Nós No Cabelo – Testemunho de Cátia Moreira

Toda a minha vida conheci a minha carapinha de várias maneiras: desfrisada, trançada, com tissagens, postiços entre outras.

Tudo isto só ia deteriorando, não só o meu cabelo que agora sei ser parte da minha essência e das minhas raízes, mas também a percepção que eu tinha em relação ao ser africano, porque o estereótipo que conheci desde muito cedo foi, que uma africana para ser aceite na sociedade tinha de ter um cabelo liso, claro e completamente perfeito. Ou seja, tínhamos que sacrificar a nossa carapinha em prol de uma aceitação física por parte dos mais ignorantes.

Resolvi meter um ponto final a este ciclo de ir matando aos poucos aquilo que nasceu comigo, que foi crescendo comigo, que me foi concedido pelos meus antepassados que é a minha carapinha, rija, encaracolada, preta, brilhante e linda.

Vai fazer três anos que uso o meu cabelo natural, sem químicos e sem fachadas. Descobri que sou mais feliz, mais bonita até. Hoje acordo e vejo todos os dias a mesma pessoa, o mesmo eu, e sabe tão bem… é uma sensação petrificante porque nós podemos ser bonitas com o que nós temos com o que nos pertence sem termos que recorrer a modas e a estereótipos de que a mulher africana só é bonita com perucas lisas, claras e brilhantes.

Pode ser ou parecer exagero da minha parte, mas eu sou uma pessoa diferente graças à minha carapinha natural, porque sei que é real e é minha.

Áudio 163 – Violência Policial contra jovens da Cova da Moura reconhecida pelo Ministério Público

Mamadou Ba, dirigente da SOS Racismo, comenta acusação do Ministério Público noticiada pelo Diário de Notícias no início desta semana (10 julho, 2017):

“Dezoito agentes da PSP, entre os quais um chefe, estão acusados dos crimes de tortura, sequestro, injúria e ofensa à integridade física qualificada, agravados pelo ódio e discriminação racial contra seis jovens da Cova da Moura, na Amadora.

É uma acusação sem precedentes no nosso país e surge após dois anos de investigação da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária (PJ) ao caso de violência policial contra seis jovens, ocorrido a 5 de fevereiro de 2015, que teve como palco a esquadra da PSP de Alfragide, que serve o bairro da Cova da Moura (…)” Continuar a ler…

Notar que referência temporal “ontem” na entrevista corresponde ao dia 11 de julho de 2017.

Entrevista com Flávio Almada (LBC), um dos jovens agredidos na esquadra de Alfragide em 2015:

Áudio 44 – Violência Policial na Cova da Moura

Outros links:

Caso Cova da Moura: falsificação de autos pela polícia não é inédita

Advogada das vítimas considera acusação dos 18 agentes da PSP uma “decisão histórica”

 

Nós No Cabelo – Testemunho de Monique Eleotério

Transição capilar. Termo estranho. Não acho que passei por uma transição capilar. Acho que passei por uma transição de consciência e o cabelo coincidentemente caminhou junto com as outras mudanças.

Quando fui ficando uma “mocinha” por volta dos 11 ou 12 anos começam as tentativas de dar um jeito no cabelo. Meu único “problema” era o volume, eu tive sorte, tinha um cabelo fino e com cachos. Tentava relaxamentos em alguns salões e era sempre a mesma coisa: saía com o cabelo molhado bem baixinho e orgulhosa, mas em seguida vinha a frustração do cabelo que secava e ficava cheio de novo. Mais uma vez não tinha dado certo. Eu não conseguia os cachos definidos e sem volume das outras meninas, aquele tipo um “miojinho” como chamamos por aqui.

Com o passar do tempo e da idade pude optar por tratamentos mais fortes, mais eficazes. Usei guanidina, hidróxido de sódio e progressiva, que me lembre. Não esqueço a sensação da cabeça queimando, o olho ardendo e a dica infalível da cabelereira para passar vinagre nas feridas do couro cabeludo. Placas de casca nas queimaduras e aquele cheiro de vinagre, me lembro nitidamente. Cheguei ao ponto de ter os cabelos totalmente alisados.

