Nós No Cabelo – Testemunho de Cátia Moreira

Toda a minha vida conheci a minha carapinha de várias maneiras: desfrisada, trançada, com tissagens, postiços entre outras.

Tudo isto só ia deteriorando, não só o meu cabelo que agora sei ser parte da minha essência e das minhas raízes, mas também a percepção que eu tinha em relação ao ser africano, porque o estereótipo que conheci desde muito cedo foi, que uma africana para ser aceite na sociedade tinha de ter um cabelo liso, claro e completamente perfeito. Ou seja, tínhamos que sacrificar a nossa carapinha em prol de uma aceitação física por parte dos mais ignorantes.

Resolvi meter um ponto final a este ciclo de ir matando aos poucos aquilo que nasceu comigo, que foi crescendo comigo, que me foi concedido pelos meus antepassados que é a minha carapinha, rija, encaracolada, preta, brilhante e linda.

Vai fazer três anos que uso o meu cabelo natural, sem químicos e sem fachadas. Descobri que sou mais feliz, mais bonita até. Hoje acordo e vejo todos os dias a mesma pessoa, o mesmo eu, e sabe tão bem… é uma sensação petrificante porque nós podemos ser bonitas com o que nós temos com o que nos pertence sem termos que recorrer a modas e a estereótipos de que a mulher africana só é bonita com perucas lisas, claras e brilhantes.

Pode ser ou parecer exagero da minha parte, mas eu sou uma pessoa diferente graças à minha carapinha natural, porque sei que é real e é minha.

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Áudio 161 – Doenças crónicas vs Doenças infecciosas em África

“A questão é que historicamente priorizou-se as [doenças] infecciosas e foi-se adotando uma atitude um bocado cega  em relação às doenças crónicas. Mas é preciso olhar para elas e dar uma resposta muito rápida (…) é preciso olhar para todas as doenças como prioridade.”

Combate a doenças crónicas em África são subfinanciadas, apesar das primeiras estarem a matar cada vez mais pessoas. Gefra Fulane faz um doutoramento em Conhecimento Tropical e Gestão, acolhido pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa,  e fala do exemplo do cancro do colo do útero, que mata metade das pessoas diagnosticadas em Moçambique.

 

Nós No Cabelo – Testemunho de Carla Veiga

Sempre fui obrigada a acreditar que cabelo bonito é aquele que vemos constantemente na TV – liso e sedoso. E à medida que fui-me tornando adulta e com curiosidade para saber mais sobre os meus antepassados e de tudo um pouco, fui percebo essa “ditadura” contra os nossos cabelos naturais.

Então aí começa a minha “revolta “interior”. Começo por parar de desfrisar e alisar os meus cabelos, passo à transição com o cabelo sempre meio crespo meio liso nas pontas e vou cortando aos poucos. Ao fim de dois anos, por aí, denoto a minha coroa a querer sair e brilhar. Agora, sim, sinto-me eu! Sinto-me menos “acorrentada”, mais bonita..

Adoro o que vejo ao espelho, este cabelo que faz parte de mim e me mostra o quanto a nossa natureza é bela. O meu cabelo não é moda, é o ADN.

Áudio 159 – Responsabilidade Social e Projeto Testemunhos da Escravatura

Testemunhos da Escravatura – Memória Africana: O projeto integra a programação da Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura, e parte das representações e das novas narrativas construídas do que a escravatura foi no passado e pretende contribuir para uma consciencialização dos equipamentos culturais, bem como contribuir para a construção de uma discussão do que, ainda no presente, significa a escravatura. 42 instituições participaram deste projeto que envolve exposições, documentos e objetos em destaque e uma página web.

Intelectuais e ativistas negros criticam a  concepção do projeto e a abordagem feita pelos equipamentos considerando que se focaram na ótica da dominação dos povos africanos negligenciando o aspecto da resistência dos mesmos e por não ter incluído curadores negros nem ter havido um diálogo com coletivos, associações de afrodescendentes e de países africanos.

Ana Cristina Leite, uma das curadoras do projeto Testemunhos da Escravatura – Memória Africana, a cargo do Gabinete de Estudos Olisiponenses, fala-nos dos objetivos do projeto e das opções feitas para a sua realização.

