Nós No Cabelo – Testemunho de Antonieta Gomes

Uso cabelo natural à 4 anos!! Tudo começou numa altura em que recebi mais informação sobre as minhas origens e história e também sobre os grandes revolucionários africanos espalhados pelo mundo. Para mim usar cabelo natural é aceitação é identidade e não moda. Ao princípio foi um pouco difícil pois não entendia nada sobre cabelos crespos toda a vida desfrisei, trancei, usei tissagens e até mesmo perucas.. hoje em dia quem usa o cabelo natural por estar na “moda” está a usá-los pelos motivos errados mas cada pessoa leva o seu tempo para despertar.

Eu gosto do estilo curto portanto estou constantemente a cortar o meu cabelo… por vezes deixo-o crescer até um certo ponto e vou fazendo tranças para mudar de visual mas acabo sempre por cortá-lo

Hoje só tenho a agradecer às pessoas que me incentivaram a usar o cabelo natural! A escravatura foi-nos imposta até na beleza… nao sei porquê mas quando corto o meu cabelo sinto-me livre..

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Nós No Cabelo – Testemunho de Jéssica Silva

Desfrisei o meu cabelo pela primeira vez quando tinha cerca de 11/12 anos, não me lembro bem da idade, mas lembro-me que foi porque umas amigas minhas tinham “relaxado” o cabelo (aquela espécie de desfriso mais fraco que passado uns tempos parece que o cabelo volta ao normal) e eu era a única com o dito “cabelo bedjo” no grupo de amigas, então decidi pedir à minha mãe para me o desfrisar. Ela não queria, mas depois de muito insistir ela lá me fez a vontade. Foi uma das piores decisões de sempre, pois o meu cabelo até era saudável, estava grandinho porque a minha mãe tratava bem dele e nem sequer era assim tão dito “bedjo”. Depois de desfrisar, o meu cabelo começou a partir imenso, principalmente na parte de trás da cabeça, e foi por volta dessa altura (12/13 anos por aí) que comecei a usar postiço, pois até então nunca tinha usado. Acho que depois do primeiro desfriso só voltei a desfrisar o meu cabelo mais uma ou duas vezes, não mais do que isso. A minha transição para o cabelo natural foi um bocado sem querer, o facto de usar postiço e depois mais tarde tissagem também, ajudou-me a transicionar mas não foi propositado. Quando me apercebi que o meu cabelo já estava de volta ao seu estado original e estava sem saber o que fazer com ele,uma amiga estava a começar a jornada natural dela o que me motivou a começar a minha também, e isso aconteceu na mesma altura em que estava a tornar-me mais consciente do mundo em que vivemos e a aperceber-me da importância de manter o cabelo longe dos químicos, e foi então que decidi deixar o meu cabelo no seu estado natural. No início tinha alguma vergonha pois não sabia bem como tratar dele nem como o pentear para não parecer uma criança, e também porque na escola devia ser uma das únicas com o cabelo natural, mas sentia-me livre e com o tempo a auto-estima começou a subir. Como Marcus Garvey uma vez disse, é necessário remover os “kinks” da nossa cabeça e não do nosso cabelo, e assim que fiz isso consegui aceitar-me a 100%. Há uma citação, não sei de quem, que diz: “Being natural is the closest I can get to being myself” e eu não podia concordar mais. Agora, sinto-me de facto empoderada com o meu cabelo natural (principalmente naqueles dias em que ele porta-se bem, LOOL). Apesar de em Londres parecer ser norma o uso de perucas e lace fronts, adoro o facto de ver muitas jovens com o cabelo natural, de haver e de ver imensos grupos e páginas nas redes sociais que incentivam as mulheres negras a deixarem os químicos, que se apoiam e dão conselhos umas às outras das melhores técnicas para certos penteados e os melhores produtos para usar para conseguir os melhores resultados. Funciona também como uma maneira de criar alguma união entre nós enquanto mulheres negras. O nosso cabelo é uma afirmação de quem somos, é também uma arma contra a opressão e contra a ditadura do cabelo liso e “fino”. É a nossa coroa e devemos usar com orgulho. Como a actriz Afro-Americana Tracee Ellis Ross disse “I love my hair because it’s a reflection of my soul. It’s dense, it’s kinky, it’s soft, it’s textured, it’s difficult, it’s easy and it’s fun. That’s why I love my hair.”.