Enfim, uma história como a maioria das pretas por aí, com traumas, com agressões, com medo, vergonha e insegurança, humilhações em público. Nada muito novo na construção da auto-estima de uma jovem preta brasileira. Mas mesmo com tudo isso eu queria ser atriz. Uma ideia que eu hoje acho absurda. Mas que me fez ir até uma agência de publicidade, buscar oportunidades em comerciais. Me lembro da fala da responsável pelo casting como se fosse hoje: “Você é bonita, mas com esse cabelo não posso vender você. Preciso de algo natural.” Pintei o cabelo de preto novamente no dia seguinte. Em seguida comecei a deixar de relaxar. Fiz tranças de raiz para ajudar o crescimento e depois coloquei implantes de trança para ajudar no período que estava híbrido. Nada ligado a identidade racial. A busca por trabalhos com atriz acabou, mas o cabelo já era outro e o contextos da vida também, então seguimos em frente.

Nessa altura já surgiam os questionamentos das mudanças: “Por que você fez isso no cabelo”, “Prefiro seu cabelo assim ou assado”. Nossos corpos pretos são tão tidos como propriedade pública que fica subentendido o direito de qualquer pessoa questionar ou opinar sobre nossa aparência, independe de abertura ou intimidade para tal. Isso foi o mais marcante nesse processo de mudança para mim. Era como se o tempo todo as pessoas tentassem me dizer que limites poderia atingir, que decisões poderia tomar. O tempo todo queriam me impor que eu precisava de aprovação para ser assim ou assado. Tentavam me lembrar que eu não poderia ser algo que desagradasse. Obviamente essa possibilidade de aceitação se deu pelo fato de eu ter a pele relativamente clara, o que neste país serve como atenuante e como instrumento de alienação ainda maior.

Certo dia tirei as tranças e cortei o cabelo no banheiro de casa. Uns 3 ou 4 centímetros de raiz sem química foi o que ficou. A comoção foi geral, críticas atrás de críticas. A partir daí fomos nos conhecendo, nos experimentando. Descobri aos 22 anos como era meu cabelo realmente. Já não me lembrava mais. Três anos depois ele estava enorme e já havia aqui no Brasil um boom da moda “black”. Eu estava no “padrão”, na moda. Óbvio que uma moda restrita ao alternativo, ao cool, nada que fosse de bom tom para uma entrevista de emprego. Mas já era muito mais do que eu tinha atingido a vida toda. Os cachinhos definidos e o volume; tudo bem dentro do modelo que as páginas da internet estavam divulgando. Minha auto-estima começou a dar bons sinais, frágeis, sem base concreta, mas bons sinais. Mas junto com esse processo ocorria também uma revolução política na minha cabeça, a consciência de ser preta, o contato com posições políticas equivocadas, dor, sofrimento, estudos, decepções…Comecei a me compreender como toda dentro desse processo: meus relacionamentos, minha estética…

E aí observar que meu cabelo virava objetivo de outras pretas que não estavam nesse “padrão” da moda começou a me incomodar. O excesso de elogios nas ruas também. Me sentia invadida, exposta. Pessoas brancas tentavam me tocar o tempo todo e faziam questão de me demonstrar sua aprovação, como se eu precisasse dela. A “necessidade” de me elogiar parecia um ato de misericórdia. Meu cabelo natural para mim começou a se concretizar como prova da minha existência enquanto resultado da miscigenação, dos ideais de embranquecimento, da hierarquização dos tons de pele, virou um peso. Decidi então fazer dreads e aí se instaurou novamente o caos. Ninguém gostou. Família, amigos, pretendentes. Ninguém apoiou, ninguém gostou, ninguém entendeu. No início eu me dei um pouco ao trabalho de explicar, mas cansei rápido, impaciente que sou. Alonguei os dreads, porque sempre gostei de cabelos grandes mesmo. E aí melhorou um pouco. Fiquei exótica, diferente, estilosa. Mas a pergunta “como é que você vai tirar isso depois” não acabava nunca. Assim como o ar de desespero quando eu falava que não dava para “tirar”. Fui muito feliz com meus dreads, mas por questões religiosas precisei raspar a cabeça. Como fiquei de resguardo um bom tempo não me viram careca. E quando retornei com os cabelos curtos explicava o motivo e então não questionavam muito. Mas questionavam sempre. Hoje, aos 27 anos, 1 ano após raspar totalmente a cabeça tenho um pequeno black, voltando a crescer. Não sei o que acontecerá com ele, mas com a correria da vida acho que vou deixa-lo assim, pra não ter trabalho com manutenção. Não prometo nada, sinto saudades dos meus dreads. Mas hoje meu cabelo não me pesa, é extensão do que eu sou. E é muito bom tocá-lo e senti-lo parte de mim, não um acessório ou um adorno.

