Programa Especial: “Afrotopia”, em conversa com Felwine Sarr

Programa especial, em inglês, com o pensador senegalês Felwine Sarr.  De momento, o economista, escritor, músico, compositor e professor, na Duke University, nos Estados Unidos da América é uma das mais solicitadas personalidades africanas. No mês de março de 2020 esteve em Lisboa a realizar uma série de palestras e cedeu-nos esta entrevista, que se centra no seu livro, publicado em 2016, Afrotopia, onde propõe a reinvenção de África através do investimento na auto-representação e apropriação dos próprios recursos culturais, económicos, políticos e intelectuais.

Felwine Sarr [FS]: O verdadeiro significado de uma utopia é a ideia de algo que ainda não foi atingido, não é a ideia de algo inatingível, mas de algo que ainda não está neste lugar. Um Átopos, o que ainda não está neste lugar, que está num outro lugar. E este outro lugar é provavelmente o espaço de imaginários. E quando uma sociedade tem contradições que não consegue resolver no presente, resolve-as no espaço do futuro e de imaginários. Se a sociedade é incapaz de fazer isso ela vai, nunca será capaz de as resolver em tempo real na sua história. Quer dizer que apenas que uma utopia é uma espécie de potencialidade no espaço real e se se quiser que esta potencialidade se torne uma realidade, tem de mudar-se comportamentos e ativar essa potencialidade. É uma espécie de pré-requisito para uma transformação profunda. Não se pode decidir mudar a sociedade, a civilização, sem desenhar uma utopia. Uma utopia ativa cujo objetivo é mudar a história, não apenas sonhar, mas mudar a história.

Uma das questões do lado africano é o facto de que, desde as independências e antes, tem-se dito ao continente africano, como organizar as suas sociedades; do ponto de vista económico, que tem de se desenvolver baseando-se nas categorias de desenvolvimento ocidental; que têm de ser nações modernas. Há uma série de injunções civilizacionais que foram propostas a África e infelizmente os chefes de estado das independências não decidiram reinventar-se profundamente, reinventar os espaços africanos. Creio que a maioria dos novos desafios atualmente é a nossa incapacidade de decidir para onde queremos ir como sociedades, desenhar o tipo de sociedades, o tipo de estruturas institucionais para vivermos em comunidade; o que quer dizer viver em comunidade; o que quer dizer um bem-estar social coletivo; qual é o lugar dos nossos imaginários, das nossas representações; qual o lugar da nossa cultura nesse quadro geral. Então o principal argumento, ou a principal ideia, é que os africanos têm a responsabilidade de desenhar a metáfora do futuro que querem. Não têm de alcançar, imitar, seguir. Se querem mudar a sua realidade têm de desenhá-la de uma perspetiva económica, filosófica, cultural, espiritual. Os africanos vão ter de pensar em todas as relações entre o económico, o ecológico, tudo. Vão ter de pensar nisso e dizer: “estes são os tipos de as sociedades, civilizações, comunidades, valores que queremos formar e produzir.”

V Konfirensia Panafrikanu di Lisboa, na sede da Associação Passa Sabi

Rádio Afrolis [RA]: Alguns dos passos para aí chegar estão nomeados nos diferentes capítulos do seu livro e gostaríamos de destacar o capítulo “Curar-se, Nomear-se”, onde coloca o nível psicológico ao mesmo nível que o económico, político e o nível cultural. O aspeto psicológico é muitas colocado à parte, não é central, neste processo do desenvolvimento de sociedades. Como argumenta a sua centralidade?

FS: Eu acho que é o mais importante. Eu sou um economista e, normalmente, os economistas colocam o lado económico no centro. E a maior parte das vezes quando as pessoas pensam em desafios africanos pensam que desafios económicos, de segurança ou os políticos são os primeiros. A economia é uma instância de conhecimento, como criar recursos, como partilhá-los, como produzir e como alocá-los. Creio que se seguirmos rasto da infraestrutura psíquica que foi danificada por anos de alienação, colonização, escravatura e uma autoestima muito fraca que tínhamos, não seremos capazes de resolver a questão económica ou a questão política. Porque para as resolver temos de reconquistar a autoconfiança, nas nossas categorias, na nossa criatividade porá podermos considerar que temos as soluções. Mesmo que pessoas proponham soluções a partir do exterior, a que desenhemos nós próprios pode ser mais valiosa. E se não serás capaz de fazer a escolha correta. E todas as principais escolhas da tua dinâmica social serão externas e vais sempre subvalorizar as tuas histórias, os teus recursos, a tua criatividade, s tua forma de lidar com desafios, a tua economia. Por exemplo, a tua economia é criativa e popular, mas chamas-lhe economia informal. Tentando ser uma economia formal não és capaz de ver o que é interessante nessa economia dita informal. Provavelmente há algumas fraquezas sobre as quais se pode trabalhar… mas quando se levantam várias questões, qual a questão a resolver prioritariamente? E resolvendo essa questão, resolvem-se também as outras? E a minha profunda sensação de que, provavelmente, resolvendo a questão da representação de imaginários, a questão psíquica é absolutamente fundamental. Começando por nos curarmos, reconstruir a nossa psique e a nossa autoestima e todas as outras instâncias serão menos difíceis de agregar.

RA: Talvez possamos ligar o que acaba de dizer com o capítulo em que fala de “Habitar a própria casa”, onde cita Wole Soyinka. Mas também me lembra a escritora negra norte americana, Toni Morrison, quando foi muito criticada por estar essencialmente interessada nestas narrativas. E a questão da autorrepresentação tem a ver com isso, retirar o olhar branco [“white gaze”], como a Toni Morrison costumava dizer. Como podemos alimentar a questão da autorrepresentação?    

