Especial – Entrevista sobre documentário Behind the Lines (FRELIMO)

Behind the Lines é um dos mais emblemáticos filmes da luta armada da FRELIMO contra o colonialismo português em Moçambique. Foi filmado em 1970, no Niassa, quando a região foi alvo da ofensiva “Nó Górdio”, apresentando entrevistas com combatentes e quadros da FRELIMO, e procurando ilustrar a organização da vida civil nas áreas libertadas.”

Na sessão de apresentação de 2 de dezembro de 2016, no espaço Hangar, falámos com Margaret Dickinson, a realizadora do documentário. A entrevista esta em inglês mas deixamos aqui a transcrição para quem preferir ler em português.

RA: A Margaret Dickinson realizou um filme chamado Behind the Lines,  em Moçambique, nos anos de 1970…

MD: Sim, foi filmado em 1970 e publicado em 1971.

RA: Gostava que nos apresentasse a Margaret de 1970 e a Margaret de 2016.

MD: Em 1970, eu tinha… Devia ter 27 anos, não era assim tão jovem, trabalhava na indústria cinematográfica há algum tempo, e tinha estado a trabalhar de 1968 a 69 na Tanzânia com a FRELIMO na Tanzânia.

RA: E agora em 2016?

MD: Agora são uma mulher velha… [gargalhadas] Mas apesar de ser uma mulher velha ainda sou politizada, continuo a fazer filmes de uma forma mais modesta. Na realidade já me reformei do mercado comercial mas voltei a fazer filmes porque estou interessada em algo.

RA: Quando estava a ver o filme [Behind the Lines] achei muito interessante a forma como o filme retratou relações familiares, de género, educação e o crescimento de um sentido de nação. Uma das coisas que mais me interessou foi a ideia de comunidade e como as pessoas começaram a relacionar-se por causa deste ambiente de guerra. Pode falar sobre esse aspeto, a construção de uma comunidade?

MD: Sim, eu acho que quando diz um ambiente de guerra, o facto é que, antes da guerra, eles tinham tido um ambiente de colonialismo que já tinha produzido pressões dolorosas. O homem mais velho no filme fala de refugiados de Moçambique. Houve muitas ondas de moçambicanos a fugir para a Tanzânia, porque tendo o colonialismo britânico sido o mau, o colonialismo português foi pior ainda. Então as pessoas até fugiam de um mau governo para outro mau governo, mas é um indicativo do quão mau as coisas tinham sido antes da guerra. Então, não é tanto a guerra, e que quando o movimento de libertação se instalou nas províncias do norte,  acho que foram capazes de dar esperança às pessoas de lá, apesar do facto de as coisas estarem ainda mais difíceis porque havia uma guerra. Havia a possibilidade de que as dificuldades anteriores que eles tinham sofrido por causa do colonialismo pudessem mudar.

RA: E como descreveria a forma de organização nesse ambiente?

MD: Suponho que tenha sido uma organização clássica do tipo guerrilha, onde existe um número de unidades que operam de forma bastante independente. Mas não sou uma perita em assuntos militares, então, não sei exatamente como organizaram o exército. Mas, ao mesmo tempo, há uma forte tentativa de organizar a população civil em grupos políticos modernos, onde as pessoas teriam, em teoria, uma voz igual. Claro que tudo isto não acontece imediatamente, e as pessoas que estavam habituadas a dominar teriam continuado a dominar. Mas a FRELIMO tentou dar mais voz aos jovens e as mulheres.

RA: E a mulheres, exatamente. No filme foi mencionado que as mulheres também tinham acesso a educação, também tinham armas, também lutaram. Não estavam lá apenas para cozinhar, ou só para cuidar dos órfãos que recebiam. Havia um sentimento de igualdade ou as pessoas sentiam essa igualdade?

MD: Para ser honesta é difícil dizer porque não estive la o tempo suficiente e porque só falava português, não podia comunicar nas línguas das pessoas. Mas as mulheres sempre trabalharam muito, mas não se esperaria que as mulheres andassem com armas ou que tivessem uma voz política ou que fossem ouvidas em oposição aos homens. Então, é um problema diferente. E não sei até que ponto as mulheres no exército tinham uma palavra a dizer e o quanto elas…

RA: Mas no filme foi retratado como se as mulheres tivessem as mesmas oportunidades que os homens ou assumissem os mesmos papéis.

MD: Bem, papéis semelhantes. Não exatamente os mesmos. Até mesmo no filme nos ouvimos o que as mulheres estavam a dizer mas a tendência era que elas fizessem um trabalho social,  tratassem mais das crianças ou da organização de mulheres. Então não acho que elas fossem idênticas aos homens, mas seria possível se elas quisessem, ser como foi com a Josina Muthemba, a mulher de Samora Machel. Ela era uma grande líder militar na luta.

RA: Chegou a conhecê-la?

