Divulgação: A voz da mãe Preta- Manifestação frente a CMSeixal – 25 de Janeiro

Várias Jamaicas:
Basta de Brutalidade Policial! Não ao Racismo Institucional!

A brutalidade policial é um fenómeno com o qual nós, negras e negros em Portugal, estamos escandalosamente familiarizados. O caso de violência policial no bairro da Jamaica não é uma exceção. Há várias Jamaicas nas periferias deste país, onde a população tem constantemente a sua integridade física ameaçada por agressões desproporcionadas e intervenções musculadas. Jamais esqueceremos todos aqueles que pereceram às mãos da polícia, como o Elson Sanches (Kuku) executado aos 14 anos, o Diogo Seidi (Musso) e o José Carlos que com apenas 15 e 16 anos não resistiram às lesões de que foram alvo, o Nuno Rodrigues (Mc Snake) morto numa perseguição policial ou o Manuel Pereira (Tony) assassinado. É altura de dizer BASTA à forma claramente intimidatória, racista e violenta com que as “forças de autoridade” nos tratam, ferindo a nossa dignidade, bem como denunciar o vergonhoso “serviço público” prestado pela esmagadora maioria dos orgãos de comunicação social, com o intuito de nos isolar e diabolizar.

As imagens chocantes dessa violência, por parte das autoridades do Estado, falam por si. Como pode um pai e uma mãe serem espancados daquela forma por quem devia garantir a sua proteção? Mais uma vez, somos alvo de uma violência desmedida que não poupa ninguém. É neste contexto de injustiça e indignação que moradoras e moradores do bairro da Jamaica, em conjunto com colectivos antirracistas, estão a organizar uma mobilização para esta sexta-feira (25 de janeiro), às 16 horas, em frente aos Serviços Centrais da Câmara Municipal do Seixal. Queremos, a uma só voz, gritar: Não à Brutalidade Policial! Não ao Racismo de Estado!

Contamos com a vossa participação! É preciso que nos organizemos para dar uma resposta política às instituições do Estado português, que se calam perante as recorrentes situações de violência policial. Por isso, apelamos a todas e todos, independentemente da origem, cor de pele e morada, que se juntem a nós nesta mobilização contra a violência sistemática de que somos alvo e por um tratamento digno das instituições do Estado português.

Não ao Racismo de Estado!
Basta de Violência Policial!
Por uma Política Antirracista!

A dor de uma mulher, mãe, negra ver a sua família brutalmente agredida por uma entidade que devia zelar pela segurança de todos. Este foi o triste episódio que se passou no bairro da Jamaica-Seixal.
A luta é tua, é minha, é nossa vamos fazer ouvir as nossas vozes!!
Juntos somos mais fortes!!

Organizações subscritoras do manifesto:

– Afrolis- Associação Cultural
– CAIP – Coletivo de Ação Imigrante e Periférica
– Consciência Negra
– Em Luta
– FEMAFRO – Associação de mulheres negras, africanas e Afrodescendentes em Portugal
– Nu Sta Djunto – Estamos Juntxs
– Plataforma Gueto
– SOS Racismo

Orientações a seguir para uma manifestação pacífica:

– Respeitar e acatar as indicações da organização e autoridades em todos os momentos;
– Ficar calmo, não discutir e colaborar sempre que necessário com as autoridades e terceiros;
– Ser pacífico e não recorrer à violência;
– Não fazer ameaças ou utilizar linguagem ofensiva contra os presentes;
– Andar sempre em grupo, para não correr risco de agressão por parte de terceiros;
– Manter o seu círculo de contatos sempre atualizado do que está a acontecer com você e onde se encontra, e na eventualidade de ocorrer alguma situação temos à disposição o número de telemóvel 924128977 para prestar auxílio;
– Não levar objetos ou substâncias que possam ser utilizados como armas ou provocar danos;
– Manter sempre o respeito pela propriedade pública e privada e evitar quaisquer atos de destruição ou danificação antes, durante e após a manifestação.

Relembramos a todos que estamos a organizar uma manifestação pacífica para alertar a todos sobre a problemática da violência policial que algumas comunidades sofrem. Não estamos contra a polícia nem queremos manifestações de violência ao longo de todo o evento.

No caso de serem abordados ou se necessitarem de algum auxílio temos à disposição o número 924128977 para prestar um apoio mais imediato.

