma mais valia, porque acabam por falar “de duas coisas que são mais ou menos vivíveis, mais ou menos invisíveis, de que se fala, mas não se fala”.

Mas a intersecionalidade da Plataforma não fica por aqui. No vídeo, apresentado por Raquel Rodrigues, Daryh Carvalho e Joana Sales, criadoras do projeto, retractavam-se os temas que a Plataforma Femafro se propõe a discutir e combater: racismo, sexismo, lesbofobia e transfobia.

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Luzia Gomes (Foto de Sara Carlos Campos)

Na década internacional do afrodescendente, como foi destacado no início do encontro, a Plataforma pretende dar visibilidade à mulher negra e questionar o papel, até histórico, desta na sociedade. Para Luzia, a mulher negra foi limitada “a uma invisibilidade em espaços de poder, espaços de arte, e em espaços de estar sociais privilegiados”. “É muito diferente acostumar a ver uma mulher negra no shopping a limpar do que ver essa mulher negra como professora na universidade ou como jurista”, explica.

Por exemplo, “quando uma mulher negra se torna ministra e causa incómodo é justamente pelo lugar onde nos colocaram sempre, no lugar de limpar o chão para o branco”, continua Luzia. Por este motivo, Luzia, de 37 anos, acredita que é urgente discutir temáticas que trabalhem as especificidades da mulher negra na sociedade portuguesa.

Ao longo da sessão e do debate que se segue, a Plataforma Femafro tenta mostrar porque o feminismo negro é diferente do típico feminismo. Porque é preciso criar uma divisão dentro do movimento. Para a Alexandra é porque “os outros espaços são para brancos, para homens, para a maioria”.

Para Beatriz Gomes Dias, a divisão é necessária porque “quando estamos a discutir as questões das mulheres estamos a discutir as questões das mulheres brancas”, conforme explica a professora de 45 anos. “Não estamos a discutir as questões da desigualdade que é ampliada pela cor da pele”, continua. “As mulheres brancas têm lutas de direitos mas não estão a lutar para que haja uma representação social diferente”.

“As nossas lutas não são idênticas porque têm a ver com a nossa história”, completa Paula Almeida. “A base histórica é completamente diferenciada e daí temos pontos que não nos tocam da forma idêntica”.

“É como andar. Nós todos aprendemos a andar mas aprendemos de forma de forma diferente”, diz Juliana Penne. A jovem de 21 anos mostra-se contente por finalmente haver um “espaço de respiração” e partilha para as mulheres negras. Afinal, “uma mulher negra de forma geral tem um percurso diferente de uma mulher branca”.

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Paula Almeida (Foto de Sara Carlos Campos)

Para Paula Almeida, de 37 anos, este projecto vai levantar uma parede para proteger as comunidades. “Nós temos um racismo institucional, um racismo crónica, contra tudo aquilo que muitas vezes as mulheres passam em casa para as suas crianças”, conta Paula. “E muitas vezes parece que o outro lado tem mais poder”.

Mulheres negras, africanas, afrodescendentes e brancas reuniram-se para decidir quais seriam as bases de uma plataforma que está agora ainda a dar os primeiros passos. Sem hierarquias e aberto, este projecto pretende acabar com pouca representação da mulher negra ou, como disse Paula Almeida, dar-lhe uma voz que não existia.

PARA OUVIR

Mais infos Entrevista com as coordenadoras do projeto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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