A Descida do Triunfo – Relato pessoal de manifestante contra violência policial (21 janeiro, 2019)

Dia 21 de Janeiro de 2019 foi um marco importante para as pessoas em Portugal, pessoas que não alinham com nenhum tipo de violência e crenças racistas. Pessoas que querem a mudança e um país onde nunca mais alguém irá ser julgado ou prejudicado pela sua cor de pele.

Texto de Geovani, um dos manifestantes de 21 de janeiro de 2019, originalmente publicado na sua pagina de facebook

Dia 21 de Janeiro de 1983, era oficializado o Martin Luther King Day ( Dia de Martin Luther King Jr.) Feriado Nacional nos Estados Unidos da América, em homenagem ao Reverendo Martin Luther King Jr, pela luta contra o Sistema Racista e pelo reconhecimento dos seus contributos para implementação de políticas afirmativas para Negros e minorias étnicas nos EUA.
Martin Luther King Jr, ficou celebremente recordado no mundo inteiro, pelo seu discurso “I have a Dream”, proclamado no cimo dos degraus do Memorial Lincoln, em Washington D.C., como parte da marcha de Washington por Empregos e Liberdade.

Trinta e seis anos mais tarde, no dia 21 de Janeiro de 2019, foi marcada uma manifestação em Lisboa, para denunciar a violência policial que uma Família Negra do Bairro da Jamaica sofreu no dia anterior. A convocatória foi feita de forma orgânica, pelos jovens de diversas áreas da cidade de Lisboa e do País, através das redes sociais Facebook e Instagram.

Manifestação em Lisboa – o começo 

Sem o envolvimento de nenhum partido político, movimento partidário ou social. As pessoas, maioritariamente jovens, mobilizaram-se pela luta contra os atos de violência da polícia e em solidariedade pela Família Negra do Bairro da Jamaica

O Terreiro do Paço, foi o ponto de encontro estabelecido, as pessoas começaram a chegar por volta das 14hrs. Numa primeira fase da manifestação, ficámos junto da estátua equestre D. José I, onde exprimimos a nossa solidariedade para com a Família do Bairro da Jamaica e também começámos a mostrar a nossa revolta e indignação pelos atos bárbaros cometidos no dia anterior. Utilizamos o degrau da estátua como palco, e as pessoas que pretendiam falar, subiam e falavam perante a multidão de pessoas que começava a ganhar forma.

Cada pessoa, partilhava as suas experiências pessoais com a polícia e outros atos violentos racistas, cometidos pelas diversas instituições em Portugal. Uns falavam da questão das condições de trabalho precárias, outros do acesso à cidade, outros como a instituição do ensino em Portugal é muito racista. Também houve muita discussão, não estávamos todos de acordo com o que devíamos fazer naquele dia e muito menos o que era o “Racismo”. Houve pessoas que se exprimiram a dizer que o ato contra a Família Negra não era racismo, mas sim uma questão de Direitos Humanos, outras diziam que devíamos fazer uma manifestação pacífica, sem perturbar o funcionamento da cidade, ficando apenas junto à estátua. Mas também havia muita gente a exigir esclarecimentos e a atenção das autoridades competentes. Visto que o Ministério da Administração Interna ficava logo ao lado, decidimos em conjunto manifestarmo-nos à frente da sua porta. À nossa chegada, fomos logo barrados por um cordão policial. Carina, uma das jovens negras que estava na manifestação, dirigiu-se aos policias para informar que pretendíamos falar com algum representante do estado ou do ministério, o polícia disse: “Não podem falar com ninguém porque a vossa manifestação é ilegal, se quiserem manifestar-se têm de avisar previamente”.

Ficámos cerca de 40 minutos junto do Ministério, onde entoávamos cânticos contra o racismo e contra a brutalidade policial, outras pessoas dançavam, várias pessoas chegaram-se à frente e proclamavam discursos, dizendo aquilo que lhes ia na alma. A comunicação social estava presente, e entrevistou várias pessoas (mas essas imagens não apareceram na televisão).

Rumo ao Marquês

Decidimos em conjunto, uma vez mais, subir a cidade até ao Marquês de Pombal. Muita gente achou a ideia ousada e perigosa. O nosso receio era que a polícia começasse a agredir-nos de forma desequilibrada e violenta, como é recorrente em situações que envolvam pessoas negras e de bairros periféricos. Mas, rapidamente, ganhámos ânimo quando um dos jovens pegou no megafone e disse: “Hoje viemos para procurar Justiça, nem que tenhamos de levar porrada, é importante não desistir e mostrar a toda gente que estamos aqui na cidade”, assim começou o nosso percurso, rumo ao Marquês de Pombal.

Prontamente, estabelecemos alguns códigos e regras de conduta. Não iríamos utilizar a violência e nenhum tipo de provocação que colocasse em perigo a integridade física das outras pessoas, não iríamos recuar caso a polícia viesse para cima de nós, estaríamos todos juntos e próximos numa eventual tentativa de agressão por parte da polícia, e que iríamos subir em marcha lenta pela estrada.

Começámos pela Rua do Ouro. Assim que entrámos na rua, vimos o olhar surpreendido das pessoas. Apanhámos todo o mundo desprevenido. Algumas pessoas aplaudiam, outras provocavam com insultos racistas, outras juntavam-se a nós e cantavam ao nosso lado. Ia um grupo à frente, que controlava o ritmo da marcha. Por diversas vezes ouvíamos uma voz “pessoal mais calma, devagar, estamos a andar muito rápido” ou “família, nada de violência, hoje viemos em paz. Ninguém responde as provocações…” e foi algo recorrente durante toda a Marcha.

E assim fomos subindo, passámos pela praça do Rossio, pela estação de comboios e pelos Restauradores. Quando subimos a Avenida da Liberdade, percebemos a dimensão da Marcha, se noutro momento eramos apenas uns 50 jovens, junto à Estátua equestre D. José I, naquele momento já eramos à vontade umas 200 pessoas. Toda a gente motivada, sorrisos na cara, de mãos dadas, a fazer o nosso propósito acontecer.

Chegámos ao primeiro cruzamento da Avenida da Liberdade. As pessoas que iam colocando o ritmo da marcha pararam de repente. “Vamos ficar por aqui, se subirmos até ao Marquês, de certeza que policia irá nos bater”, outras pessoas discordavam, dizendo: “vamos até ao fim, viemos com um propósito, temos de cumpri-lo”, “sem medos, estamos todos juntos”.