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Republicação: “Portugal // Manifestação anti-racista: contexto, testemunhos, vídeos”

 

Na madrugada de dia 20 de Janeiro, a PSP foi chamada ao bairro da Jamaica devido a um distúrbio entre mulheres após uma festa. Segundo o relato de uma moradora, a cerca de meia dúzia de agentes esperou na carrinha até ao reatar dos conflitos, saindo depois para o confronto físico gratuito e imediato. A PSP diz que um dos seus agentes teria anteriormente sido agredido com uma pedra arremessada. Claro que o que isto diz implicitamente é que “estavam a pedi-las” e que portanto não houve nada de errado na intervenção policial.

Até aqui poderia ter sido qualquer uma das muitas intervenções da PSP nos bairros pobres e negros de Portugal. A diferença é que desta vez tudo foi filmado e uma versão curta do vídeo colocada a circular nas redes sociais. O vídeo mostra 5 homens e mulheres, entre os 30 e os 60 anos, a serem selvagemente espancados. Este primeiro vídeo foi confrontado com os habituais comentários de que “não mostrava a história toda”. Entretanto, um vídeo mais completo dos eventos veio à superfície.

Como se pode ver, o gatilho para o perder de cabeça dos agentes da PSP parece ter sido os comentários feitos pelo jovem que foi espancado e depois detido, e não qualquer agressão física. Seja como for, o vídeo original incendiou as redes sociais, especialmente por entre as redes mais utilizadas pelos jovens, como o Instagram e Whatsapp. Aí, longe dos olhares habituais, foi chamada uma manifestação que reteve o elemento de surpresa no dia 21. Disse-nos C., que pediu anonimato:

“(…) passou nas stories do Instagram de amigos. Que partilhou de outra pessoa. Por acaso apanhou toda a gente [de surpresa]. Não deram crédito. Acho que foi espontâneo, não tinha nem 24h desde que foi partilhado. Até pela faixa etária presente de jovens negros e brancos. A maioria estudantes.”

Mas, apesar de não serem novos, estes actos de violência policial não costumam desencadear manifestações de protesto no centro de Lisboa. C. aponta como importante o facto de desta vez terem sido alvo de violência os pais de jovens:

“(…) foram cometer essa brutalidade com as principais pessoas que meninos e meninas idolatram, mãe e pai. Essa mãe é mãe, avó, irmã, tia, prima e amiga de muitos afrodescendentes que já sofrem vários tipos de segregação e falta de oportunidades. Onde a mãe e o pai são a primeira e única solução de sobrevivência.”

B., mais jovem e que também quis manter o anonimato, disse sobre a motivação para a acção:

“(…) além de estarmos saturados das acções brutas da polícia, foi o que aconteceu no bairro da Jamaica.”

E sobre a localização:

“O porquê de terem escolhido o centro de Lisboa, penso (…) que foi porque é um local marcante onde muita gente passa e seríamos ouvidos com mais facilidade.”

A manifestação

“Artigo 45.º da CRP – Direito de reunião e de manifestação

1. Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização.

2. A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação.”

A manifestação concentrou-se primeiro junto ao Ministério da Administração Interna no Terreiro do Paço, onde foram feitos vários discursos.

Depois, seguiu para a Avenida da Liberdade, ocupando as estradas por onde passava, incluindo a própria Avenida. Tendo apanhado a manifestação por acidente, Miguel de Lemos relatou-nos:

“As palavras de ordem eram: Justiça; Abaixo o Racismo (eram as gritadas nos megafones!). Como os manifestantes estavam na estrada havia muita gente a ver, inclusivamente turistas a observar e indignação por parte dos condutores. Isto no sentido Rossio-Marquês. Os carros que circulavam do outro lado, alguns deles manifestaram apoio com apitadas e punhos cerrados. O ambiente, tirando as palavras de ordem e o barulho era sereno, mesmo quando os manifestantes se sentaram num dos cruzamentos.”

Diz B.:

“As reações das pessoas (…) algumas foram de irritação porque estávamos a parar o trânsito. Outras reações que nos deixaram cheios de alegria foi quando estávamos a andar na estrada e houve carros a apitar e a abrir as janelas a protestar também, a dizer que estávamos correctos e que estávamos a fazer bem.”

A manifestação foi seguida de perto pela PSP com carrinhas e munida de equipamento de motim. Apesar de até agora tudo se ter desenvolvido tranquilamente, a PSP estava a preparar das suas. Diz Miguel sobre a actuação:

“Foi confusa, violenta e desde o início sem qualquer vontade de diálogo ou de apaziguar a situação. Aliás as primeiras provocações que foram feitas, foram por elementos da PSP. Ainda consegui acalmar os ânimos por duas vezes. Um dos miúdos que estava a ser empurrado (ele estava no passeio, não estava na estrada) perguntava que mal é que ele estava a fazer. Eu aproximei-me e afastei-o.”