Vejo muitos textos incentivando a transição. Mas não vejo quase nada que nos diga que o fundamental é sermos livres. Passei todos esses anos recebendo “conselhos” e “opiniões”. Tive que engolir pessoas que se achavam no direito de me dizer como eu deveria ser, o que deveria fazer e me cobrando explicações por decisões minhas sobre minha aparência. A maior parte do que vemos hoje sobre nossos cabelos tenta ainda nos dar soluções sobre como podemos adequá-los, como podemos torná-los agradáveis para nós e para os outros, sobre como podemos mudá-los, amenizá-los. Quase nenhuma são as referências que nos dizem “alimente-se bem para fortalecer o cabelo, mantenha o higienizado para sua saúde, acorde, tome um banho, saia livremente e sinta-se bonita assim.”. Eu tento me dar esse direito, embora uma auto-estima danificada por tantos anos insista em me deixar insegura. A liberdade em aceitar nossos cabelos é consequência da liberdade de aceitar a nós mesmos. E esse é um trabalho árduo e constante.

Áudio 162 – Performance: “Preta”, por Gio Lourenço

No programa de hoje falamos sobre a criação do ator de origem angolana, Gio Lourenço.

“PRETA parte das memórias do criador, do período em que nos anos 90, chegado de Luanda, passa a viver no Bairro do Fim do Mundo. O corpo reencontra os gestos e os itinerários da transição da infância para a juventude.
Preta era a cadela feroz que delimitava a fronteira entre a casa e a escola, obrigando a experimentar movimentos de fuga, de silêncio e de transgressão.” Continuar a ler…

Nós No Cabelo – Testemunho de Mindy

Olá sou a Mindy!

A minha transição para o natural começou praticamente em 2014 (quando deixei de usar químicos no cabelo). Foram vários fatores que influenciaram a minha mudança e aceitação, mas a coragem para cortar e começar do zero só veio em 2015.
Confesso que não me imaginava com cabelo curto, nunca cortei mais do que pontas estragadas… Não me arrependi e confesso que durante esta caminhada:
– Aprendi a aceitar a minha carapinha tal como ela é; vou aprendendo a ter paciência para tratar do meu cabelo; aprendi o porquê de não gostarmos que as pessoas toquem no nosso cabelo (agora faz sentido); aprendi a lidar com perguntas curiosas, por vezes ignorantes, sobre o meu “tipo” de cabelo; aprendi que não preciso de alisar a minha carapinha para ser aceite.
Conclusão: sinto-me mais ligada às minhas raízes. Tenho consciência do que a minha carapinha  representa para mim. E tenho orgulho dela tal como é.
Se soubesse o que sei hoje e se pudesse voltar uns anos atrás, não usaria químicos para relaxar o meu cabelo, sabendo que existem outras maneiras de amaciá-lo sem recorrer a químicos.

O objetivo continua lá, o caminho ainda é longo, os olhares desaprovadores continuam a espreitar pelo canto, mas sou fiel à minha .

Áudio 161 – Doenças crónicas vs Doenças infecciosas em África

“A questão é que historicamente priorizou-se as [doenças] infecciosas e foi-se adotando uma atitude um bocado cega  em relação às doenças crónicas. Mas é preciso olhar para elas e dar uma resposta muito rápida (…) é preciso olhar para todas as doenças como prioridade.”

Combate a doenças crónicas em África são subfinanciadas, apesar das primeiras estarem a matar cada vez mais pessoas. Gefra Fulane faz um doutoramento em Conhecimento Tropical e Gestão, acolhido pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa,  e fala do exemplo do cancro do colo do útero, que mata metade das pessoas diagnosticadas em Moçambique.

 

Nós No Cabelo – Testemunho de Carla Veiga

Sempre fui obrigada a acreditar que cabelo bonito é aquele que vemos constantemente na TV – liso e sedoso. E à medida que fui-me tornando adulta e com curiosidade para saber mais sobre os meus antepassados e de tudo um pouco, fui percebo essa “ditadura” contra os nossos cabelos naturais.

Então aí começa a minha “revolta “interior”. Começo por parar de desfrisar e alisar os meus cabelos, passo à transição com o cabelo sempre meio crespo meio liso nas pontas e vou cortando aos poucos. Ao fim de dois anos, por aí, denoto a minha coroa a querer sair e brilhar. Agora, sim, sinto-me eu! Sinto-me menos “acorrentada”, mais bonita..

Adoro o que vejo ao espelho, este cabelo que faz parte de mim e me mostra o quanto a nossa natureza é bela. O meu cabelo não é moda, é o ADN.