Mais infos:

Obra de sobre Fernanda do Vale (Preta Fernanda), mencionada na entrevista:

Recordações d’uma colonial (memórias da preta Fernanda) [por] A. Totta & F. Machado (1912)

 

 

Nós No Cabelo – Testemunho de Carina Ismael

O meu nome é Carina Ismael, tenho 27 anos, nasci em Lisboa e sou moçambicana. Retornei ao natural há 4 anos e 3 meses. Voltar a ter o cabelo natural foi como renascer. Já desfrisava o cabelo desde os 9 anos e desfrisei até aos 22. Então já eram demasiados anos sem fazer a mínima ideia de como era realmente o meu cabelo. Passei mais de 1 ano em transição sem saber que estava em transição sequer. Estava pura e simplesmente cansada de ir ao cabeleireiro para ter um cabelo liso, que só ficava liso no primeiro mês, que não passava dos ombros porque as pontas se partiam sempre, e estava cansada de ir “disfarçar a raiz” porque já estava muito grossa. E eu já me perguntava porque tinha que disfarçar algo que crescia na minha cabeça. Bem, hoje sou grata por esta raiz grossa porque é graças a isso que o meu afro, que tanto me orgulho, tem mais volume. Cabelo afro não é só moda, embora esteja na moda. Cabelo afro é identidade, é teres orgulho da naturalidade, das tuas raízes sem disfarce.

Especial – Intervenção de Joacine Katar Moreira na Conferência “Racismo e Cidadania”

Ontem foi a conferência “Racismo e Cidadania” no Teatro S.Luiz, em Lisboa, na qual partilhei a mesa com Francisco Bethencourt, Mamadou Ba e Jorge Vala. A minha gaguez não me permitiu expressar-me de todo, o que lamento profundamente! Para que não fique nada por dizer, partilho agora aqui o que planeei para a minha intervenção. (Publicado na página do Facebook de Joacine Katar Moreira)

Conferência “Racismo e Cidadania”
Teatro São Luiz
24 de Maio de 2017
18h

Antes de mais queria saudar o Francisco Bethencourt pela iniciativa, a Joana Gomes Cardoso pelo convite e naturalmente a EGEAC e ao Teatro S. Luiz.
A minha intervenção será uma reflexão sobre a participação política dos cidadãos de origem africana em Portugal.

Esta conferência é importante porque é preciso e é urgente falar de racismo no país. Isto porque Portugal é um país historicamente e estruturalmente racista.
A sociedade portuguesa, apesar de alguns avanços ocorridos (mais em termos teóricos do que na prática quotidiana) padece daquilo a que posso chamar de esquizofrenia racial, porque de um modo geral ninguém vê, reconhece e identifica o racismo, os comportamentos racistas, as leis racistas, as observações racistas, excepto aqueles que são as vitimas desse racismo. Aliás, um bom exemplo desta esquizofrenia é que ninguém aceita que é racista neste país, apesar de na realidade os cidadãos de origem africana verem-se confrontados sistematicamente e quotidianamente com situações de racismo e discriminação.
E porque é que eu falo de esquizofrenia? Porque, por coincidência, estive a ler sobre esta patologia e consegui ver uma correlação com a forma como os racistas se comportam e posso aproveitar para dar alguns exemplos concretos.
Parece que os cinco sintomas desta patologia são os delírios, as alucinações, as alterações de pensamento, as alterações de afectividade e a diminuição de motivação:

Delírios: são ideias falsas, das quais o paciente tem convicção absoluta. Aqui se enquadram as ideias de que os negros são inferiores, ou de que o colonialismo até ajudou a desenvolver o continente africano ou que o colonialismo português foi suave em comparação com os outros países colonizadores.

Alucinações: são percepções falsas (dos órgãos dos sentidos). Aqui poria a ideia de que um grupo de jovens negros pode constituir algum perigo, a falácia do racismo inverso, por exemplo.

Alterações do pensamento: as ideias podem se tornar confusas, desorganizadas ou desconexas, tornando o discurso do paciente difícil de compreender. Tais como dizer que tem amigos negros e ter um discurso racista; ou então estar casado com um negro ou negra e julgar que isso é um atestado de não-racismo óbvio; ou então gostar muito de guineenses mas achar que os senegaleses deviam ser todos proibidos de entrar em Portugal.