MA: Sim, conheci-a. Ela era uma mulher maravilhosa. Foi triste ela ter morrido tão jovem.

RA: E a motivação para fazer este filme? Achei muito honesto e interessante a Margaret ter dito no final [da apresentação] que foi um acidente…

MA: Ah, não, foi um acidente encontrar a FRELIMO. Isso aconteceu acidentalmente. Mas uma vez que isso aconteceu, fiquei muito envolvida. Tinha passado um ano a trabalhar com a FRELIMO, tinha amigos la e sentia um compromisso para com a causa deles. O que queria dizer é que não teria saído à procura deles [da guerrilha no terreno] porque não imaginava que poderia ajudá-los. Mas quando os encontrei, sim, quis fazer qualquer coisa que fosse útil.

RA: Depois do filme, estava ansiosa por mostrá-lo ao mundo? Onde foi exibido?

MA: Sim, claro. E uma grande luta fazer um filme em fita, na altura, e o objetivo era ajudar a luta de libertação, então, sim, queria muito mostrá-lo.  Fiquei desapontada com o filme, porque não conseguimos fazer o que queríamos fazer. Tivemos de trabalhar às pressas e parecia a muitos outros filmes de guerrilhas, onde andamos com a guerrilha, vemos um pouco do programa que fazem com os civis e parece que não é muito profundo. Mas mesmo assim, eu sabia que ia ser útil e foi muito útil. Alertou pessoas para a existência da luta e ajudou a conseguir apoios, então gostei de exibi-lo.

RA: No final, o filme foi essencialmente, um instrumento de luta também, no sentido em que alertou pessoas e deu-lhes a possibilidade dar o seu apoio.

MD: Sim. E importante saber que o filme não teria existido se não houvesse já um movimento político de solidariedade forte que fez a realização do filme parecer algo pertinente, porque depois eles poderia certificar-se de que seria visto. E quando foi feito, eles asseguraram a sua exibição.

RA: Quem assegurou que o filme tenha sido visto e onde foi visto?

MA: Inicialmente havia o Comité para a Liberdade em Moçambique, Guiné e Angola [Committee for Freedom in Mozambique, Guinea and Angola], que era um movimento britânico solidário com as lutas de libertação das colónias portuguesas. Mas mais ou menos ao mesmo tempo, possivelmente uma imitação, houve movimentos semelhantes a formar-se no Canada, na Holanda maior parte de países na Escandinávia e eventualmente em França e na Alemanha. Então havia a possibilidade de mostrar [o filme] por toda a Europa.

RA: E aqui em Portugal, foi dito que o filme foi mostrado há cinco anos num Festival, DocLisboa, e agora foi mostrado aqui [na sessão de exibição do filme no Hangar 2/12/16]. Quer dizer que o filme só foi mostrado 2 vezes aqui [em Portugal]?

MA: A não ser que alguém tenha mostrado, pelo que sei, sim, foram as únicas duas vezes que foi mostrado em Portugal.

RA: E em Moçambique foi exibido lá?

MA: Sim, claro. Assim que veio a independência foram-lhes dadas copias.

RA: E qual foi o feedback? Teve acesso ao público quando o filme foi exibido?

MA: Sim, foi bastante emocional. Alguns ex-combatentes vieram e algumas lágrimas foram derramadas.

RA: Qual a avaliação que faz do seu filme, tendo em consideração as varias apresentações feitas ao longo dos anos?

MA: Em alguns aspetos agora sinto-me melhor porque as vezes, filmes, assim como o vinho, melhoram com a idade. Tornam-se algo raro. Torna-se mais difícil compreender aquele período sem ver um filme, então, apesar de todos os seu defeitos, parece trazer algo de útil agora. Na altura também foi útil, mas eu estava mais consciente do facto de não estar a apresentar o suficiente. Mas aquilo que apresenta gora, porque não existe tanto material. Tem um outro tipo de utilidade.

 

 

 

 

 

 

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Entrevista com Realizadora Ike Bertels sobre o filme “Guerrilla Grannies

**Áudio em inglês

Rádio AfroLis (RA): Obrigada Ike por falar com a AfroLis sobre o filme que trouxe [ao Festival Rotas e Rituais], ”Guerrilla Grannies”. Pode falar-me um pouco sobre o filme, do que trata o filme?

Ike Bertels (IB): É a história de três mulheres da guerrilha que vi num filme quando eu própria era muito jovem. Tinha visto, por acaso, um filme sobre uma guerra de guerrilha em Moçambique e a maior parte desses filmes de guerra eram sobre homens que libertaram o país e neste filme havia três mulheres sentadas no mato com as suas espingardas e falaram sobre o que estavam a fazer e porquê. E elas estavam tão entusiasmadas e cheias de esperança e acreditavam que eram capazes, juntamente com os homens, de mudar o mundo, de mudar o seu mundo, de mudar Moçambique que foi colonizado por muito tempo e tornar-se independentes. Eu fiquei impressionada com isso porque eu própria era jovem e queria libertar-me da vida em que vivíamos e fiquei tocada por elas. Depois de ver o filme fiquei a pensar no que teria acontecida a estas três mulheres, então fui procura-las. Eu vivo na Holanda e é longe, então levei muito tempo para descobrir. Se elas ainda estavam vivas e onde viviam.