A polícia 

Nesse momento de paragem, a polícia aproximou-se com os seus veículos e carripanas. Fizeram um cordão de frente para as pessoas que estavam na parte de trás da marcha. O clima ficou muito tenso, nós não avançámos e muito menos eles. Percebemos que a polícia não sabia como reagir, mesmo com a Avenida parada, nós não tínhamos comportamentos agressivos ou violentos. Apenas estávamos no meio da estrada, a fazer aquilo que estivemos a fazer desde o início, a entoar cânticos contra o racismo institucional do nosso pais, contra a violência policial e o racismo em Portugal. “Pessoal vamos levantar os braços, para eles verem que não temos nada. Vamos levantar os braços para verem que viemos só com a nossa mão, com o nosso corpo, com a nossa vontade de pedir justiça”, “Pessoal, vamos fazer um minuto de silêncio, em homenagem à Mãe do Missanguinhas”. Nessa ocasião, uma das jovens negras da manifestação, aproximou-se do cordão policial para explicar que a nossa intenção era chegar ao Marquês de Pombal, mas foi desprezada. A polícia não tinha tenção de falar connosco, eles já tinham a sua missão bem delineada. Inclusivé, pessoas que se juntaram à marcha mais tarde, que vinham a subir a Avenida disseram que os policias tentaram bloquear a passagem, ameaçando-os com bastonadas e armas.

Continuámos o caminho rumo ao Marquês de Pombal, no último cruzamento da Avenida da Liberdade, parámos para reagrupar novamente. A polícia já estava mais musculada e continuava a não comunicar connosco. Pelo lado esquerdo da Avenida, quem vem do sentido dos Restauradores, subiram vários veículos da polícia. Era a polícia de intervenção, fizeram um cordão à nossa frente e barraram o nosso caminho. Foi a primeira vez, que eu vi e ouvi um policia a dirigir-se a nós de forma calma e serena, “jovens, saíam da estrada. Se quiserem manifestar-se, vão para o passeio”. Nesse momento, voltámos a sentarmo-nos no cruzamento e ficámos algum tempo sem saber o que fazer. Depois de muita articulação resolvemos tentar contornar o cordão policial e seguir o nosso caminho rumo ao Marquês. Foi o que fizemos, tranquilos e sem nenhum stress. A polícia não fez nada para nos impedir. Acredito que não estavam à espera que tivéssemos coragem, os seus habituais métodos de intimidação, naquele dia, não tinham qualquer efeito perante a nossa determinação implacável.

A meta(?)

Finalmente, chegámos ao Marquês de Pombal. As pessoas abraçavam-se, íamo-nos cumprimentando uns aos outros. Sorrisos, lágrimas, era a concretização de um objetivo, que estabelecemos quando ainda era de dia. Era uma multidão com mais de 200 pessoas.

A cidade já sabia que nós estávamos ali, agora restava saber se a mensagem tinha sido transmitida para casa. Pairava um certo ceticismo no ar, porque todos nós desconfiávamos da atuação da comunicação social que acompanhou a marcha o tempo todo. Muitas pessoas diziam que eles não iam transmitir nada daquilo que fizemos, que estavam ali à espera da confusão prontos para fazer a transmissão de um espetáculo televisivo, para alimentar as suas audiências e sabiam muito bem onde deveriam estar e o que gravar.

Aliás, é importante reforçar que a comunicação social portuguesa não mostrou nada do que se passou durante a marcha, não mostrou o momento em que fizemos um minuto de silêncio, não mostrou as tentativas de comunicação com a polícia por parte das mulheres que estavam na marcha, não mostraram as imagens das jovens com megafone na mão a dizer “hoje não vai haver confusão”, “não respondam a provocações”, não mostraram quando nós cantávamos, não mostraram as pessoas a sorrir.

Policia musculada

A policia estava muito musculada, tensa e pronta para nos varrer. No cordão que fizeram à frente do Marquês de Pombal, alguns dos polícias iam rindo, com sorrisos enormes na cara. Riam como alguém ri quando vê um programa de comédia. Sorrisos maliciosos aguardavam pela grande hora, pelo Show Time. Felizmente, ainda estava um pouco claro e não podiam avançar. Nós estávamos próximos deles, a um metro do cordão policial, várias provocações iam sendo trocadas, tanto por parte da polícia, como dos manifestantes. Alguns, questionavam o motivo pelo qual aqueles polícias estavam a rir, outros questionavam se eles não sentiam remorsos pelo sucedido com a família negra e com a violência policial que as comunidades negras sofriam em Portugal. Eles riam e sorriam, não estavam nem aí para as nossas perguntas, apenas esperavam pela ordem do “grande chefe”. Estavam sedentos de partir-nos ao meio.

Eu estava furioso, sentia-me impotente ali no meio, sentia-me numa jaula. Sabia, exatamente, qual seria o desfecho logo que escurecesse. Tirei os meus livros da mala e distribuí pelo pessoal ao meu redor, tinha o Código penal português, a Constituição da República, um livro da Angela Davis e do Achille Mbembe. Peguei na mão da Mónica, uma jovem negra que abdicou de trabalhar nesse dia para ir à manifestação e disse: “ Vamos para casa, porque daqui a bocado eles vão começar a bater-nos”. Eu e a Mónica combinámos não largar a mão um do outro, independentemente do que acontecesse. Passámos a mensagem a algumas pessoas que estavam à nossa volta e um grupo significativo de manifestantes veio connosco.

Contornámos o cordão policial esperando que o sinal ficasse verde para os peões e passámos no preciso momento em que um policial mais velho, que tinha apenas uma camisa azul vestida(acredito que fosse um dos chefes), tentou impedir a nossa saída do Marquês ao que uma das raparigas que estava ao nosso lado respondeu: “nós estamos a ir embora, não podemos?”. O policia ficou calado, sem reação. Afastou-se e deixou-nos passar. Na minha mão tinha a Constituição da República e a Mónica o código Penal. Uma jornalista correu rapidamente para a nossa frente e começou a tirar fotos ao que avisei que não queria fotos. Nós só queríamos ir embora o mais rápido possível.

Para nosso espanto, muita gente decidiu o mesmo e as pessoas começaram a descer novamente, em direção ao Rossio. Iam cantando “Não ao Racismo!” sem parar, os carros parados na Avenida da Liberdade iam apitando em solidariedade para com a nossa marcha. Aquele momento foi a descida do triunfo. Olhei para a Mónica e os dois sorríamos que nem os Polícias do cerco do Marquês. Pensava para comigo “Porra que dia foda, só quero chegar a casa, ligar a Tv e ver o que a comunicação social vai dizer desta vez.”

A carga

“EIIIIIIIIIIII… DISPERSAR PRETO DA MERDA”! “ANDOR CARALHO”… “NÃO OUVIRAM PRETOS DA MERDA”…

Olhei para trás, era um homem branco, com pé de cabelo, ténis, calças de ganga e uma sweat preta, o mesmo homem que passou o dia connosco na marcha de repente, começou a dizer aquelas barbaridades! Surgiram mais uns 5, que começaram a provocar e agredir os jovens. Alguém gritou “esses gajos são dos narcóticos”, “Eles são policias à paisana”! Foi aí que a confusão começou, eu estava a 1 metro de distância do jovem que foi bofeteado pelo polícia à paisana. Ele tirou a arma e apontou sobre nós, corremos para o passeio e começámos a gritar: “Malucos!”, “Policias da merda, só sabem bater”… De súbito, chegou uma carga policial, vinda do topo da Avenida, o grupo foi dividido em 2: uns ficaram na parte da cima da Avenida da Liberdade, junto ao Marquês e outros já estavam a descer a caminho dos Restauradores. Os polícias de intervenção começaram a varrer tudo à bastonada, a bater em pessoas que estavam paradas, em mulheres e jovens de forma violenta e bruta.