Nós No Cabelo – Testemunho de Maria Andrade

Esta é a minha história com os meus nós. Já passei por várias fases, já fiz de tudo um pouco para desfazer-me desses nós que pensava existir. Lembro-me bem quando menina a minha mãe nunca me deixava com o cabelo solto, andava sempre de tranças, para ela era normal, porque não tinha outra forma de “domar” aquele volume todo (foto).
Comecei a usar químicos desde muito cedo, aos 13/14 anos. Ao ver as minhas amigas todas desfrisadas, achava que cabelo bonito era cabelo liso, porque crescemos com aquela coisa que SÓ cabelo liso é que é bonito e também porque as pessoas gozavam com o cabelo no seu estado natural, chamando de “cabelo cripi”. Na altura era uma expressão muito usada comparando o cabelo crespo à massa de cimento que colocavam nas paredes das casas por fora, ou seja, um cimento duro e esta foi uma expressão muito forte que marcou muitas de nós na época e deixava- nos com a cara no chão, sentíamos uma enorme agonia por dentro e chegávamos ao ponto de odiar os nossos cabelos. Não fomos educadas/os para nos amarmos e aceitarmos como somos e daí nasciam as diferenças.

Foi a partir desse momento que resolvi desfazer dos nózinhos. Com os famosos químicos eram uma boa solução para ser como as outras, ser mais bem aceite, cabelo solto ao vento, “mais bonita” mas, não tardou muito fiz o meu primeiro big chop aos 20/21 anos (foto) derivado a uma queda de cabelo provocada pelo uso dos químicos, mas ainda assim não aceitava aquele cabelo.

Na altura comecei a gostar dos cachos, mas como achava que não eram tão perfeitos  assim, resolvi usar químicos para ficar com o cabelo mais cacheado, porque só o aceitava se estivesse “bem arrumado”. Não cheguei a dar tempo para ver o meu cabelo como era, 100% natural.

Com 23 anos emigrei e a partir daí encarei com uma outra realidade, encontrava-me na terra da chapinha, mas continuei sempre com os meus cachos e com os famosos químicos sempre comigo e foi então que tive uma segunda queda de cabelo, mas desta vez muito  pior porque tive uma pelada, uma queda de cabelo brusca e o meu couro cabeludo ficava liso, dois buracos na cabeça onde não existia um fio de cabelo. Nesse momento foi um  desespero, mas eis que seguidamente engravidei, o que veio a ser a minha salvação,  porque com as hormonas o cabelo voltou a crescer rápido e foi uma altura bastante boa,  porque durante a gravidez não usei químicos, o meu cabelo estava bonito, brilhoso, bem cacheado.

Após o nascimento do meu filho veio a revolução do alisamento progressivo e ninguém tinha-me visto ainda de cabelo liso porque só usava cabelo cacheado até então. Foi a partir daí que começaram-me a incentivar para alisar o cabelo fazendo progressiva, era uma época em que estava a procura de trabalho, as pessoas com quem me dava diziam que era melhor alisar porque seria mais fácil, ou seja, uma ditadura, uma imposição, era uma forma de conseguir um trabalho (com o cabelo liso), essa é a sociedade onde vivo, onde o preconceito a descriminação racial reina. Derivado a esses fatores resolvi fazer a progressiva, voltei a ter o cabelo liso tendo durado apenas um ano porque para mim não dava mais!, não combina comigo, não era eu.