Portugal // Manifestação anti-racista: contexto, testemunhos, vídeos

Na madrugada de dia 20 de Janeiro, a PSP foi chamada ao bairro da Jamaica devido a um distúrbio entre mulheres após uma festa. Segundo o relato de uma moradora, a cerca de meia dúzia de agentes esperou na carrinha até ao reatar dos conflitos, saindo depois para o confronto físico gratuito e imediato. A PSP diz que um dos seus agentes teria anteriormente sido agredido com uma pedra arremessada. Claro que o que isto diz implicitamente é que “estavam a pedi-las” e que portanto não houve nada de errado na intervenção policial.

Até aqui poderia ter sido qualquer uma das muitas intervenções da PSP nos bairros pobres e negros de Portugal. A diferença é que desta vez tudo foi filmado e uma versão curta do vídeo colocada a circular nas redes sociais. O vídeo mostra 5 homens e mulheres, entre os 30 e os 60 anos, a serem selvagemente espancados. Este primeiro vídeo foi confrontado com os habituais comentários de que “não mostrava a história toda”. Entretanto, um vídeo mais completo dos eventos veio à superfície.

Como se pode ver, o gatilho para o perder de cabeça dos agentes da PSP parece ter sido os comentários feitos pelo jovem que foi espancado e depois detido, e não qualquer agressão física. Seja como for, o vídeo original incendiou as redes sociais, especialmente por entre as redes mais utilizadas pelos jovens, como o Instagram e Whatsapp. Aí, longe dos olhares habituais, foi chamada uma manifestação que reteve o elemento de surpresa no dia 21. Disse-nos C., que pediu anonimato:

(…) passou nas stories do Instagram de amigos. Que partilhou de outra pessoa. Por acaso apanhou toda a gente [de surpresa]. Não deram crédito. Acho que foi espontâneo, não tinha nem 24h desde que foi partilhado. Até pela faixa etária presente de jovens negros e brancos. A maioria estudantes.

Mas, apesar de não serem novos, estes actos de violência policial não costumam desencadear manifestações de protesto no centro de Lisboa. C. aponta como importante o facto de desta vez terem sido alvo de violência os pais de jovens:

(…) foram cometer essa brutalidade com as principais pessoas que meninos e meninas idolatram, mãe e pai. Essa mãe é mãe, avó, irmã, tia, prima e amiga de muitos afrodescendentes que já sofrem vários tipos de segregação e falta de oportunidades. Onde a mãe e o pai são a primeira e única solução de sobrevivência.

Uma das agredidas pela PSP no bairro da Jamaica.

B., mais jovem e que também quis manter o anonimato, disse sobre a motivação para a acção:

(…) além de estarmos saturados das acções brutas da polícia, foi o que aconteceu no bairro da Jamaica.

E sobre a localização:

O porquê de terem escolhido o centro de Lisboa, penso (…) que foi porque é um local marcante onde muita gente passa e seríamos ouvidos com mais facilidade.

A manifestação

Artigo 45.º da CRP – Direito de reunião e de manifestação

1. Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização.

2. A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação.

A manifestação concentrou-se primeiro junto ao Ministério da Administração Interna no Terreiro do Paço, onde foram feitos vários discursos.

Depois, seguiu para a Avenida da Liberdade, ocupando as estradas por onde passava, incluindo a própria Avenida.

Tendo apanhado a manifestação por acidente, Miguel de Lemos relatou-nos:

As palavras de ordem eram: Justiça; Abaixo o Racismo (eram as gritadas nos megafones!). Como os manifestantes estavam na estrada havia muita gente a ver, inclusivamente turistas a observar e indignação por parte dos condutores. Isto no sentido Rossio-Marquês. Os carros que circulavam do outro lado, alguns deles manifestaram apoio com apitadas e punhos cerrados. O ambiente, tirando as palavras de ordem e o barulho era sereno, mesmo quando os manifestantes se sentaram num dos cruzamentos.

Diz B.:

As reações das pessoas (…) algumas foram de irritação porque estávamos a parar o trânsito. Outras reações que nos deixaram cheios de alegria foi quando estávamos a andar na estrada e houve carros a apitar e a abrir as janelas a protestar também, a dizer que estávamos correctos e que estávamos a fazer bem.