O nosso grupo que estava no passeio começou a tirar os telemóveis para gravar, ao nosso lado estava um bacano branco com a sua câmara e estabilizador, a tentar arranjar um ângulo para gravar. Não recuámos, batemos de frente com a polícia. Questionei a necessidade das agressões a um polícia de intervenção que era “mulato” (designação racista para identificar uma pessoa negra de pele mais clara) respondeu-me de forma serena, em contraste com a sua expressão corporal, “meu irmão, sai agora daqui, senão isto vai correr muito mal para ti”.

Os disparos

Foi aí que ouvi o primeiro disparo, e depois mais dois… “BUUUMMM, BUUUMMM…” Comecei a correr, não sabia da Mónica, só via as pessoas a correr em direção ao Restauradores. Foi quando parámos perto da embaixada de Espanha que alguns jovens da manifestação começaram a atirar pedras e garrafas de vidro, em resposta aos tiros. Veio uma nova carga de polícias à paisana e alguns com farda. Encostei-me à parede de um edifício quando um polícia passou por mim e deu-me uma bastonada, outro à paisana vinha a correr com a arma na mão e apontou-a a mim. Ele era muito mais baixo que eu, tentou puxar a minha mala, gritei: “Deixa-me em paz. Na mala só tenho livros e um tablet, deixa-me em paz.”, uma Sra. branca que estava do outro lado da rua, veio acudir-me. O polícia largou-me e continuou a correr em direção aos Restauradores.

Ainda a descer a Avenida, comecei a correr em direção ao Rossio, ia tentado comunicar com os meus amigos que vieram à manifestação para saber se algo lhes tinha acontecido. Os telemóveis chamavam, mas ninguém atendia. Estava muito preocupado, já tinha chegado à estação do Rossio, não tinha tenção de subir novamente. Comecei a comunicar com as pessoas através do whatsapp, liguei à minha mãe a dizer onde estava…

Passados uns 20min, as pessoas iam chegando, algumas iam partilhando vídeos, onde mostravam os polícias a agredir as pessoas, outras gravaram o momento da detenção de um dos jovens, que tinha mais de 4 policias em cima do seu corpo, também haviam vídeos a mostrar a detenção de outro jovem, apenas por dizer “não há necessidade de fazerem isso” sendo que essa detenção passou na televisão.

Os detidos 

Um pequeno grupo de jovens que estava na manifestação, reuniu perto da estação do Rossio. O Lucas, um jovem brasileiro, que veio para Portugal ainda quando era pequeno, disse que um dos jovens que foi detido era seu amigo. Perguntámos aos polícias para onde seriam encaminhados os detidos ao qual nos responderam a esquadra do Martin Moniz. Encontramos novamente o policial “Mulato” que nos disse “estou muito triste com vocês meus irmãos, podem manifestar, mas não deviam andar pela estrada e muito menos arranjar confusão”, nós íamos respondendo e explicando que os seus colegas é que começaram, mas a conversa não passou disso.

Mobilizámos um pequeno grupo e fomos para a esquadra do Martin Moniz. À nossa chegada os polícias saíram da esquadra e ficaram na porta, barrando a nossa entrada. Perguntaram o que queríamos, explicámos o sucedido, queríamos saber do jovem que tinha sido detido, disseram que só os familiares é que podiam saber das informações. O Lucas informou que era amigo do jovem que tinha sido detido, disse o nome todo do rapaz, data de nascimento e momento em que foi detido. O Polícia disse que ia ver. Demorou uns 10min e chegou perto de nós a dizer “não sei de nada, ainda não está nenhuma informação no sistema”. Questionámos o que poderíamos fazer, foi-nos informado para ligar para as esquadras da cidade de Lisboa a perguntar pelo detido.

Estávamos cansados, com frio e ainda tínhamos os polícias a gozar com a nossa cara. O Lucas insistia, precisava de saber onde estava o amigo. Os polícias rapidamente o intimidaram, com o clássico dos polícias em Portugal, meteram as luvas, pegaram no bastão e disseram para ele não voltar entrar no pátio da esquadra senão iria levar na boca.

Nada bate certo

Conseguimos a ajuda de um advogado que ia a passar na rua no momento da detenção e que nos ajudou prontamente. Fomos com o advogado até à esquadra, a linguagem corporal dos polícias mudou assim que o advogado se identificou. Pediram a “carteira” de advogado e a identificação, confirmaram os dados e verificaram novamente se o jovem detido estava nas instalações da polícia. Enquanto esperávamos no pátio da esquadra, veio uma carrinha descaracterizada de onde saíram vários homens (eram policias à paisana) reconheci um deles pois foi o mesmo que me agrediu. Apontei para ele, explicando ao advogado o que ele tinha feito, ele e os colegas riam-se na nossa cara.

Nada batia certo, a polícia não sabia onde estava o jovem detido, o Lucas estava muito agitado e preocupado, os policias ainda desprezavam toda a situação. À falta de melhor solução, resolvemos ir jantar.

Passadas 3 horas “descobrimos” o paradeiro do jovem, disseram-nos que tinha chegado à esquadra do Martin Moniz. Quando chegámos ao pátio da esquadra a situação era bem diferente, tinha alguns polícias bem tranquilos e serenos que sabiam de nada. Era a troca de turnos, receberam-nos muito bem, deixaram-nos entrar nas instalações da esquadra, inclusivé perguntaram se estávamos bem. Uma mudança de 360°. Deram-nos a informação que o jovem estava na esquadra da Penha de França.

Chegámos à esquadra da Penha de França e a mesma situação, polícias bem tranquilos e serenos ajudaram-nos com o que podiam. Disseram-nos que o jovem estava nas instalações e o Lucas, o amigo do rapaz detido, queria vê-lo, no entanto, a única pessoa autorizada a visitar era o advogado. Passámos algumas mensagens de moral e força ao advogado, para dizer ao jovem detido. Passou algum tempo, o advogado saiu, disse-nos que não podia fazer mais nada, que o jovem iria ser presente a uma juíza no dia seguinte.

E assim foi o meu dia.

Fiquei com o Lucas, à frente da esquadra da Penha de França, esperando um táxi para nos levar a casa. Íamos trocando impressões sobre o dia, o que fizemos mal, o que fizemos bem, o que mudaríamos e o que não mudávamos.

Regresso a casa

Cheguei a casa e a minha mãe perguntou se o que estava a passar na televisão era verdade ao qual respondi “MÃE, ACHAS?”.

Recebi uma mensagem do meu irmão que está a estudar no estrangeiro a relembrar-me que dia 21 era o dia do Reverendo Martin Luther King Jr. Fiquei bastante pensativo. Tenho quase a certeza que o reverendo ficaria muito orgulhoso da nossa determinação e vontade de mudança.

