Jornal O Negro – Edição comemorativa do 110º aniversário

No dia 9 de março assinalam-se os 110 anos da edição do jornal O Negro, o primeiro de um conjunto de onze títulos de imprensa dirigidos por ativistas afrodescendentes a residir na “metrópole” entre 1911 e 1933. A publicação deste que foi o órgão oficial da Associação dos Estudantes Negros – e que é agora reeditado pela Falas Afrikanas – representa uma geração de activistas que se congregou em nome da dignidade, da igualdade e da defesa de mais autonomia para os territórios ocupados por Portugal em África. O seu surgimento ocorre apenas cinco meses após a proclamação da República, um regime que hasteou a bandeira da liberdade e da igualdade, ao mesmo tempo que afirmou um nacionalismo colonialista que implicou o reforço da ocupação militar das colónias africanas e a submissão violenta das suas populações. Ao longo de três números, O Negro ergueu-se contra  «iniquidades, opressões e tiranias», exigiu da 1ª República o fim da desigualdade racial, reivindicou uma África que fosse «propriedade social dos africanos» e não retalhada pelas nações e pessoas que a conquistaram, roubaram e escravizaram.

Trazer para o presente este jornal é ferramenta imprescindível para questionar o silenciamento da multissecular presença negra em solo português. É também homenagear e dar continuidade ao trabalho de Mário Pinto de Andrade que deixou pistas preciosas para que as gerações seguintes pudessem conhecer a  resistência histórica de que são herdeiras. Como referem os organizadores desta edição comemorativa – Cristina Roldão, José Pereira e Pedro Varela –, reeditar O Negro 110 anos depois, não se resume à comemoração de uma efeméride, é o exercício do direito à memória enquanto instrumento de combate antirracista na atualidade.

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O porquê deste projecto?

Num momento em que a sociedade portuguesa e outras entram num intenso debate público, mas também disputa política, sobre o racismo, e em que os jovens são protagonistas de importantes movimentos sociais, a re-edição Do jornal “O Negro: Orgão dos Estudantes Africanos”, 110 anos após o seu surgimento em Lisboa, dificilmente poderia ser mais oportuna.  

Lançado em 1911, e apenas com três números este foi o primeiro jornal, de que temos conhecimento, de uma geração que, durante vinte e dois anos, se organizou em torno do pan-africanismo, da luta contra o racismo e da reivindicação de direitos para as os territórios colonizados; uma geração que resistiu de 1911 a 1933, até à chegada da ditadura férrea do Estado Novo.

O jornal, que era dirigido por estudantes universitários negros em Portugal, pretendia combater as “iniquidades, opressões e tiranias”; apelava à construção de um partido africano; e, exigia da 1ª República, o fim da desigualdade racial. Reivindicavam uma África que fosse “propriedade social dos africanos” e não retalhada pelas nações e pessoas que a conquistaram, roubaram e escravizaram.

Trazer para o presente este jornal e revelar a importância do movimento que ele despoletou é ferramenta imprescindível para questionar o silenciamento constante a que a história dos afrodescendentes e africanos é votada na sociedade portuguesa. É também homenagear e dar continuidade ao trabalho de Mário Pinto de Andrade que deixou pistas preciosas para que as gerações seguintes pudessem  conhecer a sua presença multissecular em solo português e  a resistência histórica de que são herdeiros. Assim sendo, reeditar O Negro 110 anos depois não se resume a uma mera comemoração de uma efeméride, mas o exercício do direito à memória, que é, acima de tudo, um instrumento de combate antirracista na atualidade.

A Equipa

O José Pereira e o Pedro Varela tem estudado e publicado sobre as “origens do movimento negro em Portugal (1911-1933). A Cristina Roldão, por sua vez, tem feito incursões sobre a história das mulheres negras em Portugal e a história da presença negra em Setúbal (sec. XVI a XIX). Já a Falas Afrikanas tem um percurso de edição e divulgação obras de autores negros e africanos. Todos neste projecto de reedição d’O Negro, cada um à sua maneira, partilham da ideia de que conhecer a história e o pensamento de africanos e afrodescendentes é essencial para o combate ao racismo e para a construção de sociedades mais justas. O silenciamento dessa história tem privado, não só as comunidades negras, como outras,  de um património ríquissimo em reflexão e em potencial transformador.

Onde comprar a versão em papel (por encomenda):
Letra Livre
Bazofo & Dentu Zona
Tchatuvelah

por Cristina Roldão, Pedro Varela e Falas Afrikanas