A manifestação foi seguida de perto pela PSP com carrinhas e munida de equipamento de motim. Apesar de até agora tudo se ter desenvolvido tranquilamente, a PSP estava a preparar das suas. Diz Miguel sobre a actuação:

Foi confusa, violenta e desde o início sem qualquer vontade de diálogo ou de apaziguar a situação. Aliás as primeiras provocações que foram feitas, foram por elementos da PSP. Ainda consegui acalmar os ânimos por duas vezes. Um dos miúdos que estava a ser empurrado (ele estava no passeio, não estava na estrada) perguntava que mal é que ele estava a fazer. Eu aproximei-me e afastei-o.

Sobre a actuação da PSP, diz B.:

“A reação da PSP, assim que viu um grande grupo constituído maioritariamente por africanos, foi começar a fechar-nos e encurralar-nos. Quando chegámos ao Marquês tínhamos polícia de frente, de lado… a diferença foi o “simples” facto de nenhum dos brancos (que eu tenha visto) ter apanhado porrada, ter levado com balas de borracha, ter levado com os bastões.”

Miguel diz que a PSP visava alguns dos manifestantes em particular:

“Era apenas o tipo mais alto, que tinha o megafone e estava a dizer as palavras de ordem, iguais às que descrevi anteriormente. Foi também chamado um outro rapaz, mais velho, a quem foram dadas instruções pela polícia, mas aí fui afastado do local: “É melhor sair daqui porque não sabemos o que poderá acontecer”. Fui para uma das laterais da rotunda, onde estavam diversas raparigas manifestantes.”

Mais tarde:

“Nessa fase estava atrás dos elementos da UEP que começaram a correr e eu também. Houve realmente algumas pedras arremessadas, mas não sei o que causou isso. As câmaras de vigilância do hotel e do parque de estacionamento ao lado podem mostrar o que se passou. Sei  que na sequência disso, e porque como disse a UEP tinha ficado para trás, alguns elementos em inferioridade numérica dispararam shotguns e prenderam o tal rapaz que já tinham identificado. Com violência a cerca de 6 / 7 metros de mim. Estive junto a ele na carrinha que o levou, não me sendo respondido para onde.”

Miguel também foi colocado dentro da “caixa”, mas o facto de ser branco salvou-o da violência policial, que estava “muito nervosa” com a sua presença:

“Não conseguiam perceber qual era a razão da minha presença ali e não gostaram quando lhes disse que estava ali como cidadão a observar a actuação da polícia. Aí pegaram em mim e colocaram-me dentro do cordão. Nesse momento o único branco, o que levou outro polícia a perguntar o que eu estava ali a fazer e voltaram-me a empurrar para fora do cordão sendo que um deles me ameaçou de “porrada”, cito. A partir daí já tinha dado nas vistas e os chefes da UEP já apontavam para mim e eu decidi atravessar a estrada e ir para junto do Altis onde tudo começou a dispersar.”

Diz B. sobre os confrontos:

Os confrontos começaram quando estávamos a descer o Marquês e de repente ouvi4 / 5 tiros que a polícia alega que foram para o ar, mas no entanto acertaram em gente. Começámos todos a correr para ver o que se passava e foi então que vimos irmãos nossos a levar com bastões e pessoas a serem agarradas pela polícia.

Entretanto surgiram provas fotográficas de um jovem com uma ferida de impacto de bala de borracha por entre as sobrancelhas.

Dois centímetros ao lado e poderia facilmente ter acabado cego do olho direito. Como acontece um pouco por todo o mundo, também a polícia portuguesa sofre repetidos lapsos de distração, apontando à cabeça com armas carregadas com munição de borracha. Estas munições foram primeiro desenvolvidas pela Grã-Bretanha para uso contra civis na Irlanda do Norte. Ao longo de 35 anos de uso nessa região, entre 1970 e 2005, causaram 17 mortos. O seu uso implica sérios riscos, especialmente quando usadas directamente contra a cabeça e tronco.

Os confrontos acabaram com 4 detenções. Muitos dos manifestantes estavam chocados com o tratamento que haviam recebido da polícia e comunicação social. Disse B.:

“A PSP no dia a dia não faz grande coisa. “Protegem-nos”. Quando fazem alguma coisa, acabam sempre por magoar e manchar a comunidade africana. (…) Os media como sempre só mostram o que lhes convém. “Manifestantes atacam força policial”, “Polícias foram recebidos à pedrada”. MENTIRA! O Estado não ouve nada da parte deles [manifestantes], como já era de imaginar.”

