Áudio 118 – Afrodescendentes no cinema português – Fernando Arenas

Fernando Arenas é professor de Estudos Culturais da Lusofonia , com ênfase na literatura, cinema e música popular, que ele estuda a partir de um prisma interdisciplinar e de uma teoria centrada em fenómenos ligados às consequências do colonialismo e globalização. Fernando Arenas, o nosso entrevistado de hoje, faz uma análise de longas-metragens ligadas às experiências de africanos e afrodescendentes no Portugal contemporâneo, visando investigar como, a produção cultural reflete uma nação portuguesa em plena mudança, onde as fronteiras entre o Portugal e territórios africanos, tal como as noções acerca do que é “ser africano” ou “ser europeu”, estão a ser redefinidas.

 

(Foto – Hangar)

Anúncios

Comentando a música pós-colonial no Lisboa Mistura

O Lisboa Mistura está de volta em 2016 e a Afrolis esteve na Casa Intendente para ouvir a conversa sobre “A música pós-colonial de Portugal – do irromper do Hip Hop nos anos 1990 às manifestações Afro-House do presente”
com Vitor Belanciano, António Brito Guterres, Teresa Fradique, António Contador, Rui Miguel Abreu.

António Contador, um dos oradores:

“Música pós-colonial pode ser o rap que se fazia cá nos anos noventa, pode ser também o Kuduro que se fazia em Portugal nos anos noventa aqui, em Lisboa, e que mudou, que se transformou e que hoje é consumido, se calhar, em maior escala, em Portugal, em Lisboa, mas também nos arredores, em Paris, etc. É também, eventualmente, o Funaná que se dança no BLeza, mas, se calhar, o que me interessava mais dizer é a profunda repulsa que tenho com o termo pós-colonial. Eu acho que há um grande trabalho a fazer em encontrar um novo termo que sirva melhor, que seja mais positivo, que seja mais construtivo. Da mesma forma como segunda geração de imigrantes não serve para classificar ou para qualificar os jovens filhos de imigrantes africanos que são, em larga maioria, portugueses. E, por isso, música pós-colonial serve, se calhar, o contexto histórico português que, talvez, exista ainda, mas que é necessário ultrapassar. E, talvez, o trabalho a fazer é, precisamente, desconstruir esse termo pós-colonial e, sobretudo, substitui-lo por outro, que seja mais carregado de vida e menos carregado do passado histórico complicado. Portanto, se calhar há um trabalho a fazer sobre a história de Portugal, sobre a história da vida dos portugueses, brancos e pretos, mulheres e homens, heterossexuais e homossexuais, para que esses termos deixem de fazer sentido.” (António Contador – orador)

“É interessante, de facto, ouvir essa questão sobre música pós-colonial, porque à priori uma pessoa pode-se questionar “o que é, de facto, música colonial e música pós-colonial?”  até porque a chamada música colonial também tem um histórico de mistura e de origens diversificadas, como a chamada música pós-colonial, que se produz hoje em Portugal, fruto desse território plantado à beira-mar, que hoje se chama Portugal. Por isso, a mim, me faz imensa confusão ter que se criar um caixote para se chamar essa música produzida nos dias de hoje e a dos outros tempos, como se ela não tivesse sido produzida no mesmo território e fruto de experiências diversificadas de um passado e de um presente. Eu acho que não é nenhuma novidade, os povos andarem a trocar experiências, a enriquecerem o que chamam de cultura popular ou cultura nacional. Eu acho que é importante, em primeiro lugar, olhar para essa dimensão do que é a música em Portugal. Agora, os caixotes, eu acho que isso é um problema de quem precisa de colocar as pessoas num espaço que não é um espaço global, que não é um espaço total, e assim os coloca à parte, e fora do chamado público geral. Eu próprio digo várias vezes que há uma questão fundamental, para qualquer artista, a sua maior ambição, seja nas artes plásticas, no cinema, na dança ou na música, a sua primeira ambição é atingir um público global, não é atingir um público em específico. Por isso, essa ideia da música pós-colonial nos remete para uma dimensão de público específico, que parar mim é discriminatório, porque a produção artística visa, única e exclusivamente, todas as pessoas interessadas nela. “ (Manuel dos Santos – público)