Dia 21 de Janeiro de 2019 foi um marco importante para as pessoas em Portugal, pessoas que não alinham com nenhum tipo de violência e crenças racistas. Pessoas que querem a mudança e um país onde nunca mais alguém irá ser julgado ou prejudicado pela sua cor de pele.

“I Have a dream that my four little children will one day live in nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their characther”, Reverendo Martin Luther King Jr

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Divulgação: A voz da mãe Preta- Manifestação frente a CMSeixal – 25 de Janeiro

Várias Jamaicas:
Basta de Brutalidade Policial! Não ao Racismo Institucional!

A brutalidade policial é um fenómeno com o qual nós, negras e negros em Portugal, estamos escandalosamente familiarizados. O caso de violência policial no bairro da Jamaica não é uma exceção. Há várias Jamaicas nas periferias deste país, onde a população tem constantemente a sua integridade física ameaçada por agressões desproporcionadas e intervenções musculadas. Jamais esqueceremos todos aqueles que pereceram às mãos da polícia, como o Elson Sanches (Kuku) executado aos 14 anos, o Diogo Seidi (Musso) e o José Carlos que com apenas 15 e 16 anos não resistiram às lesões de que foram alvo, o Nuno Rodrigues (Mc Snake) morto numa perseguição policial ou o Manuel Pereira (Tony) assassinado. É altura de dizer BASTA à forma claramente intimidatória, racista e violenta com que as “forças de autoridade” nos tratam, ferindo a nossa dignidade, bem como denunciar o vergonhoso “serviço público” prestado pela esmagadora maioria dos orgãos de comunicação social, com o intuito de nos isolar e diabolizar.

As imagens chocantes dessa violência, por parte das autoridades do Estado, falam por si. Como pode um pai e uma mãe serem espancados daquela forma por quem devia garantir a sua proteção? Mais uma vez, somos alvo de uma violência desmedida que não poupa ninguém. É neste contexto de injustiça e indignação que moradoras e moradores do bairro da Jamaica, em conjunto com colectivos antirracistas, estão a organizar uma mobilização para esta sexta-feira (25 de janeiro), às 16 horas, em frente aos Serviços Centrais da Câmara Municipal do Seixal. Queremos, a uma só voz, gritar: Não à Brutalidade Policial! Não ao Racismo de Estado!

Contamos com a vossa participação! É preciso que nos organizemos para dar uma resposta política às instituições do Estado português, que se calam perante as recorrentes situações de violência policial. Por isso, apelamos a todas e todos, independentemente da origem, cor de pele e morada, que se juntem a nós nesta mobilização contra a violência sistemática de que somos alvo e por um tratamento digno das instituições do Estado português.

Não ao Racismo de Estado!
Basta de Violência Policial!
Por uma Política Antirracista!

A dor de uma mulher, mãe, negra ver a sua família brutalmente agredida por uma entidade que devia zelar pela segurança de todos. Este foi o triste episódio que se passou no bairro da Jamaica-Seixal.
A luta é tua, é minha, é nossa vamos fazer ouvir as nossas vozes!!
Juntos somos mais fortes!!

Organizações subscritoras do manifesto:

– Afrolis- Associação Cultural
– CAIP – Coletivo de Ação Imigrante e Periférica
– Consciência Negra
– Em Luta
– FEMAFRO – Associação de mulheres negras, africanas e Afrodescendentes em Portugal
– Nu Sta Djunto – Estamos Juntxs
– Plataforma Gueto
– SOS Racismo

Orientações a seguir para uma manifestação pacífica:

– Respeitar e acatar as indicações da organização e autoridades em todos os momentos;
– Ficar calmo, não discutir e colaborar sempre que necessário com as autoridades e terceiros;
– Ser pacífico e não recorrer à violência;
– Não fazer ameaças ou utilizar linguagem ofensiva contra os presentes;
– Andar sempre em grupo, para não correr risco de agressão por parte de terceiros;
– Manter o seu círculo de contatos sempre atualizado do que está a acontecer com você e onde se encontra, e na eventualidade de ocorrer alguma situação temos à disposição o número de telemóvel 924128977 para prestar auxílio;
– Não levar objetos ou substâncias que possam ser utilizados como armas ou provocar danos;
– Manter sempre o respeito pela propriedade pública e privada e evitar quaisquer atos de destruição ou danificação antes, durante e após a manifestação.

Relembramos a todos que estamos a organizar uma manifestação pacífica para alertar a todos sobre a problemática da violência policial que algumas comunidades sofrem. Não estamos contra a polícia nem queremos manifestações de violência ao longo de todo o evento.

No caso de serem abordados ou se necessitarem de algum auxílio temos à disposição o número 924128977 para prestar um apoio mais imediato.

Republicação: “Portugal // Manifestação anti-racista: contexto, testemunhos, vídeos”

 

Na madrugada de dia 20 de Janeiro, a PSP foi chamada ao bairro da Jamaica devido a um distúrbio entre mulheres após uma festa. Segundo o relato de uma moradora, a cerca de meia dúzia de agentes esperou na carrinha até ao reatar dos conflitos, saindo depois para o confronto físico gratuito e imediato. A PSP diz que um dos seus agentes teria anteriormente sido agredido com uma pedra arremessada. Claro que o que isto diz implicitamente é que “estavam a pedi-las” e que portanto não houve nada de errado na intervenção policial.

Até aqui poderia ter sido qualquer uma das muitas intervenções da PSP nos bairros pobres e negros de Portugal. A diferença é que desta vez tudo foi filmado e uma versão curta do vídeo colocada a circular nas redes sociais. O vídeo mostra 5 homens e mulheres, entre os 30 e os 60 anos, a serem selvagemente espancados. Este primeiro vídeo foi confrontado com os habituais comentários de que “não mostrava a história toda”. Entretanto, um vídeo mais completo dos eventos veio à superfície.

Como se pode ver, o gatilho para o perder de cabeça dos agentes da PSP parece ter sido os comentários feitos pelo jovem que foi espancado e depois detido, e não qualquer agressão física. Seja como for, o vídeo original incendiou as redes sociais, especialmente por entre as redes mais utilizadas pelos jovens, como o Instagram e Whatsapp. Aí, longe dos olhares habituais, foi chamada uma manifestação que reteve o elemento de surpresa no dia 21. Disse-nos C., que pediu anonimato:

“(…) passou nas stories do Instagram de amigos. Que partilhou de outra pessoa. Por acaso apanhou toda a gente [de surpresa]. Não deram crédito. Acho que foi espontâneo, não tinha nem 24h desde que foi partilhado. Até pela faixa etária presente de jovens negros e brancos. A maioria estudantes.”

Mas, apesar de não serem novos, estes actos de violência policial não costumam desencadear manifestações de protesto no centro de Lisboa. C. aponta como importante o facto de desta vez terem sido alvo de violência os pais de jovens:

“(…) foram cometer essa brutalidade com as principais pessoas que meninos e meninas idolatram, mãe e pai. Essa mãe é mãe, avó, irmã, tia, prima e amiga de muitos afrodescendentes que já sofrem vários tipos de segregação e falta de oportunidades. Onde a mãe e o pai são a primeira e única solução de sobrevivência.”