Voltei a cortar o cabelo de novo e já lá vão 4 anos de muito amor e dedicação, amo a minha coroa de paixão, não quero viver nesse sistema, o meu filho quer deixar crescer o afrozinho e incentivo muito. Já chegou-me a dizer que achava o cabelo liso mais bonito e que não é negro, que é francês! Enfim, é uma longa batalha, porque é a imagem que lhe chega, é a imagem que tem dos desenhos da escola, os coleguinhas tem todos cabelo liso, mas tento explicar-lhe o porquê, é a minha obrigação fazê-lo entender qual é a sua origem e a amar-se acima de tudo.

Já levei pessoas próximas a mim a fazerem Big Chop, que inspiraram-se na minha pessoa e hoje são felizes e acima de tudo livres. Não se deixem prender nesses preconceitos,  amem-se como são sejam vocês mesmas, somos rainhas, somos mulheres de fibra e essa é a nossa força, é ela que nos destaca, é ela que nos representa!

Obs: Esses famosos “NÓS” não existem foram criados para nos manterem prisioneiras, LIBERDADE!!

Nós No Cabelo – Testemunho de Cátia Moreira

Toda a minha vida conheci a minha carapinha de várias maneiras: desfrisada, trançada, com tissagens, postiços entre outras.

Tudo isto só ia deteriorando, não só o meu cabelo que agora sei ser parte da minha essência e das minhas raízes, mas também a percepção que eu tinha em relação ao ser africano, porque o estereótipo que conheci desde muito cedo foi, que uma africana para ser aceite na sociedade tinha de ter um cabelo liso, claro e completamente perfeito. Ou seja, tínhamos que sacrificar a nossa carapinha em prol de uma aceitação física por parte dos mais ignorantes.

Resolvi meter um ponto final a este ciclo de ir matando aos poucos aquilo que nasceu comigo, que foi crescendo comigo, que me foi concedido pelos meus antepassados que é a minha carapinha, rija, encaracolada, preta, brilhante e linda.

Vai fazer três anos que uso o meu cabelo natural, sem químicos e sem fachadas. Descobri que sou mais feliz, mais bonita até. Hoje acordo e vejo todos os dias a mesma pessoa, o mesmo eu, e sabe tão bem… é uma sensação petrificante porque nós podemos ser bonitas com o que nós temos com o que nos pertence sem termos que recorrer a modas e a estereótipos de que a mulher africana só é bonita com perucas lisas, claras e brilhantes.

Pode ser ou parecer exagero da minha parte, mas eu sou uma pessoa diferente graças à minha carapinha natural, porque sei que é real e é minha.

Áudio 163 – Violência Policial contra jovens da Cova da Moura reconhecida pelo Ministério Público

Mamadou Ba, dirigente da SOS Racismo, comenta acusação do Ministério Público noticiada pelo Diário de Notícias no início desta semana (10 julho, 2017):

“Dezoito agentes da PSP, entre os quais um chefe, estão acusados dos crimes de tortura, sequestro, injúria e ofensa à integridade física qualificada, agravados pelo ódio e discriminação racial contra seis jovens da Cova da Moura, na Amadora.

É uma acusação sem precedentes no nosso país e surge após dois anos de investigação da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária (PJ) ao caso de violência policial contra seis jovens, ocorrido a 5 de fevereiro de 2015, que teve como palco a esquadra da PSP de Alfragide, que serve o bairro da Cova da Moura (…)” Continuar a ler…

Notar que referência temporal “ontem” na entrevista corresponde ao dia 11 de julho de 2017.

Entrevista com Flávio Almada (LBC), um dos jovens agredidos na esquadra de Alfragide em 2015:

Áudio 44 – Violência Policial na Cova da Moura

Outros links:

Caso Cova da Moura: falsificação de autos pela polícia não é inédita

Advogada das vítimas considera acusação dos 18 agentes da PSP uma “decisão histórica”