Um texto publicado nas redes sociais condenava:

“Eu estava lá quando 10 queriam atirar pedra e outros 200 queria apenas paz e fazer o seu protesto normalmente. EU estava lá quando vi a mídia distorcendo a nossa voz na nossa frente. Enquanto gritávamos “racismo não” (…) a mídia dizia que “isto está muito perigoso”. Eu estava lá (…) com o altifalante falando e acalmando os meus irmãos e um polícia pôs as mãos nas minhas costas e disse “Se vocês não pararem de jogar pedra, nós vamos bater em toda gente”.

Eu estava lá quando por mais que meus irmãos estivessem com ódio no coração, ódio de ser preto em um país que constantemente nos oprimem dentro e fora de nossas casas, eles gritavam bem alto “Povo unido jamais será vencido” porque sabiam que por um todos levariam. Eu estava lá quando a polícia estava rindo da nossa cara enquanto estávamos dando discursos. Eu estava lá quando a polícia nos cercou tipo animais, nos empurrou e nos xingou.  Mas mantemos a calma. Eu estava lá quando começámos a descer a Avenida e os polícias começaram a correr e a dar tiro que acertou no rosto de um irmão.

Mais uma vez um tiro num preto desarmado ninguém fala, mas a pedra na polícia completamente armada o povo já julga. (…) Se a polícia estava lá para nos trazer segurança, saiba que eu e todas as manas e manos sentimos medo.”

Entretanto já existe um chamado para uma nova manifestação na sexta-feira às 15:30 em frente à Câmara Municipal do Seixal.

O historial de violência racista da PSP

Que a polícia portuguesa sofre de excesso de zelo no uso do cassetete já é mais do que sabido, assim como o facto de considerarem abominável a existência de negros e ciganos. Já no segundo relatório da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (ECRI, 2002) era mencionado:

“Vários casos foram referidos em que os representantes da lei fizeram uso excessivo da força relativamente a detidos ou outras pessoas que com eles entraram em conflito, entre os quais um grande número de imigrantes e de Ciganos.”

No terceiro relatório, em 2006, era novamente referido:

“A ECRI está preocupada por ter tomado conhecimento de que prosseguem as queixas sobre comportamentos racistas ou discriminatórios por parte das forças da ordem. (…) Por exemplo, a ECRI nota que, em 2003, dos nove casos submetidos à CICDR relativos a violência racista verbal ou física, sete envolveram elementos de forças da ordem.”

Novamente, em 2013:

“ONG indicam que as violências policiais de carácter racista se teriam intensificado nestes cinco últimos anos. Entre os incidentes graves, estarão disparos desferidos contra Africanos e Ciganos. (…) Contudo, segundo os dados fornecidos pelas autoridades, 31 queixas foram apresentadas entre 2006 e 2012 contra agentes da polícia por atos racistas ou de discriminação racial (…) 18 contra agentes da PSP, nove contra agentes da GNR, três contra agentes do SEF (…)”

Finalmente, em 2018:

“Em janeiro de 2014, o Ministério Público abriu uma investigação no seguimento de alegações de tortura cometida por inspetores da Polícia Judiciária durante uma rusga a um acampamento cigano. Em abril de 2016, um agente da polícia foi condenado a um ano e três meses de prisão por atingir a tiro um cigano de 30 anos de idade com uma espingarda, ferindo – o gravemente no rosto, quando este perguntou se podia ajudar a apanhar azeitonas numa quinta explorada pelo agente da polícia e vários dos seus colegas. (…)

Um caso grave de alegada violência racista em fevereiro de 2015 resultou eventualmente na acusação, em julho de 2017, de 18 agentes da PSP, incluindo um superior. Foram acusados de tortura, rapto, calúnia e ofensas corporais motivados por ódio e discriminação contra seis vítimas negras. Segundo o despacho de acusação, os agentes da polícia tinham inicialmente prendido, de forma arbitrária e violenta, um residente negro do bairro da Cova da Moura, situado no município da Amadora, nos arredores de Lisboa. Embora ele não tivesse oferecido resistência, os agentes da polícia espancaram-no violentamente, fazendo-o cair no chão e sangrar da boca e nariz. (…)