B., mais jovem e que também quis manter o anonimato, disse sobre a motivação para a acção:

“(…) além de estarmos saturados das acções brutas da polícia, foi o que aconteceu no bairro da Jamaica.”

E sobre a localização:

“O porquê de terem escolhido o centro de Lisboa, penso (…) que foi porque é um local marcante onde muita gente passa e seríamos ouvidos com mais facilidade.”

A manifestação

“Artigo 45.º da CRP – Direito de reunião e de manifestação

1. Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização.

2. A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação.”

A manifestação concentrou-se primeiro junto ao Ministério da Administração Interna no Terreiro do Paço, onde foram feitos vários discursos.

Depois, seguiu para a Avenida da Liberdade, ocupando as estradas por onde passava, incluindo a própria Avenida. Tendo apanhado a manifestação por acidente, Miguel de Lemos relatou-nos:

“As palavras de ordem eram: Justiça; Abaixo o Racismo (eram as gritadas nos megafones!). Como os manifestantes estavam na estrada havia muita gente a ver, inclusivamente turistas a observar e indignação por parte dos condutores. Isto no sentido Rossio-Marquês. Os carros que circulavam do outro lado, alguns deles manifestaram apoio com apitadas e punhos cerrados. O ambiente, tirando as palavras de ordem e o barulho era sereno, mesmo quando os manifestantes se sentaram num dos cruzamentos.”

Diz B.:

“As reações das pessoas (…) algumas foram de irritação porque estávamos a parar o trânsito. Outras reações que nos deixaram cheios de alegria foi quando estávamos a andar na estrada e houve carros a apitar e a abrir as janelas a protestar também, a dizer que estávamos correctos e que estávamos a fazer bem.”

A manifestação foi seguida de perto pela PSP com carrinhas e munida de equipamento de motim. Apesar de até agora tudo se ter desenvolvido tranquilamente, a PSP estava a preparar das suas. Diz Miguel sobre a actuação:

“Foi confusa, violenta e desde o início sem qualquer vontade de diálogo ou de apaziguar a situação. Aliás as primeiras provocações que foram feitas, foram por elementos da PSP. Ainda consegui acalmar os ânimos por duas vezes. Um dos miúdos que estava a ser empurrado (ele estava no passeio, não estava na estrada) perguntava que mal é que ele estava a fazer. Eu aproximei-me e afastei-o.”

Portugal // Manifestação anti-racista: contexto, testemunhos, vídeos

Na madrugada de dia 20 de Janeiro, a PSP foi chamada ao bairro da Jamaica devido a um distúrbio entre mulheres após uma festa. Segundo o relato de uma moradora, a cerca de meia dúzia de agentes esperou na carrinha até ao reatar dos conflitos, saindo depois para o confronto físico gratuito e imediato. A PSP diz que um dos seus agentes teria anteriormente sido agredido com uma pedra arremessada. Claro que o que isto diz implicitamente é que “estavam a pedi-las” e que portanto não houve nada de errado na intervenção policial.

Até aqui poderia ter sido qualquer uma das muitas intervenções da PSP nos bairros pobres e negros de Portugal. A diferença é que desta vez tudo foi filmado e uma versão curta do vídeo colocada a circular nas redes sociais. O vídeo mostra 5 homens e mulheres, entre os 30 e os 60 anos, a serem selvagemente espancados. Este primeiro vídeo foi confrontado com os habituais comentários de que “não mostrava a história toda”. Entretanto, um vídeo mais completo dos eventos veio à superfície.

Como se pode ver, o gatilho para o perder de cabeça dos agentes da PSP parece ter sido os comentários feitos pelo jovem que foi espancado e depois detido, e não qualquer agressão física. Seja como for, o vídeo original incendiou as redes sociais, especialmente por entre as redes mais utilizadas pelos jovens, como o Instagram e Whatsapp. Aí, longe dos olhares habituais, foi chamada uma manifestação que reteve o elemento de surpresa no dia 21. Disse-nos C., que pediu anonimato:

(…) passou nas stories do Instagram de amigos. Que partilhou de outra pessoa. Por acaso apanhou toda a gente [de surpresa]. Não deram crédito. Acho que foi espontâneo, não tinha nem 24h desde que foi partilhado. Até pela faixa etária presente de jovens negros e brancos. A maioria estudantes.

Mas, apesar de não serem novos, estes actos de violência policial não costumam desencadear manifestações de protesto no centro de Lisboa. C. aponta como importante o facto de desta vez terem sido alvo de violência os pais de jovens:

(…) foram cometer essa brutalidade com as principais pessoas que meninos e meninas idolatram, mãe e pai. Essa mãe é mãe, avó, irmã, tia, prima e amiga de muitos afrodescendentes que já sofrem vários tipos de segregação e falta de oportunidades. Onde a mãe e o pai são a primeira e única solução de sobrevivência.

Uma das agredidas pela PSP no bairro da Jamaica.

B., mais jovem e que também quis manter o anonimato, disse sobre a motivação para a acção:

(…) além de estarmos saturados das acções brutas da polícia, foi o que aconteceu no bairro da Jamaica.

E sobre a localização:

O porquê de terem escolhido o centro de Lisboa, penso (…) que foi porque é um local marcante onde muita gente passa e seríamos ouvidos com mais facilidade.

A manifestação

Artigo 45.º da CRP – Direito de reunião e de manifestação

1. Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização.

2. A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação.

A manifestação concentrou-se primeiro junto ao Ministério da Administração Interna no Terreiro do Paço, onde foram feitos vários discursos.

Depois, seguiu para a Avenida da Liberdade, ocupando as estradas por onde passava, incluindo a própria Avenida.

Tendo apanhado a manifestação por acidente, Miguel de Lemos relatou-nos:

As palavras de ordem eram: Justiça; Abaixo o Racismo (eram as gritadas nos megafones!). Como os manifestantes estavam na estrada havia muita gente a ver, inclusivamente turistas a observar e indignação por parte dos condutores. Isto no sentido Rossio-Marquês. Os carros que circulavam do outro lado, alguns deles manifestaram apoio com apitadas e punhos cerrados. O ambiente, tirando as palavras de ordem e o barulho era sereno, mesmo quando os manifestantes se sentaram num dos cruzamentos.

Diz B.:

As reações das pessoas (…) algumas foram de irritação porque estávamos a parar o trânsito. Outras reações que nos deixaram cheios de alegria foi quando estávamos a andar na estrada e houve carros a apitar e a abrir as janelas a protestar também, a dizer que estávamos correctos e que estávamos a fazer bem.

A manifestação foi seguida de perto pela PSP com carrinhas e munida de equipamento de motim. Apesar de até agora tudo se ter desenvolvido tranquilamente, a PSP estava a preparar das suas. Diz Miguel sobre a actuação:

Foi confusa, violenta e desde o início sem qualquer vontade de diálogo ou de apaziguar a situação. Aliás as primeiras provocações que foram feitas, foram por elementos da PSP. Ainda consegui acalmar os ânimos por duas vezes. Um dos miúdos que estava a ser empurrado (ele estava no passeio, não estava na estrada) perguntava que mal é que ele estava a fazer. Eu aproximei-me e afastei-o.