RA: Depois de vermos o filme, disse que esta foi uma viagem em três fases. Esta foi primeira fase, qual foi a segunda?

IB: A primeira fase foi um filme que fiz em 1984, que se chamava “Mulheres da Revolução” [“Women of the revolution”]. Foi um filme onde tentei retratá-las com as imagens que tinha visto. Então mostrei-lhes num cinema, às três mulheres, depois da independência, eu vi com elas como elas eram quando eram jovens. Este foi o ponto de partida para falar sobre os seus ideais e no que eles se tinham tornado.

Depois de 1984, quando terminei o filme, a vida delas mudou porque houve uma nova guerra. A guerra civil que se iniciou entre os dois grupos políticos a FRELIMO, principal partido,  e a RENAMO. Durante a guerra eu não podia encontrar-me com elas, estas mulheres que tinha filmado e de quem tinha gostado tanto, então, depois da guerra fui vê-las e pensei que seria importante fazer outro filme sobre elas.

 

guerrilla_granniecopiaQuando fui a segunda vez, ficámos mais próximas umas das outras. Elas ficaram impressionadas por eu ter querido voltar. E, depois, voltei a Moçambique por um outro motivo e quis encontrar-me com elas, novamente, e nessa altura fui mesmo convidada para as suas casas e para conhecer as suas famílias. E, a partir daí, encontrávamo-nos todos os anos. Eu ia lá todos os anos para vê-las. Depois disso decidi que tinha de fazer um terceiro filme porque assim tinha a imagem completa. A situação em Moçambique era uma história paralela às vidas delas, às suas lutas.

RA: De que modo é que este filme mudou a sua maneira de olhar para as mulheres em África ou para as mulheres em geral?

IB: Durante o primeiro filme que fiz, estava impressionada e admirava-as porque elas tinha feito uma coisa tão maravilhosa. Mas vivi com elas a fase da desilusão por não terem conseguido cumprir o sonho por completo e terem de lidar com a realidade, mesmo sendo uma má realidade, então, aprendi com isso. Também aprendi com a força delas a nunca desistir, continuar. O que também achei muito importante, para mim, foi a forma como elas mostraram que podiam continuar a viver sem o apoio de homens, mesmo estando sozinhas a cuidar, não só da própria família, mas da família alargada. A Amélia é um bom exemplo com a sua pequena machamba (horta). Ela alimentava uma família grande, de trinta pessoas. Para mim isso foi incrível e faz-te ficar humilde e pensar que é um bom exemplo para todas as mulheres, estejas em África ou no norte.

RA: Agora só para resumir, estivemos sempre a falar “delas”, mas na realidade,  acabou de dizer  o nome de uma delas, Amélia. Mas gostaria que descrevesse cada uma delas. Eu vou dizer o nome e queria que me desse três adjetivos para cada uma delas.  Não sei se é difícil descrevê-las com apenas três adjetivos, mas essa seria a minha sugestão. Se sentir que precisa de alargar a explicação pode fazê-lo. Vou começar pela Amélia:

IB: A Amélia é uma mulher, dura, cheia de humor, fuma muito e é muito severa com os homens.

RA: Maria?

IB: A Maria é uma mulher muito inteligente mas burguesa, que consegue sempre encontrar uma forma de melhorar a sua vida e a da sua família.

RA: E agora, vamos falar sobre a Mónica, a única que ainda está viva.

IB: A Mónica é uma agricultora, apesar de não praticar a agricultura, no sentido em que tem opiniões fortes e bem assentes na terra. Ela é uma mulher muito forte e terra a terra. Ela também tem um tipo de humor muito peculiar que não é muito fácil de compreender porque ela tem um sentido de liderança natural, e se ela sente que tu és uma pessoa igualmente forte, ela gosta de entrar em “combate”.

RA: Se tivesse de convidar as pessoas a verem o filme o que diria?

IB: Eu diria que estas três mulheres, por elas próprias significarem tanto e viverem uma vida normal com as suas famílias, pode mostrar-nos algo sobre a vida em África que não vemos frequentemente. E também por causa do tempo que passamos com elas, porque as vemos a mudar e a crescer e a lidar com dificuldades. O que também gostei foi que tive a oportunidade de contar histórias paralelas através das quais também podemos ver o crescimento de um país que se torna independente e com as mesmas lutas e os mesmos problemas que elas sentem pessoalmente.