Para proteger a vítima, os cinco membros da associação, dois dos quais a polícia sabia serem mediadores, dirigiram-se por sua iniciativa à esquadra da polícia. Segundo o despacho de acusação e as declarações das testemunhas, os agentes da polícia atacaram-nos quando se aproximavam da esquadra da polícia, gritando insultos racistas, e arrastando-os até à esquadra da polícia, onde foram algemados, atirados para o chão e agredidos com pontapés, socos e pancadas por todo o corpo, incluindo a cabeça. Além disso, a polícia disparou balas de borracha contra eles e um agente gritou: “Não sabem como odeio a vossa raça. Quero exterminar-vos todos desta terra! É preciso uma legislação para fazer a vossa deportação. Se eu mandasse vocês seriam todos esterilizados!”. Uma das vítimas, que sofria de paralisia da mão direita, recebeu ameaças de morte. Desta forma, as seis vítimas foram detidas, torturadas e humilhadas durante dois dias. Segundo as declarações das testemunhas, o hospital atestou, após intervenção por parte dos agentes da polícia, que as vítimas se tinham ferido ao cair. Também se alega que dois agentes da polícia limparam o soalho com a finalidade de esconder vestígios de sangue. (…)

Relativamente à morte de Elson “Kuku” Sanches, um jovem negro de 14 anos, há também dados sobre manipulação de provas. Um elemento de prova da acusação desapareceu durante o processo. Essa prova indicava que o tiro fatal tinha sido disparado de uma distância de apenas 25 cm, sugerindo uma execução, e foi alegadamente colocada uma arma de fogo por perto para dar a impressão de que a pessoa morta estava armada. Os agentes da polícia acusados foram ilibados em 2012.”

Estes são só alguns dos casos mencionados nos relatórios. Os repetidos chamados de atenção têm sido completamente ignorados. Se há algo aparente nestes documentos é que a violência policial racista não está a melhorar com o tempo. Pelo contrário, está a agravar-se. Quem ainda tenha dúvidas sobre as atitudes da nossa polícia, pode visitar um dos seus vários fóruns nas redes sociais.

 

Artigo republicado de guilhotina.info onde pode ler na integra.

 

 

Mamadou Ba, OBRIGADA/O!

(artigo original, Buala)

Mamadou Ba tem pautado o seu percurso por uma incansável luta contra o racismo, as desigualdades e todas as formas de discriminação em Portugal.

O seu envolvimento e honestidade na Luta, faz com que seja reconhecido nacional e internacionalmente como um dos rostos mais proeminentes e mais consistentes do Movimento Negro português.

Isto acarreta responsabilidades acrescidas ao seu papel tanto político como cívico. E se este reconhecimento é fruto do seu trabalho consistente e persistente, ele tem também resultado em insultos, perseguições, ameaças de morte, tentativas de ridicularização constantes, mais racismo, mais violência e mais preconceito para com a sua pessoa – e de forma quase diária.

A comunidade negra e a comunidade cigana têm sofrido continuamente a violação dos seus direitos, a que acresce o medo, a exclusão e o abandono do Estado, nomeadamente no exercício da Justiça. Durante muito tempo, inclusive em casos de assassinato, foi sempre muito difícil para estas comunidades comprovar a índole racista da violência policial. Uma violência sobre os seus corpos que tem sido socialmente aceite, politicamente sempre justificável e economicamente insignificante. A brutalidade policial tem sido denunciada internacionalmente em relatórios com o as do Comité Europeu contra a Tortura, em queixas contra a polícia e em manifestações organizadas pelos colectivos anti-racistas e pelos movimentos de afrodescendentes portugueses.

A 21 de Janeiro de 2019, jovens dos bairros da periferia de Lisboa ocuparam o centro de Lisboa numa manifestação espontânea e pacífica decorrente das agressões no dia anterior a uma família do Bairro da Jamaica, no Seixal, pela PSP local. A divulgação de um vídeo onde a polícia agredia à bastonada, empurrava e esmurrava homens e mulheres indiscriminadamente, deixou o país perplexo e a juventude – alvo por excelência do racismo e violência policial – sentiu medo, mas desta vez não ficou em casa. Esta manifestação seria dispersa por mais de uma vez e, em filmagens que circulam pelas redes sociais, o que se constata é uso excessivo da força pela polícia, disparando balas de borracha, agredindo e ameaçando pessoas, o que resultou na detenção de quatro indivíduos negros.

Estes últimos acontecimentos, que põem a nu o sistema racista em que vivemos através do comportamento das forças policiais, da violência naturalizada sobre pessoas negras, jovens, homens e mulheres, e da impunidade permanente de tais actos, chega ao nível do intolerável.