Sobre a actuação da PSP, diz B.:

“A reação da PSP, assim que viu um grande grupo constituído maioritariamente por africanos, foi começar a fechar-nos e encurralar-nos. Quando chegámos ao Marquês tínhamos polícia de frente, de lado… a diferença foi o “simples” facto de nenhum dos brancos (que eu tenha visto) ter apanhado porrada, ter levado com balas de borracha, ter levado com os bastões.”

Miguel diz que a PSP visava alguns dos manifestantes em particular:

“Era apenas o tipo mais alto, que tinha o megafone e estava a dizer as palavras de ordem, iguais às que descrevi anteriormente. Foi também chamado um outro rapaz, mais velho, a quem foram dadas instruções pela polícia, mas aí fui afastado do local: “É melhor sair daqui porque não sabemos o que poderá acontecer”. Fui para uma das laterais da rotunda, onde estavam diversas raparigas manifestantes.”

Mais tarde:

“Nessa fase estava atrás dos elementos da UEP que começaram a correr e eu também. Houve realmente algumas pedras arremessadas, mas não sei o que causou isso. As câmaras de vigilância do hotel e do parque de estacionamento ao lado podem mostrar o que se passou. Sei  que na sequência disso, e porque como disse a UEP tinha ficado para trás, alguns elementos em inferioridade numérica dispararam shotguns e prenderam o tal rapaz que já tinham identificado. Com violência a cerca de 6 / 7 metros de mim. Estive junto a ele na carrinha que o levou, não me sendo respondido para onde.”

Miguel também foi colocado dentro da “caixa”, mas o facto de ser branco salvou-o da violência policial, que estava “muito nervosa” com a sua presença:

“Não conseguiam perceber qual era a razão da minha presença ali e não gostaram quando lhes disse que estava ali como cidadão a observar a actuação da polícia. Aí pegaram em mim e colocaram-me dentro do cordão. Nesse momento o único branco, o que levou outro polícia a perguntar o que eu estava ali a fazer e voltaram-me a empurrar para fora do cordão sendo que um deles me ameaçou de “porrada”, cito. A partir daí já tinha dado nas vistas e os chefes da UEP já apontavam para mim e eu decidi atravessar a estrada e ir para junto do Altis onde tudo começou a dispersar.”

Diz B. sobre os confrontos:

Os confrontos começaram quando estávamos a descer o Marquês e de repente ouvi4 / 5 tiros que a polícia alega que foram para o ar, mas no entanto acertaram em gente. Começámos todos a correr para ver o que se passava e foi então que vimos irmãos nossos a levar com bastões e pessoas a serem agarradas pela polícia.

Entretanto surgiram provas fotográficas de um jovem com uma ferida de impacto de bala de borracha por entre as sobrancelhas.

Dois centímetros ao lado e poderia facilmente ter acabado cego do olho direito. Como acontece um pouco por todo o mundo, também a polícia portuguesa sofre repetidos lapsos de distração, apontando à cabeça com armas carregadas com munição de borracha. Estas munições foram primeiro desenvolvidas pela Grã-Bretanha para uso contra civis na Irlanda do Norte. Ao longo de 35 anos de uso nessa região, entre 1970 e 2005, causaram 17 mortos. O seu uso implica sérios riscos, especialmente quando usadas directamente contra a cabeça e tronco.

Os confrontos acabaram com 4 detenções. Muitos dos manifestantes estavam chocados com o tratamento que haviam recebido da polícia e comunicação social. Disse B.:

“A PSP no dia a dia não faz grande coisa. “Protegem-nos”. Quando fazem alguma coisa, acabam sempre por magoar e manchar a comunidade africana. (…) Os media como sempre só mostram o que lhes convém. “Manifestantes atacam força policial”, “Polícias foram recebidos à pedrada”. MENTIRA! O Estado não ouve nada da parte deles [manifestantes], como já era de imaginar.”

Um texto publicado nas redes sociais condenava:

“Eu estava lá quando 10 queriam atirar pedra e outros 200 queria apenas paz e fazer o seu protesto normalmente. EU estava lá quando vi a mídia distorcendo a nossa voz na nossa frente. Enquanto gritávamos “racismo não” (…) a mídia dizia que “isto está muito perigoso”. Eu estava lá (…) com o altifalante falando e acalmando os meus irmãos e um polícia pôs as mãos nas minhas costas e disse “Se vocês não pararem de jogar pedra, nós vamos bater em toda gente”.

Eu estava lá quando por mais que meus irmãos estivessem com ódio no coração, ódio de ser preto em um país que constantemente nos oprimem dentro e fora de nossas casas, eles gritavam bem alto “Povo unido jamais será vencido” porque sabiam que por um todos levariam. Eu estava lá quando a polícia estava rindo da nossa cara enquanto estávamos dando discursos. Eu estava lá quando a polícia nos cercou tipo animais, nos empurrou e nos xingou.  Mas mantemos a calma. Eu estava lá quando começámos a descer a Avenida e os polícias começaram a correr e a dar tiro que acertou no rosto de um irmão.

Mais uma vez um tiro num preto desarmado ninguém fala, mas a pedra na polícia completamente armada o povo já julga. (…) Se a polícia estava lá para nos trazer segurança, saiba que eu e todas as manas e manos sentimos medo.”

Entretanto já existe um chamado para uma nova manifestação na sexta-feira às 15:30 em frente à Câmara Municipal do Seixal.

O historial de violência racista da PSP

Que a polícia portuguesa sofre de excesso de zelo no uso do cassetete já é mais do que sabido, assim como o facto de considerarem abominável a existência de negros e ciganos. Já no segundo relatório da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (ECRI, 2002) era mencionado:

“Vários casos foram referidos em que os representantes da lei fizeram uso excessivo da força relativamente a detidos ou outras pessoas que com eles entraram em conflito, entre os quais um grande número de imigrantes e de Ciganos.”

No terceiro relatório, em 2006, era novamente referido:

“A ECRI está preocupada por ter tomado conhecimento de que prosseguem as queixas sobre comportamentos racistas ou discriminatórios por parte das forças da ordem. (…) Por exemplo, a ECRI nota que, em 2003, dos nove casos submetidos à CICDR relativos a violência racista verbal ou física, sete envolveram elementos de forças da ordem.”

