Especial Reportagem: Visita Guiada Por Uma Lisboa Africana com a Batoto Yetu

Largo de S. Domingo

Largo de S. Domingos / Rossio

A Associação Cultural e Juvenil Batoto Yetu Portugal encontra-se a desenvolver um projeto, em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, no qual pretende explorar a presença histórica de africanos na cidade de Lisboa. No dia 21 de junho realizou-se uma visita guiada em tuk tuk por Lisboa com a Professora Doutora Isabel Castro Henriques do Centro de Estudos sobre África, Ásia e a América Latina (ISEG) que indicou os lugares de memória da presença africana na cidade. Cristina Carlos, membro da Afrolis acompanhou a visita e deixa-nos aqui o seu relato.  

Por Cristina Carlos

Sousa Martins

José Tomás de Sousa Martins ( 7 de Março de 1843 — 18 de Agosto de 1897) , médico negro.

A presença visível de negros em Lisboa é uma prova viva das histórias vividas entre Portugal e os vários países de onde somos oriundos. Histórias essas que continuam e explicam aquela senhora aos pés da estátua de Sá da Bandeira,  no Largo de São Domingos –  um ponto de encontro africano mesmo ali no Rossio, ou a continua devoção ao beatificado Dr. Sousa Martins, a quem ainda hoje, 120 anos após a sua morte, são atribuídas curas milagrosas.

Lisboa tem uma história africana e “Cada vez mais é importante que se conheçam os lugares onde as pessoas passaram e existiram.” refere a Prof. Isabel Castro Henriques, que mostrou um percurso que promove o conhecimento dos lugares onde africanos escravizados estiveram com mais força, num período desde o Séc. XV até ao Séc. XIX, altura em que é abolida oficialmente a escravatura. Muitos lugares já não existem fisicamente, mas estão ligados à presença dos africanos em Lisboa, uma história pouco trabalhada e pouco conhecida.”, acrescenta a investigadora.

Tuk Tuk

(Frente dt.) José Lino (Direcção da Batoto Yetu) e Prof. Isabel Castro Henriques e convidados

Que lugares são esses? Que marcos têm? A toponímia da cidade revela alguns pontos, o inexistente Poço dos Negros, que se encontra tão próximo do lugar de castigo, agora é um triângulo de onde foi retirado o pelourinho. A Rua das Pretas, e o bairro das colónia são referências que ficaram na história e que deixam antever estórias de sujeitos sem direito a um lugar na história.
Fazendo o percurso em Tuk Tuk eléctrico, percorremos caminhos que ilustram a presença africana em Lisboa, que no Séc. XVI era estimada ser cerca de 10% da população lisboeta. Nessa altura, poderiam ver-se negro nas suas atividades de carga e descarga, no Cais Sodré, na construção de naus, na Ribeira das Naus e até mesmo a participar numa série de actos da vida portuguesa, sem segregação espacial entre brancos e negros, em que o ponto mais alto eram as músicas e as danças dos africanos, criando um ambiente festivo.

Nossa sr Rosario

Santos de pele negra, africanos

Santos negros (2)

Igreja da Graça – A presença de negros na cidade de Lisboa está num dos altares da Igreja, o de Nossa Senhora do Rosário

Mas nem só de festa são feitas as vivências dos negros em Lisboa, o Poço dos Negros, os Pelourinhos – lugares de castigo – mas também a Igreja do Carmo com a Nossa Senhora do Rosário e o Largo de São Domingo com a sua mística chamada para o encontro africano, presente mesmo nos tempos de hoje. “Foi sempre um lugar de encontro dos africanos, o que é extraordinário é que este lugar de encontro continua até aos nossos dias. Acredito que não haja conhecimento que neste lugar foram protegidos e aceites [africanos escravizados] numa confraria religiosa que lhes permitia comprar a liberdade (…), mas existe uma tradição oral sobre o facto deste ser o local do encontro.” Prof. Isabel Castro Henriques.

E é na busca deste encontro que a Associação Batoto Yeto pretende promover com o projecto Kadjibu 2016, Inês Pinto refere “O nosso objetivo é fazer o percurso e ver, em parceria com a professora [Isabel Castro Henriques], quais são estes locais mais importantes e que símbolos é que podemos realçar com uma placa a explicar a importância do local ou da pessoa. Incluir a informação em rotas turísticas aumentar a visibilidade e o interesse por este passeio. É estranho pensarmos que Portugal não tem um Museu de História Africana ou dedicado aos
povos africanos que fazem parte importantíssima da história de Portugal.”

Isabel CHEste primeiro passeio teve a locução da Prof. Isabel Castro Henriques e a presença de ilustres convidados, todos interessados na Presença Africana em Portugal. Soube a pouco. E para quem já ama Lisboa, é importante sentir que os africanos não são uma presença aleatória, mas que sempre fazem parte da cidade de Lisboa.

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