A Mamadou Ba agradecemos a persistência e o facto de nunca ter abandonado a Luta. É, por isso mesmo, merecedor de todo o nosso apoio, solidariedade e amor! Obrigada, Mamadou Ba!

alguns subscritores 

Abel Djassi Amado, Adamares Ernesto S. da Silva, Aida Tavares, Alesa Herero, Ana Balona de Oliveira, Ana Fernandes, Ana Ferreira, Ana Rita Alves, Ana Rita De Faria Antonio, Ana Rita Rodrigues, Ana Stela Cunha, Andreia Alves, Andreia Navarro, Andredina Cardoso, André Teodósio, André Castro Soares, Andreia Alves, Anithe de Carvalho, António Brito Guterres, António Sequeira, Ariana Furtado, Beatriz Carvalho, Bruno Neto, Bruno Sena Martins, Carla Fernandes, Carla Isidoro, Carlos Dias, Carlos Leite, Carlos Valério Kangoma, Catarina Martins, Catarina Príncipe, Catia Montes, Celeste Fortes, Célia Costa, Cheila Prata, Cíntia Lopes, Cristina Roldão, Cristina Paquete Paixão, Cristina Santinho, Cristina Santinho, Daniel Martinho, Dara Ramos, Denise Viana, Dilia Fraguito Samarth, Diógenes Parzianello, Eduarda Rovisco, Eduardo Viana, ENAR – Rede européia contra o racismo, Fernanda Fragateiro, Flávio Almada, Guiomar Sousa, Helena Dias, Helena Vicente, Hugo Curado, Inês Beleza Barreiros, Inês Dias, Iolanda Évora, Isabel Ferreira Gould, Isabel Patrício Sauane, Jakilson Pereira, Joacine Katar Moreira, Joana Gusmão, Joana Mouta, Joana Sousa, João Camargo, João Pedro Vale, Joe Silva, Jorge Fonseca de Almeida, José Luis Oliveira, José Maria Vieira Mendes, José Pereira, José Pina, José Semedo, José Semedo Fernandes, Jota Mombaça, Juliana Santos Wahlgren, Karin Gomes, Kitty Furtado, Kleisy Barreto, Lesses Ulisses Fernandes Cardoso, Lígia Kellerman, Liliana Coutinho, Lívia Sampaio, Lúcia Furtado, Luís F. Simões, Luís Mah, Luís Moreira, Luzia Oca González, Maíra Zenun, Manuel Moreira, Manuela Tenreiro, Marcela Uchoa, Marcos Cardão, Maria Gil, Mário Évora, Marta Borges, Nádia Yracema, Margarida Rendeiro, Mário Carvalho, Marta Lança, Marta Mestre, Marta Ribeiro Santos, Marta Rivera Bargues, Matamba Joaquim, Miguel Lucas Mendes, Miguel Vale de Almeida, Myriam Taylor, Nancy Raisa Cardoso, Nelson dos Santos, Neusa Trovoada, Nigel Randsley, Nina Vigon Manso, Nuno Dias, Oriana Alves, Otávio Raposo, Patrícia Branco, Patrícia Santos Pedrosa, Patrícia Schor, Paula Machava, Paulo Maia, Paulo Velez Muacho, Pedro Faro, Pedro Mendonça, Pedro Neves Marques, Pedro Schact, Pedro Vieira, Rahiz, Piménio Ferreira, Raquel Lima, Raquel Saune, Renaldo Vaz de Pina, Ricardo Falcão, Rita Cássia, Rita Costa, Rita Natálio, Rita Veloso, Rodrigo Sousa, Rui Gomes Coelho, Shenia Karlsson, Sandra Costa, Sara Neves, Sérgio Vitorino, Sílvia Jorge, Sílvia Maeso, Sílvia Roque, Susana Boletas, Tiago Santos, Timóteo Macedo, Vanda Baltazar, Vasco Araújo, Vicente Mertz, Vítor Sanches, Zeze Nguelleka

Nota: Quem quiser subscrever esta carta envie nome durante o dia de hoje para o email obrigadomamadou@gmail.com

Regresso do Afrotela com Welket Bungué

Afrotela é um projeto da Afrolis – Associação Cultural onde olhamos para afrodescendentes na tela e discutimos as representações disponíveis das nossas comunidades. As primeiras duas sessões foram no mês de outubro de 2016 com filmes que retravavam afrolisboetas e para as quais foram convidados participantes dos filmes para debater as temáticas tratadas. A partir de novembro de 2016 até março de 2017, criou-se uma parceria com a produtora Nega Filmes Produções que passou a fazer a curadoria das sessões e a dirigir os debates que se seguiam ao visionamento dos filmes. As sessões passaram a ser mensais e feitas em dois locais por mês, uma vez no centro de Lisboa (Casa Mocambo) e outra na Cova da Moura (Tabacaria Tropical). Para a temporada de 2019, a Afrolis convida o ator e realizador Welket Bungué a retomar o projeto fazendo a curadoria das sessões cinematográficas que serão feitas em ambiente intimista com uma regularidade mensal.