Novamente, em 2013:

“ONG indicam que as violências policiais de carácter racista se teriam intensificado nestes cinco últimos anos. Entre os incidentes graves, estarão disparos desferidos contra Africanos e Ciganos. (…) Contudo, segundo os dados fornecidos pelas autoridades, 31 queixas foram apresentadas entre 2006 e 2012 contra agentes da polícia por atos racistas ou de discriminação racial (…) 18 contra agentes da PSP, nove contra agentes da GNR, três contra agentes do SEF (…)”

Finalmente, em 2018:

“Em janeiro de 2014, o Ministério Público abriu uma investigação no seguimento de alegações de tortura cometida por inspetores da Polícia Judiciária durante uma rusga a um acampamento cigano. Em abril de 2016, um agente da polícia foi condenado a um ano e três meses de prisão por atingir a tiro um cigano de 30 anos de idade com uma espingarda, ferindo – o gravemente no rosto, quando este perguntou se podia ajudar a apanhar azeitonas numa quinta explorada pelo agente da polícia e vários dos seus colegas. (…)

Um caso grave de alegada violência racista em fevereiro de 2015 resultou eventualmente na acusação, em julho de 2017, de 18 agentes da PSP, incluindo um superior. Foram acusados de tortura, rapto, calúnia e ofensas corporais motivados por ódio e discriminação contra seis vítimas negras. Segundo o despacho de acusação, os agentes da polícia tinham inicialmente prendido, de forma arbitrária e violenta, um residente negro do bairro da Cova da Moura, situado no município da Amadora, nos arredores de Lisboa. Embora ele não tivesse oferecido resistência, os agentes da polícia espancaram-no violentamente, fazendo-o cair no chão e sangrar da boca e nariz. (…)

Para proteger a vítima, os cinco membros da associação, dois dos quais a polícia sabia serem mediadores, dirigiram-se por sua iniciativa à esquadra da polícia. Segundo o despacho de acusação e as declarações das testemunhas, os agentes da polícia atacaram-nos quando se aproximavam da esquadra da polícia, gritando insultos racistas, e arrastando-os até à esquadra da polícia, onde foram algemados, atirados para o chão e agredidos com pontapés, socos e pancadas por todo o corpo, incluindo a cabeça. Além disso, a polícia disparou balas de borracha contra eles e um agente gritou: “Não sabem como odeio a vossa raça. Quero exterminar-vos todos desta terra! É preciso uma legislação para fazer a vossa deportação. Se eu mandasse vocês seriam todos esterilizados!”. Uma das vítimas, que sofria de paralisia da mão direita, recebeu ameaças de morte. Desta forma, as seis vítimas foram detidas, torturadas e humilhadas durante dois dias. Segundo as declarações das testemunhas, o hospital atestou, após intervenção por parte dos agentes da polícia, que as vítimas se tinham ferido ao cair. Também se alega que dois agentes da polícia limparam o soalho com a finalidade de esconder vestígios de sangue. (…)

Relativamente à morte de Elson “Kuku” Sanches, um jovem negro de 14 anos, há também dados sobre manipulação de provas. Um elemento de prova da acusação desapareceu durante o processo. Essa prova indicava que o tiro fatal tinha sido disparado de uma distância de apenas 25 cm, sugerindo uma execução, e foi alegadamente colocada uma arma de fogo por perto para dar a impressão de que a pessoa morta estava armada. Os agentes da polícia acusados foram ilibados em 2012.”

Estes são só alguns dos casos mencionados nos relatórios. Os repetidos chamados de atenção têm sido completamente ignorados. Se há algo aparente nestes documentos é que a violência policial racista não está a melhorar com o tempo. Pelo contrário, está a agravar-se. Quem ainda tenha dúvidas sobre as atitudes da nossa polícia, pode visitar um dos seus vários fóruns nas redes sociais.

 

Artigo republicado de guilhotina.info onde pode ler na integra.

 

 

Mamadou Ba, OBRIGADA/O!

(artigo original, Buala)

Mamadou Ba tem pautado o seu percurso por uma incansável luta contra o racismo, as desigualdades e todas as formas de discriminação em Portugal.

O seu envolvimento e honestidade na Luta, faz com que seja reconhecido nacional e internacionalmente como um dos rostos mais proeminentes e mais consistentes do Movimento Negro português.

Isto acarreta responsabilidades acrescidas ao seu papel tanto político como cívico. E se este reconhecimento é fruto do seu trabalho consistente e persistente, ele tem também resultado em insultos, perseguições, ameaças de morte, tentativas de ridicularização constantes, mais racismo, mais violência e mais preconceito para com a sua pessoa – e de forma quase diária.

A comunidade negra e a comunidade cigana têm sofrido continuamente a violação dos seus direitos, a que acresce o medo, a exclusão e o abandono do Estado, nomeadamente no exercício da Justiça. Durante muito tempo, inclusive em casos de assassinato, foi sempre muito difícil para estas comunidades comprovar a índole racista da violência policial. Uma violência sobre os seus corpos que tem sido socialmente aceite, politicamente sempre justificável e economicamente insignificante. A brutalidade policial tem sido denunciada internacionalmente em relatórios com o as do Comité Europeu contra a Tortura, em queixas contra a polícia e em manifestações organizadas pelos colectivos anti-racistas e pelos movimentos de afrodescendentes portugueses.

A 21 de Janeiro de 2019, jovens dos bairros da periferia de Lisboa ocuparam o centro de Lisboa numa manifestação espontânea e pacífica decorrente das agressões no dia anterior a uma família do Bairro da Jamaica, no Seixal, pela PSP local. A divulgação de um vídeo onde a polícia agredia à bastonada, empurrava e esmurrava homens e mulheres indiscriminadamente, deixou o país perplexo e a juventude – alvo por excelência do racismo e violência policial – sentiu medo, mas desta vez não ficou em casa. Esta manifestação seria dispersa por mais de uma vez e, em filmagens que circulam pelas redes sociais, o que se constata é uso excessivo da força pela polícia, disparando balas de borracha, agredindo e ameaçando pessoas, o que resultou na detenção de quatro indivíduos negros.

Estes últimos acontecimentos, que põem a nu o sistema racista em que vivemos através do comportamento das forças policiais, da violência naturalizada sobre pessoas negras, jovens, homens e mulheres, e da impunidade permanente de tais actos, chega ao nível do intolerável.

A Mamadou Ba agradecemos a persistência e o facto de nunca ter abandonado a Luta. É, por isso mesmo, merecedor de todo o nosso apoio, solidariedade e amor! Obrigada, Mamadou Ba!

