Áudio 166 – Lugar de Fala e Relações de Poder com Jota Mombaça (Parte I)

“Eu me coloco como atitivista do lugar de fala, como uma pessoa que acredita e aposta no lugar de fala como uma ferramenta política importante nesse momento da história. (…) O lugar de fala não é estático.”

Jota Mombaça vem do Brasil, onde começou a desenvolver práticas da escrita, das artes performativas que refletem a sua racialidade, desobediência de género  e as violências a que estas posições estão associadas.

Esta entrevista divide-se em duas partes e na próxima semana (26 de outubro 2017) continuamos com a reflexão sobre as valências do conceito de Lugar de Fala e as dinâmicas das relações de poder, sempre considerando a violência presente nestas relações e posicionamentos.

 

Nós No Cabelo – Testemunho de Jéssica Silva

Desfrisei o meu cabelo pela primeira vez quando tinha cerca de 11/12 anos, não me lembro bem da idade, mas lembro-me que foi porque umas amigas minhas tinham “relaxado” o cabelo (aquela espécie de desfriso mais fraco que passado uns tempos parece que o cabelo volta ao normal) e eu era a única com o dito “cabelo bedjo” no grupo de amigas, então decidi pedir à minha mãe para me o desfrisar. Ela não queria, mas depois de muito insistir ela lá me fez a vontade. Foi uma das piores decisões de sempre, pois o meu cabelo até era saudável, estava grandinho porque a minha mãe tratava bem dele e nem sequer era assim tão dito “bedjo”. Depois de desfrisar, o meu cabelo começou a partir imenso, principalmente na parte de trás da cabeça, e foi por volta dessa altura (12/13 anos por aí) que comecei a usar postiço, pois até então nunca tinha usado. Acho que depois do primeiro desfriso só voltei a desfrisar o meu cabelo mais uma ou duas vezes, não mais do que isso. A minha transição para o cabelo natural foi um bocado sem querer, o facto de usar postiço e depois mais tarde tissagem também, ajudou-me a transicionar mas não foi propositado. Quando me apercebi que o meu cabelo já estava de volta ao seu estado original e estava sem saber o que fazer com ele,uma amiga estava a começar a jornada natural dela o que me motivou a começar a minha também, e isso aconteceu na mesma altura em que estava a tornar-me mais consciente do mundo em que vivemos e a aperceber-me da importância de manter o cabelo longe dos químicos, e foi então que decidi deixar o meu cabelo no seu estado natural. No início tinha alguma vergonha pois não sabia bem como tratar dele nem como o pentear para não parecer uma criança, e também porque na escola devia ser uma das únicas com o cabelo natural, mas sentia-me livre e com o tempo a auto-estima começou a subir. Como Marcus Garvey uma vez disse, é necessário remover os “kinks” da nossa cabeça e não do nosso cabelo, e assim que fiz isso consegui aceitar-me a 100%. Há uma citação, não sei de quem, que diz: “Being natural is the closest I can get to being myself” e eu não podia concordar mais. Agora, sinto-me de facto empoderada com o meu cabelo natural (principalmente naqueles dias em que ele porta-se bem, LOOL). Apesar de em Londres parecer ser norma o uso de perucas e lace fronts, adoro o facto de ver muitas jovens com o cabelo natural, de haver e de ver imensos grupos e páginas nas redes sociais que incentivam as mulheres negras a deixarem os químicos, que se apoiam e dão conselhos umas às outras das melhores técnicas para certos penteados e os melhores produtos para usar para conseguir os melhores resultados. Funciona também como uma maneira de criar alguma união entre nós enquanto mulheres negras. O nosso cabelo é uma afirmação de quem somos, é também uma arma contra a opressão e contra a ditadura do cabelo liso e “fino”. É a nossa coroa e devemos usar com orgulho. Como a actriz Afro-Americana Tracee Ellis Ross disse “I love my hair because it’s a reflection of my soul. It’s dense, it’s kinky, it’s soft, it’s textured, it’s difficult, it’s easy and it’s fun. That’s why I love my hair.”.