A sessão de abertura será no dia 13 de dezembro com a exibição dos filmes ‘Soulleimane’, de Paulo Pancadas e ‘Terra Amarela’, de Dinis M. Costa, pelas 21:30, na Casa Mocambo (evento gratuito).

 

 

 

 

 

Programação completa AQUI

 

Acerca da Curadoria

Balanta e luso-guineense, Welket Bungué, nasce em Xitole (Guiné-Bissau) a 7 de fevereiro de 1988. Welket iniciou a sua formação artística em 2005. É licenciado em Teatro no ramo de Atores (ESTC/Lisboa) e pós-graduado em Performance (UniRio/RJ). É Membro Permanente da Academia Portuguesa de Cinema desde 2015, Em 2012 foi distinguido com “Prémio de Melhor Ator” pela sua interpretação em MÜTTER, realizou as curtas-metragens MENSAGEM,WOODGREEN e BASTIEN no qual foi distinguido pelo ‘Prémio de Melhor Ator’ nos prémios Shortcutz 2017. É também locutor para entidades internacionais, desenvolve Escrita Dramática, Argumento de Cinema, Performances e Teatro. Atualmente vive entre o Rio de Janeiro e Berlim.

Apresentação: CARLOS KANGOMA

Carlos KangomaCarlos Kangoma aka Lucy é músico e produtor executivo do programa Ecos Urbanos. Natural de Angola, nascido a 29 de outubro de 1984. Mudou-se para Portugal em 1987 devido ao flagelo da guerra. Vive a sua infância na região da Venda do Pinheiro e aos 12 anos vai para Odivelas e conhece o rap. Formou o grupo Mentes Criminosas e editou o primeiro álbum em 2009 intitulado ‘Cara ou Coroa’, nessa altura concilia os concertos com o curso de Línguas, Literaturas e Culturas da faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Passados 3 anos de digressão, forma juntamente com alguns músicos de Odivelas um novo colectivo intitulado Odc Gang e lança o seu segundo trabalho colectivo intitulado ‘Escumalha’, nessa altura concilia a segunda digressão com o curso profissional de Microbiologia Alimentar no CFPSA. Em 2016 finalmente lança o seu primeiro trabalho a solo intitulado ‘Uma História Para Contar’. Após o lançamento do álbum, decide embarcar na produção de um programa cultural ( ecos urbanos) , com o intuito de divulgar artistas e organizações num cenário mais intimista e formato casual. Neste momento já vai lançar o seu 2 álbum a solo intitulado ‘Primeiro Capítulo’ enquanto vai dando espetáculos a nível nacional e internacional.

 

Áudio 186 – 40 Anos de Cadernos Negros

 

Desde 1978 a produção literária afro-brasileira teve um grande impulso com a criação da série Cadernos Negros, organizada pelo coletivo Quilombhoje.   Ao longo de 40 anos foram publicados volumes os Cadernos Negros alterando-se entre contos e poemas, tornando-se uma forma de veicular a cultura, o pensamento e o modo de vida dos afro-brasileiros. Quarenta volumes passados, reconhece-se o contributo dos Cadernos Negros para a visibilidade de autores afrodescendentes e fortalecimento não só a literatura negra, mas também da produção literária das periferias. Esmeralda Ribeiro é uma das fundadoras se conta-nos mais

Áudio 185 – INMUNE – Instituto da Mulher Negra em Portugal

O “INSTITUTO DA MULHER NEGRA EM PORTUGAL – INMUNE”, fundado por 27 mulheres negra, apresenta-se como sendo “uma entidade feminista interseccional e anti-racista, constituída por mulheres, de direito privado, sem fins lucrativos, solidário, apartidário, mas não apolítico, que combate o silenciamento das mulheres negras, africanas e afrodescendentes na História e no tempo presente e promove o empoderamento, a participação social e política de mulheres, a igualdade de direitos, a paridade e a justiça social, fomentando através das suas atividades e reflexões, um ambiente propício à afirmação e valorização da herança e da cultura negra e africana em Portugal.”

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A apresentação oficial da organização foi no dia 20 de outubro, de 2018, na Cordoaria Nacional. Aqui quem nos apresenta o INMUNE são 3 das 27 fundadoras, Neusa Trovoada, Angela Graça e Denise Viana.

Próxima atividade INMUNE: Feira de Inverno – Campanha de recolha de roupa a decorrer