alguns subscritores 

Abel Djassi Amado, Adamares Ernesto S. da Silva, Aida Tavares, Alesa Herero, Ana Balona de Oliveira, Ana Fernandes, Ana Ferreira, Ana Rita Alves, Ana Rita De Faria Antonio, Ana Rita Rodrigues, Ana Stela Cunha, Andreia Alves, Andreia Navarro, Andredina Cardoso, André Teodósio, André Castro Soares, Andreia Alves, Anithe de Carvalho, António Brito Guterres, António Sequeira, Ariana Furtado, Beatriz Carvalho, Bruno Neto, Bruno Sena Martins, Carla Fernandes, Carla Isidoro, Carlos Dias, Carlos Leite, Carlos Valério Kangoma, Catarina Martins, Catarina Príncipe, Catia Montes, Celeste Fortes, Célia Costa, Cheila Prata, Cíntia Lopes, Cristina Roldão, Cristina Paquete Paixão, Cristina Santinho, Cristina Santinho, Daniel Martinho, Dara Ramos, Denise Viana, Dilia Fraguito Samarth, Diógenes Parzianello, Eduarda Rovisco, Eduardo Viana, ENAR – Rede européia contra o racismo, Fernanda Fragateiro, Flávio Almada, Guiomar Sousa, Helena Dias, Helena Vicente, Hugo Curado, Inês Beleza Barreiros, Inês Dias, Iolanda Évora, Isabel Ferreira Gould, Isabel Patrício Sauane, Jakilson Pereira, Joacine Katar Moreira, Joana Gusmão, Joana Mouta, Joana Sousa, João Camargo, João Pedro Vale, Joe Silva, Jorge Fonseca de Almeida, José Luis Oliveira, José Maria Vieira Mendes, José Pereira, José Pina, José Semedo, José Semedo Fernandes, Jota Mombaça, Juliana Santos Wahlgren, Karin Gomes, Kitty Furtado, Kleisy Barreto, Lesses Ulisses Fernandes Cardoso, Lígia Kellerman, Liliana Coutinho, Lívia Sampaio, Lúcia Furtado, Luís F. Simões, Luís Mah, Luís Moreira, Luzia Oca González, Maíra Zenun, Manuel Moreira, Manuela Tenreiro, Marcela Uchoa, Marcos Cardão, Maria Gil, Mário Évora, Marta Borges, Nádia Yracema, Margarida Rendeiro, Mário Carvalho, Marta Lança, Marta Mestre, Marta Ribeiro Santos, Marta Rivera Bargues, Matamba Joaquim, Miguel Lucas Mendes, Miguel Vale de Almeida, Myriam Taylor, Nancy Raisa Cardoso, Nelson dos Santos, Neusa Trovoada, Nigel Randsley, Nina Vigon Manso, Nuno Dias, Oriana Alves, Otávio Raposo, Patrícia Branco, Patrícia Santos Pedrosa, Patrícia Schor, Paula Machava, Paulo Maia, Paulo Velez Muacho, Pedro Faro, Pedro Mendonça, Pedro Neves Marques, Pedro Schact, Pedro Vieira, Rahiz, Piménio Ferreira, Raquel Lima, Raquel Saune, Renaldo Vaz de Pina, Ricardo Falcão, Rita Cássia, Rita Costa, Rita Natálio, Rita Veloso, Rodrigo Sousa, Rui Gomes Coelho, Shenia Karlsson, Sandra Costa, Sara Neves, Sérgio Vitorino, Sílvia Jorge, Sílvia Maeso, Sílvia Roque, Susana Boletas, Tiago Santos, Timóteo Macedo, Vanda Baltazar, Vasco Araújo, Vicente Mertz, Vítor Sanches, Zeze Nguelleka

Nota: Quem quiser subscrever esta carta envie nome durante o dia de hoje para o email obrigadomamadou@gmail.com

Regresso do Afrotela com Welket Bungué

Afrotela é um projeto da Afrolis – Associação Cultural onde olhamos para afrodescendentes na tela e discutimos as representações disponíveis das nossas comunidades. As primeiras duas sessões foram no mês de outubro de 2016 com filmes que retravavam afrolisboetas e para as quais foram convidados participantes dos filmes para debater as temáticas tratadas. A partir de novembro de 2016 até março de 2017, criou-se uma parceria com a produtora Nega Filmes Produções que passou a fazer a curadoria das sessões e a dirigir os debates que se seguiam ao visionamento dos filmes. As sessões passaram a ser mensais e feitas em dois locais por mês, uma vez no centro de Lisboa (Casa Mocambo) e outra na Cova da Moura (Tabacaria Tropical). Para a temporada de 2019, a Afrolis convida o ator e realizador Welket Bungué a retomar o projeto fazendo a curadoria das sessões cinematográficas que serão feitas em ambiente intimista com uma regularidade mensal.

A sessão de abertura será no dia 13 de dezembro com a exibição dos filmes ‘Soulleimane’, de Paulo Pancadas e ‘Terra Amarela’, de Dinis M. Costa, pelas 21:30, na Casa Mocambo (evento gratuito).

 

 

 

 

 

Programação completa AQUI

 

Acerca da Curadoria

Balanta e luso-guineense, Welket Bungué, nasce em Xitole (Guiné-Bissau) a 7 de fevereiro de 1988. Welket iniciou a sua formação artística em 2005. É licenciado em Teatro no ramo de Atores (ESTC/Lisboa) e pós-graduado em Performance (UniRio/RJ). É Membro Permanente da Academia Portuguesa de Cinema desde 2015, Em 2012 foi distinguido com “Prémio de Melhor Ator” pela sua interpretação em MÜTTER, realizou as curtas-metragens MENSAGEM,WOODGREEN e BASTIEN no qual foi distinguido pelo ‘Prémio de Melhor Ator’ nos prémios Shortcutz 2017. É também locutor para entidades internacionais, desenvolve Escrita Dramática, Argumento de Cinema, Performances e Teatro. Atualmente vive entre o Rio de Janeiro e Berlim.

Apresentação: CARLOS KANGOMA

Carlos KangomaCarlos Kangoma aka Lucy é músico e produtor executivo do programa Ecos Urbanos. Natural de Angola, nascido a 29 de outubro de 1984. Mudou-se para Portugal em 1987 devido ao flagelo da guerra. Vive a sua infância na região da Venda do Pinheiro e aos 12 anos vai para Odivelas e conhece o rap. Formou o grupo Mentes Criminosas e editou o primeiro álbum em 2009 intitulado ‘Cara ou Coroa’, nessa altura concilia os concertos com o curso de Línguas, Literaturas e Culturas da faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Passados 3 anos de digressão, forma juntamente com alguns músicos de Odivelas um novo colectivo intitulado Odc Gang e lança o seu segundo trabalho colectivo intitulado ‘Escumalha’, nessa altura concilia a segunda digressão com o curso profissional de Microbiologia Alimentar no CFPSA. Em 2016 finalmente lança o seu primeiro trabalho a solo intitulado ‘Uma História Para Contar’. Após o lançamento do álbum, decide embarcar na produção de um programa cultural ( ecos urbanos) , com o intuito de divulgar artistas e organizações num cenário mais intimista e formato casual. Neste momento já vai lançar o seu 2 álbum a solo intitulado ‘Primeiro Capítulo’ enquanto vai dando espetáculos a nível nacional e internacional.

 

Áudio 186 – 40 Anos de Cadernos Negros

 

Desde 1978 a produção literária afro-brasileira teve um grande impulso com a criação da série Cadernos Negros, organizada pelo coletivo Quilombhoje.   Ao longo de 40 anos foram publicados volumes os Cadernos Negros alterando-se entre contos e poemas, tornando-se uma forma de veicular a cultura, o pensamento e o modo de vida dos afro-brasileiros. Quarenta volumes passados, reconhece-se o contributo dos Cadernos Negros para a visibilidade de autores afrodescendentes e fortalecimento não só a literatura negra, mas também da produção literária das periferias. Esmeralda Ribeiro é uma das fundadoras se conta-nos mais