FS: Já está a ser feito, mas não é muito conhecido. Às vezes as pessoas criticam os académicos africanos, que a elite africana está a falhar. Mas acho que quando se critica os intelectuais ou artistas africanos, acho que não é justo. Mas se olharmos para toda a genealogia de futuro, de pensamento crítico, de trabalho artístico, antes do movimento da Negritude, do final do século XIX até agora há muito trabalho feito por académicos e artistas africanos sobre estes temas. O problema é que estes trabalhos não são muito disseminados na academia, pelos académicos, nas escolas e até mesmo na cultura popular, de modo a tornarem estes recursos disponíveis. E eu acho que é a missão de jovens académicos mostrarem que vieram de uma longa tradição e mostrar que há uma continuidade de trabalho emancipatório que tem sido feito. Estamos provavelmente num tempo em que este tipo de trabalho é melhor ouvido e temos plataformas onde a informação circula mais rápido. Mas acho que é justo dizer que este trabalho existe, e podemos encontrá-lo. Provavelmente o próximo passo é torná-lo disponível para os jovens na escola primária, secundária, nos curricula e na esfera pública, nas artes, nos filmes etc., mas creio que os recursos já existem.

RA: Mas assim como a economia é chamada de “economia alternativa”, também se fala de conhecimento alternativo?

FS: Sim, sim, absolutamente. É chamado conhecimento alternativo ou epistemologias alternativas e provavelmente terá de ser feito o trabalho de as trazer para a dignidade de serem vistas como conhecimento, não uma história alternativa. Porque há uma relação de poder, de dominação simbólica através das ciências ocidentais. E nós estamos no meio de uma grande luta pela decolonização do conhecimento, as epistemologias, a história, a visão do mundo. E se olharmos para as reações de França, por exemplo, ou alguns países europeus, eles não querem, eles querem que as suas universidades tenham uma visão singular da história global, mas estamos a meio da luta e eu tenho a sensação de que eles já perderam a luta. Trata-se de uma espécie de movimento histórico em que temos de pluralizar o conhecimento e abri-lo para uma pluralidade de arquivos: indianos, asiáticos, latino-americanos. Porque apenas os arquivos europeus nos quais baseamos o nosso conhecimento nos últimos cinco séculos são redutores e já não conseguem responder À diversidade dos seres-humanos. A chamado conhecimento indígena é muito importante para responder ao desafio agro-ecológico de lidar com estas questões. Portanto, para além do argumento de que procuramos uma historiografia justa, precisamos de nos banhar em arquivos mais pluralísticos para enfrentar os nossos desafios contemporâneos.

RA: Queria terminar com a pergunta que está no seu livro do escritor e sociólogo, togolês, Sami Tchak: “Quando vamos parar de olhar para o passado de outros para construir o nosso futuro?”

FS: Tem a ver com uma ideia muito importante que é: o futuro não é linear. Porque eles venderam-nos a ideia de passos lineares, dizendo: “Nós, europeus passámos por estes passos e estamos nesta fase. Então vocês têm de passar por essas etapas.” Então, se fizermos isso, o passado deles é o nosso futuro e não há criatividade, não há auto-invenção de modo a podermos circundá-los e ir para outro lugar. A história é não linear, é contingente, não há necessidades na produção histórica. Quando algo acontece, trata-se de uma potencialidade entre outras potencialidades da história. Se olharmos para a história como potencialidade aberta, podemos olhar para uma história contra factual, olhando para o que poderia ter acontecido se um determinado evento histórico não tivesse acontecido, e ficamos com um espaço vasto do que pode acontecer. Então esta ideia de alcançar, de se tornar como as sociedades ocidentais, ou de estar atrás delas, é uma ideia completamente falsa. Elas trocam-se, influenciam-se umas às outras, mas não é suposto nenhuma sociedade humana reproduzir as dinâmicas sócio históricas de outra.

RA: Qual o papel de africanos, no continente, assim como na diáspora para fazer com que estas mudanças aconteçam?

FS: Tornar-nos novamente os sujeitos da nossa história, aqueles se desenham a principal dinâmica das nossas histórias. E que eu acho interessante nos povos africanos e da sua diáspora é que eles podem ser um laboratório de reinvenções globais. Todos sabemos que o modelo liberal neoclássico não é sustentável, já o sabemos. É um modelo que tem um impacto negativo enorme no meio-ambiente, nós estamos a passar por uma crise ecológica e sabemos que teremos de reinventar esse modelo. África é um espaço de oportunidades, têm terras, e é o espaço menos industrializado. Nesse sentido, é uma oportunidade para fazer as coisas de outra forma.

Soberania, mas soberania intelectual é absolutamente importante. Se se tem soberania política e não se tem soberania intelectual, o outro vai chegar com as suas ideias e dar forma a tua realidade. Se tiveres a tua liberdade intelectual e não tiveres a liberdade política, é a mesma coisa, eles virão e mudarão o teu mundo. E para mim, o passo mais importante é ganhar este tipo de soberania. Soberania sobre os nossos espaços e sobre o nosso futuro e imaginários para podemos moldá-los de outra forma.   Isto é algo que novamente não é apenas para africanos, pode até inspirar outros para uma reinvenção de uma cultura económica, ecológica para os seres-humanos. Acho que temos os recursos para fazê-lo se dissermos a nossa emancipação é também a vossa emancipação. Não é apenas cuidar da família, é cuidar da família global.

 

 

 

 

 

Um comentário sobre “Programa Especial: “Afrotopia”, em conversa com Felwine Sarr

  1. Muito obrigado pela partilha desta informação tão preciosa; gostaria de ver dialogo entre pessoas como ele e instituições de educação Africanas, mas também embaixadas e outros ativistas Africanos que estão ativos na diáspora e em África. Este homem é de muito valor para África.

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