 

Especial Reportagem: Visita Guiada Por Uma Lisboa Africana com a Batoto Yetu

Largo de S. Domingo

Largo de S. Domingos / Rossio

A Associação Cultural e Juvenil Batoto Yetu Portugal encontra-se a desenvolver um projeto, em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, no qual pretende explorar a presença histórica de africanos na cidade de Lisboa. No dia 21 de junho realizou-se uma visita guiada em tuk tuk por Lisboa com a Professora Doutora Isabel Castro Henriques do Centro de Estudos sobre África, Ásia e a América Latina (ISEG) que indicou os lugares de memória da presença africana na cidade. Cristina Carlos, membro da Afrolis acompanhou a visita e deixa-nos aqui o seu relato.  

Por Cristina Carlos

Sousa Martins

José Tomás de Sousa Martins ( 7 de Março de 1843 — 18 de Agosto de 1897) , médico negro.

A presença visível de negros em Lisboa é uma prova viva das histórias vividas entre Portugal e os vários países de onde somos oriundos. Histórias essas que continuam e explicam aquela senhora aos pés da estátua de Sá da Bandeira,  no Largo de São Domingos –  um ponto de encontro africano mesmo ali no Rossio, ou a continua devoção ao beatificado Dr. Sousa Martins, a quem ainda hoje, 120 anos após a sua morte, são atribuídas curas milagrosas.

Lisboa tem uma história africana e “Cada vez mais é importante que se conheçam os lugares onde as pessoas passaram e existiram.” refere a Prof. Isabel Castro Henriques, que mostrou um percurso que promove o conhecimento dos lugares onde africanos escravizados estiveram com mais força, num período desde o Séc. XV até ao Séc. XIX, altura em que é abolida oficialmente a escravatura. Muitos lugares já não existem fisicamente, mas estão ligados à presença dos africanos em Lisboa, uma história pouco trabalhada e pouco conhecida.”, acrescenta a investigadora.

Tuk Tuk

(Frente dt.) José Lino (Direcção da Batoto Yetu) e Prof. Isabel Castro Henriques e convidados

Que lugares são esses? Que marcos têm? A toponímia da cidade revela alguns pontos, o inexistente Poço dos Negros, que se encontra tão próximo do lugar de castigo, agora é um triângulo de onde foi retirado o pelourinho. A Rua das Pretas, e o bairro das colónia são referências que ficaram na história e que deixam antever estórias de sujeitos sem direito a um lugar na história.
Fazendo o percurso em Tuk Tuk eléctrico, percorremos caminhos que ilustram a presença africana em Lisboa, que no Séc. XVI era estimada ser cerca de 10% da população lisboeta. Nessa altura, poderiam ver-se negro nas suas atividades de carga e descarga, no Cais Sodré, na construção de naus, na Ribeira das Naus e até mesmo a participar numa série de actos da vida portuguesa, sem segregação espacial entre brancos e negros, em que o ponto mais alto eram as músicas e as danças dos africanos, criando um ambiente festivo.

Nossa sr Rosario

Santos de pele negra, africanos

Santos negros (2)

Igreja da Graça – A presença de negros na cidade de Lisboa está num dos altares da Igreja, o de Nossa Senhora do Rosário

Mas nem só de festa são feitas as vivências dos negros em Lisboa, o Poço dos Negros, os Pelourinhos – lugares de castigo – mas também a Igreja do Carmo com a Nossa Senhora do Rosário e o Largo de São Domingo com a sua mística chamada para o encontro africano, presente mesmo nos tempos de hoje. “Foi sempre um lugar de encontro dos africanos, o que é extraordinário é que este lugar de encontro continua até aos nossos dias. Acredito que não haja conhecimento que neste lugar foram protegidos e aceites [africanos escravizados] numa confraria religiosa que lhes permitia comprar a liberdade (…), mas existe uma tradição oral sobre o facto deste ser o local do encontro.” Prof. Isabel Castro Henriques.

