Nós No Cabelo – Testemunho de Monique Eleotério

Transição capilar. Termo estranho. Não acho que passei por uma transição capilar. Acho que passei por uma transição de consciência e o cabelo coincidentemente caminhou junto com as outras mudanças.

Quando fui ficando uma “mocinha” por volta dos 11 ou 12 anos começam as tentativas de dar um jeito no cabelo. Meu único “problema” era o volume, eu tive sorte, tinha um cabelo fino e com cachos. Tentava relaxamentos em alguns salões e era sempre a mesma coisa: saía com o cabelo molhado bem baixinho e orgulhosa, mas em seguida vinha a frustração do cabelo que secava e ficava cheio de novo. Mais uma vez não tinha dado certo. Eu não conseguia os cachos definidos e sem volume das outras meninas, aquele tipo um “miojinho” como chamamos por aqui.

Com o passar do tempo e da idade pude optar por tratamentos mais fortes, mais eficazes. Usei guanidina, hidróxido de sódio e progressiva, que me lembre. Não esqueço a sensação da cabeça queimando, o olho ardendo e a dica infalível da cabelereira para passar vinagre nas feridas do couro cabeludo. Placas de casca nas queimaduras e aquele cheiro de vinagre, me lembro nitidamente. Cheguei ao ponto de ter os cabelos totalmente alisados.

Enfim, uma história como a maioria das pretas por aí, com traumas, com agressões, com medo, vergonha e insegurança, humilhações em público. Nada muito novo na construção da auto-estima de uma jovem preta brasileira. Mas mesmo com tudo isso eu queria ser atriz. Uma ideia que eu hoje acho absurda. Mas que me fez ir até uma agência de publicidade, buscar oportunidades em comerciais. Me lembro da fala da responsável pelo casting como se fosse hoje: “Você é bonita, mas com esse cabelo não posso vender você. Preciso de algo natural.” Pintei o cabelo de preto novamente no dia seguinte. Em seguida comecei a deixar de relaxar. Fiz tranças de raiz para ajudar o crescimento e depois coloquei implantes de trança para ajudar no período que estava híbrido. Nada ligado a identidade racial. A busca por trabalhos com atriz acabou, mas o cabelo já era outro e o contextos da vida também, então seguimos em frente.

Nessa altura já surgiam os questionamentos das mudanças: “Por que você fez isso no cabelo”, “Prefiro seu cabelo assim ou assado”. Nossos corpos pretos são tão tidos como propriedade pública que fica subentendido o direito de qualquer pessoa questionar ou opinar sobre nossa aparência, independe de abertura ou intimidade para tal. Isso foi o mais marcante nesse processo de mudança para mim. Era como se o tempo todo as pessoas tentassem me dizer que limites poderia atingir, que decisões poderia tomar. O tempo todo queriam me impor que eu precisava de aprovação para ser assim ou assado. Tentavam me lembrar que eu não poderia ser algo que desagradasse. Obviamente essa possibilidade de aceitação se deu pelo fato de eu ter a pele relativamente clara, o que neste país serve como atenuante e como instrumento de alienação ainda maior.

Certo dia tirei as tranças e cortei o cabelo no banheiro de casa. Uns 3 ou 4 centímetros de raiz sem química foi o que ficou. A comoção foi geral, críticas atrás de críticas. A partir daí fomos nos conhecendo, nos experimentando. Descobri aos 22 anos como era meu cabelo realmente. Já não me lembrava mais. Três anos depois ele estava enorme e já havia aqui no Brasil um boom da moda “black”. Eu estava no “padrão”, na moda. Óbvio que uma moda restrita ao alternativo, ao cool, nada que fosse de bom tom para uma entrevista de emprego. Mas já era muito mais do que eu tinha atingido a vida toda. Os cachinhos definidos e o volume; tudo bem dentro do modelo que as páginas da internet estavam divulgando. Minha auto-estima começou a dar bons sinais, frágeis, sem base concreta, mas bons sinais. Mas junto com esse processo ocorria também uma revolução política na minha cabeça, a consciência de ser preta, o contato com posições políticas equivocadas, dor, sofrimento, estudos, decepções…Comecei a me compreender como toda dentro desse processo: meus relacionamentos, minha estética…

E aí observar que meu cabelo virava objetivo de outras pretas que não estavam nesse “padrão” da moda começou a me incomodar. O excesso de elogios nas ruas também. Me sentia invadida, exposta. Pessoas brancas tentavam me tocar o tempo todo e faziam questão de me demonstrar sua aprovação, como se eu precisasse dela. A “necessidade” de me elogiar parecia um ato de misericórdia. Meu cabelo natural para mim começou a se concretizar como prova da minha existência enquanto resultado da miscigenação, dos ideais de embranquecimento, da hierarquização dos tons de pele, virou um peso. Decidi então fazer dreads e aí se instaurou novamente o caos. Ninguém gostou. Família, amigos, pretendentes. Ninguém apoiou, ninguém gostou, ninguém entendeu. No início eu me dei um pouco ao trabalho de explicar, mas cansei rápido, impaciente que sou. Alonguei os dreads, porque sempre gostei de cabelos grandes mesmo. E aí melhorou um pouco. Fiquei exótica, diferente, estilosa. Mas a pergunta “como é que você vai tirar isso depois” não acabava nunca. Assim como o ar de desespero quando eu falava que não dava para “tirar”. Fui muito feliz com meus dreads, mas por questões religiosas precisei raspar a cabeça. Como fiquei de resguardo um bom tempo não me viram careca. E quando retornei com os cabelos curtos explicava o motivo e então não questionavam muito. Mas questionavam sempre. Hoje, aos 27 anos, 1 ano após raspar totalmente a cabeça tenho um pequeno black, voltando a crescer. Não sei o que acontecerá com ele, mas com a correria da vida acho que vou deixa-lo assim, pra não ter trabalho com manutenção. Não prometo nada, sinto saudades dos meus dreads. Mas hoje meu cabelo não me pesa, é extensão do que eu sou. E é muito bom tocá-lo e senti-lo parte de mim, não um acessório ou um adorno.

Vejo muitos textos incentivando a transição. Mas não vejo quase nada que nos diga que o fundamental é sermos livres. Passei todos esses anos recebendo “conselhos” e “opiniões”. Tive que engolir pessoas que se achavam no direito de me dizer como eu deveria ser, o que deveria fazer e me cobrando explicações por decisões minhas sobre minha aparência. A maior parte do que vemos hoje sobre nossos cabelos tenta ainda nos dar soluções sobre como podemos adequá-los, como podemos torná-los agradáveis para nós e para os outros, sobre como podemos mudá-los, amenizá-los. Quase nenhuma são as referências que nos dizem “alimente-se bem para fortalecer o cabelo, mantenha o higienizado para sua saúde, acorde, tome um banho, saia livremente e sinta-se bonita assim.”. Eu tento me dar esse direito, embora uma auto-estima danificada por tantos anos insista em me deixar insegura. A liberdade em aceitar nossos cabelos é consequência da liberdade de aceitar a nós mesmos. E esse é um trabalho árduo e constante.

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