Nós No Cabelo – Testemunho de Cátia Moreira

Toda a minha vida conheci a minha carapinha de várias maneiras: desfrisada, trançada, com tissagens, postiços entre outras.

Tudo isto só ia deteriorando, não só o meu cabelo que agora sei ser parte da minha essência e das minhas raízes, mas também a percepção que eu tinha em relação ao ser africano, porque o estereótipo que conheci desde muito cedo foi, que uma africana para ser aceite na sociedade tinha de ter um cabelo liso, claro e completamente perfeito. Ou seja, tínhamos que sacrificar a nossa carapinha em prol de uma aceitação física por parte dos mais ignorantes.

Resolvi meter um ponto final a este ciclo de ir matando aos poucos aquilo que nasceu comigo, que foi crescendo comigo, que me foi concedido pelos meus antepassados que é a minha carapinha, rija, encaracolada, preta, brilhante e linda.

Vai fazer três anos que uso o meu cabelo natural, sem químicos e sem fachadas. Descobri que sou mais feliz, mais bonita até. Hoje acordo e vejo todos os dias a mesma pessoa, o mesmo eu, e sabe tão bem… é uma sensação petrificante porque nós podemos ser bonitas com o que nós temos com o que nos pertence sem termos que recorrer a modas e a estereótipos de que a mulher africana só é bonita com perucas lisas, claras e brilhantes.

Pode ser ou parecer exagero da minha parte, mas eu sou uma pessoa diferente graças à minha carapinha natural, porque sei que é real e é minha.

Nós No Cabelo – Testemunho de Mindy

Olá sou a Mindy!

A minha transição para o natural começou praticamente em 2014 (quando deixei de usar químicos no cabelo). Foram vários fatores que influenciaram a minha mudança e aceitação, mas a coragem para cortar e começar do zero só veio em 2015.
Confesso que não me imaginava com cabelo curto, nunca cortei mais do que pontas estragadas… Não me arrependi e confesso que durante esta caminhada:
– Aprendi a aceitar a minha carapinha tal como ela é; vou aprendendo a ter paciência para tratar do meu cabelo; aprendi o porquê de não gostarmos que as pessoas toquem no nosso cabelo (agora faz sentido); aprendi a lidar com perguntas curiosas, por vezes ignorantes, sobre o meu “tipo” de cabelo; aprendi que não preciso de alisar a minha carapinha para ser aceite.
Conclusão: sinto-me mais ligada às minhas raízes. Tenho consciência do que a minha carapinha  representa para mim. E tenho orgulho dela tal como é.
Se soubesse o que sei hoje e se pudesse voltar uns anos atrás, não usaria químicos para relaxar o meu cabelo, sabendo que existem outras maneiras de amaciá-lo sem recorrer a químicos.

O objetivo continua lá, o caminho ainda é longo, os olhares desaprovadores continuam a espreitar pelo canto, mas sou fiel à minha .

Nós No Cabelo – Testemunho de Carla Veiga

Sempre fui obrigada a acreditar que cabelo bonito é aquele que vemos constantemente na TV – liso e sedoso. E à medida que fui-me tornando adulta e com curiosidade para saber mais sobre os meus antepassados e de tudo um pouco, fui percebo essa “ditadura” contra os nossos cabelos naturais.

Então aí começa a minha “revolta “interior”. Começo por parar de desfrisar e alisar os meus cabelos, passo à transição com o cabelo sempre meio crespo meio liso nas pontas e vou cortando aos poucos. Ao fim de dois anos, por aí, denoto a minha coroa a querer sair e brilhar. Agora, sim, sinto-me eu! Sinto-me menos “acorrentada”, mais bonita..

Adoro o que vejo ao espelho, este cabelo que faz parte de mim e me mostra o quanto a nossa natureza é bela. O meu cabelo não é moda, é o ADN.