E é na busca deste encontro que a Associação Batoto Yeto pretende promover com o projecto Kadjibu 2016, Inês Pinto refere “O nosso objetivo é fazer o percurso e ver, em parceria com a professora [Isabel Castro Henriques], quais são estes locais mais importantes e que símbolos é que podemos realçar com uma placa a explicar a importância do local ou da pessoa. Incluir a informação em rotas turísticas aumentar a visibilidade e o interesse por este passeio. É estranho pensarmos que Portugal não tem um Museu de História Africana ou dedicado aos
povos africanos que fazem parte importantíssima da história de Portugal.”

Isabel CHEste primeiro passeio teve a locução da Prof. Isabel Castro Henriques e a presença de ilustres convidados, todos interessados na Presença Africana em Portugal. Soube a pouco. E para quem já ama Lisboa, é importante sentir que os africanos não são uma presença aleatória, mas que sempre fazem parte da cidade de Lisboa.

Áudio 112 – Armindo Tavares e histórias verídicas de CV

ARMINDO MARTINS TAVARES é um escritor natural de Cabo Verde, da ilha de Santiago, que se naturalizou português há mais de 20 anos e vive na área de Grande Lisboa. Trabalha e faz as suas investigações sobre o processo da formação do povo de Cabo Verde e escreve desde peças de teatro, poesia a histórias infantis. Aqui Armindo Martins Tavares fala-nos de o seu novo livro “Café com água da Tóbia”.

 

Para  comprar o livro podem contactar diretamente com o autor:

Tel. 965248325

Email: amtavares3@hotmail.com

Áudio 110 – Afrodescendentes no Sistema Educativo Português

“O que nos dizem as estatísticas oficiais sobre a situação dos afrodescendentes no sistema educativo português, do 1º ciclo ao ensino superior? Qual o papel do racismo institucional nas desigualdades evidentes?”

A investigadora Cristina Roldão (CIES-IUL) apresentou em Abril resultados do seu trabalho “Afrodescendentes no Sistema Educativo Português”. Hoje vamos ouvi-la falar sobre o processo de investigação e os resultados.

Áudio 109 – Lançamento do livro A Leste de Tudo: Flaviano Mindela Dos Santos

Flaviano Mindela Dos Santos, pintor, fotógrafo e escritor, lança o seu livro A Leste de Tudo no Bar/Restaurante Tabernáculo.  Flaviano fala-nos do seu percurso como escritor, de histórias da sua infância. e de famílias perseguidas durante o colonialismo.  Na mesa de apresentação: A editora representada por Paula OZ, o autor Flaviano Mindela Dos Santos, o apresentador Abílio Bragança Neto e Hernâni Miguel.

A LESTE DE TUDO – Crónicas de uma Infância: uma história verídica, bastante marcante, emocionante e expressiva.

 

Reportagem: “Ser mulher negra é a minha essência, não a minha sentença”

Por Ana Yekenha Ernesto

“Ser mulher negra é a minha essência, não a minha sentença”. Com esta frase terminava a apresentação em vídeo preparada pelas criadoras da Plataforma Femafro, e estava aberto o debate no 1.º Encontro de Feministas Negras em Portugal. A Plataforma Femafro, uma organização de mulheres negras, africanas e afrodescendentes em Portugal, apresentou-se no MOB – Espaço Associativo e abriu as portas a quem se quisesse juntar à luta pela defesa e promoção dos direitos destas mulheres. O evento teve lugar no dia 30 de abril de 2016.

Cartaz

Numa sala cheia, onde as cadeiras não foram suficientes para o número de inscritas, dezenas de mulheres de todos os tons de negro, e não só, partilharam experiências. Experiências de exclusão, discriminação, e micro e macro agressões. Se somos todas mulheres, porque não encontramos produtos de beleza e cabelo para nós nos mesmos locais que as mulheres brancas? Somos demasiado bonitas ou inteligentes para sermos negras – porque quando nos elogiam também nos ofendem? Porque não acreditam que somos portuguesas e perguntam três vezes onde nascemos? Ou porque assumem sempre que somos as empregadas domésticas?

As interrogações não paravam, num local onde as mulheres tinham total liberdade para perguntar. Várias vozes questionaram como seria organizada a plataforma. Qual é o objectivo e o que propõem? Que tipo de eventos vão organizar? As mulheres brancas poderão participar no projeto? Quem fará parte da administração e o que será, de facto, esta plataforma?
Foram mais as perguntas, muitas delas difíceis, do que as respostas.

