Nós No Cabelo – Testemunho de Jéssica Silva

Desfrisei o meu cabelo pela primeira vez quando tinha cerca de 11/12 anos, não me lembro bem da idade, mas lembro-me que foi porque umas amigas minhas tinham “relaxado” o cabelo (aquela espécie de desfriso mais fraco que passado uns tempos parece que o cabelo volta ao normal) e eu era a única com o dito “cabelo bedjo” no grupo de amigas, então decidi pedir à minha mãe para me o desfrisar. Ela não queria, mas depois de muito insistir ela lá me fez a vontade. Foi uma das piores decisões de sempre, pois o meu cabelo até era saudável, estava grandinho porque a minha mãe tratava bem dele e nem sequer era assim tão dito “bedjo”. Depois de desfrisar, o meu cabelo começou a partir imenso, principalmente na parte de trás da cabeça, e foi por volta dessa altura (12/13 anos por aí) que comecei a usar postiço, pois até então nunca tinha usado. Acho que depois do primeiro desfriso só voltei a desfrisar o meu cabelo mais uma ou duas vezes, não mais do que isso. A minha transição para o cabelo natural foi um bocado sem querer, o facto de usar postiço e depois mais tarde tissagem também, ajudou-me a transicionar mas não foi propositado. Quando me apercebi que o meu cabelo já estava de volta ao seu estado original e estava sem saber o que fazer com ele,uma amiga estava a começar a jornada natural dela o que me motivou a começar a minha também, e isso aconteceu na mesma altura em que estava a tornar-me mais consciente do mundo em que vivemos e a aperceber-me da importância de manter o cabelo longe dos químicos, e foi então que decidi deixar o meu cabelo no seu estado natural. No início tinha alguma vergonha pois não sabia bem como tratar dele nem como o pentear para não parecer uma criança, e também porque na escola devia ser uma das únicas com o cabelo natural, mas sentia-me livre e com o tempo a auto-estima começou a subir. Como Marcus Garvey uma vez disse, é necessário remover os “kinks” da nossa cabeça e não do nosso cabelo, e assim que fiz isso consegui aceitar-me a 100%. Há uma citação, não sei de quem, que diz: “Being natural is the closest I can get to being myself” e eu não podia concordar mais. Agora, sinto-me de facto empoderada com o meu cabelo natural (principalmente naqueles dias em que ele porta-se bem, LOOL). Apesar de em Londres parecer ser norma o uso de perucas e lace fronts, adoro o facto de ver muitas jovens com o cabelo natural, de haver e de ver imensos grupos e páginas nas redes sociais que incentivam as mulheres negras a deixarem os químicos, que se apoiam e dão conselhos umas às outras das melhores técnicas para certos penteados e os melhores produtos para usar para conseguir os melhores resultados. Funciona também como uma maneira de criar alguma união entre nós enquanto mulheres negras. O nosso cabelo é uma afirmação de quem somos, é também uma arma contra a opressão e contra a ditadura do cabelo liso e “fino”. É a nossa coroa e devemos usar com orgulho. Como a actriz Afro-Americana Tracee Ellis Ross disse “I love my hair because it’s a reflection of my soul. It’s dense, it’s kinky, it’s soft, it’s textured, it’s difficult, it’s easy and it’s fun. That’s why I love my hair.”.

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