A questão que nunca foi colocada, no entanto, é a do porquê da criação de uma plataforma exclusivamente para negras, africanas e afrodescendentes. As mulheres receberam a plataforma como um projecto indubitavelmente necessário e muitas o elogiaram.

P1010987

Alexandra Santos (Foto de Sara Carlos Campos)

“É importante porque existe racismo e existe discriminação e é como um tabu”, afirma Alexandra Santos, “depois porque é para mulheres, pessoas que sofrem discriminação ou são oprimidas por determinada coisa por serem mulheres”. Para a jovem de 29 anos, o facto de a Plataforma Femafro defender a intersecção entre diferentes opressões é uma mais valia, porque acabam por falar “de duas coisas que são mais ou menos vivíveis, mais ou menos invisíveis, de que se fala, mas não se fala”.

Mas a intersecionalidade da Plataforma não fica por aqui. No vídeo, apresentado por Raquel Rodrigues, Daryh Carvalho e Joana Sales, criadoras do projeto, retractavam-se os temas que a Plataforma Femafro se propõe a discutir e combater: racismo, sexismo, lesbofobia e transfobia.

P1010989

Luzia Gomes (Foto de Sara Carlos Campos)

Na década internacional do afrodescendente, como foi destacado no início do encontro, a Plataforma pretende dar visibilidade à mulher negra e questionar o papel, até histórico, desta na sociedade. Para Luzia, a mulher negra foi limitada “a uma invisibilidade em espaços de poder, espaços de arte, e em espaços de estar sociais privilegiados”. “É muito diferente acostumar a ver uma mulher negra no shopping a limpar do que ver essa mulher negra como professora na universidade ou como jurista”, explica.

Por exemplo, “quando uma mulher negra se torna ministra e causa incómodo é justamente pelo lugar onde nos colocaram sempre, no lugar de limpar o chão para o branco”, continua Luzia. Por este motivo, Luzia, de 37 anos, acredita que é urgente discutir temáticas que trabalhem as especificidades da mulher negra na sociedade portuguesa.

Ao longo da sessão e do debate que se segue, a Plataforma Femafro tenta mostrar porque o feminismo negro é diferente do típico feminismo. Porque é preciso criar uma divisão dentro do movimento. Para a Alexandra é porque “os outros espaços são para brancos, para homens, para a maioria”.

Para Beatriz Gomes Dias, a divisão é necessária porque “quando estamos a discutir as questões das mulheres estamos a discutir as questões das mulheres brancas”, conforme explica a professora de 45 anos. “Não estamos a discutir as questões da desigualdade que é ampliada pela cor da pele”, continua. “As mulheres brancas têm lutas de direitos mas não estão a lutar para que haja uma representação social diferente”.

“As nossas lutas não são idênticas porque têm a ver com a nossa história”, completa Paula Almeida. “A base histórica é completamente diferenciada e daí temos pontos que não nos tocam da forma idêntica”.

“É como andar. Nós todos aprendemos a andar mas aprendemos de forma de forma diferente”, diz Juliana Penne. A jovem de 21 anos mostra-se contente por finalmente haver um “espaço de respiração” e partilha para as mulheres negras. Afinal, “uma mulher negra de forma geral tem um percurso diferente de uma mulher branca”.

P1010996

Paula Almeida (Foto de Sara Carlos Campos)

Para Paula Almeida, de 37 anos, este projecto vai levantar uma parede para proteger as comunidades. “Nós temos um racismo institucional, um racismo crónica, contra tudo aquilo que muitas vezes as mulheres passam em casa para as suas crianças”, conta Paula. “E muitas vezes parece que o outro lado tem mais poder”.

Mulheres negras, africanas, afrodescendentes e brancas reuniram-se para decidir quais seriam as bases de uma plataforma que está agora ainda a dar os primeiros passos. Sem hierarquias e aberto, este projecto pretende acabar com pouca representação da mulher negra ou, como disse Paula Almeida, dar-lhe uma voz que não existia.

PARA OUVIR

Mais infos Entrevista com as coordenadoras do projeto