Alterações da afetividade: muitos pacientes têm uma perda da capacidade de reagir emocionalmente às circunstâncias, ficando indiferentes e sem expressão afetiva. Aqui eu iria mais longe e diria que não apenas dificuldades de reagir emocionalmente, mas politicamente, socialmente e culturalmente. E aqui como exemplos entra a normalização da violência policial, os despejos de bairros de comunidade de origem africana de forma absolutamente desumana, os insultos públicos racistas, por exemplo aos futebolistas; o desprezo pelos clientes negros em muitos estabelecimentos – sem que ninguém reaja contra elas.

Diminuição da motivação: o paciente perde a vontade, fica desanimado e apático. E em caso de desemprego, eu diria que culpa os estrangeiros e seus descendentes da sua situação. Esta falta de motivação para o que é bom pode originar motivação para o que é mau, como tornar-se agressivo e violento contra aqueles que julga serem responsáveis pela sua situação, ou que julga serem inferiores ou com os quais não pretende partilhar o espaço social ou a nacionalidade.

Mas voltando à participação política da população de origem africana em Portugal.
Esta intervenção poderia durar apenas 1 minuto porque não há nada que possa suportar as minhas afirmações sobre esta temática: Não há informação estatística, científica, porque a origem étnica e racial dos portugueses não tem interessado ao Estado e às suas instituições.
Contudo, Associações de afrodescendentes e a investigadora Cristina Roldão do ISCTE, aqui presentes, têm chamado a atenção para esta lacuna e esta omissão dos dados étnico-raciais dos cidadãos portugueses, que permitiria um conhecimento integral da realidade política e social, combater problemas como o racismo estrutural e dinamizar a vida política nacional com base nas diferentes realidades dos cidadãos que a habitam.

Mas podemos sempre supor, coisa esta pouco científica e pouco profissional, sobre o porquê de aparentes comportamentos políticos dos cidadãos de origem africana no cenário político português:
– Supomos que não vão votar;
– Supomos que não estão representados na maioria das esferas da sociedade – exceptuando provavelmente a esfera desportiva.
– Supomos que não se revêm nos partidos políticos, nos políticos e suas intenções;
– Supomos que continuam a comportar-se como imigrantes, limitados na sua cidadania;
– Supomos que são um segmento da população que é invisível, não apetecível pelos partidos que não os consideram cidadãos eleitores;
– Supomos que se trata de uma população alienada da vida política; com comportamentos mesmo apolíticos;

Cinco aspectos se colocam como imediatos entraves à participação política dos cidadãos de origem africana:
1 – As desigualdades sociais e económicas que garantem a sua posição de fragilidade social e de exclusão e os limitam fortemente nas diversas esferas, quer no acesso ao ensino superior, a melhores empregos, melhores condições de habitabilidade, etc.
2- A lei da nacionalidade vigente – que rejeita a cidadania a indivíduos que mesmo nascidos em Portugal são tratados como estrangeiros até à idade adulta. Depois estranha-se a aparente alienação política destes cidadãos;
3 – A não disponibilização dos dados étnico-raciais que permita uma maior atenção e maior conhecimento sobre a realidade social dos negros portugueses, e que possa fazer face a situações de discriminação e de racismo que afetam estas populações de forma específica.
4 – O facto dos imigrantes, na sua maioria, não poderem exercer o direito de voto em Portugal, apesar de serem residentes e contribuintes. Este dado é pertinente se tivermos em conta os entraves burocráticos que a maioria tem para aceder à nacionalidade. Isto faz com que muitas pessoas, algumas há mais de 20 anos em Portugal, com filhos nascidos no país sejam até hoje estrangeiros.
5 – Por último, e talvez a causa-resultado de todos os entraves, o racismo estrutural da sociedade portuguesa, que empurra os negros para a subalternidade cidadã e para a invisibilidade política.

O que leva as pessoas a participar?
– Ou o Desejo de manter as coisas como estão, ou a vontade de mudar o estado das coisas;
No caso da população de origem africana em Portugal as respostas são curiosas:
– Claro que a motivação de cada um é o motor-chave para se alcançar qualquer feito. Mas para que haja motivação é preciso que hajam expectativas. E pelo o que os afrodescendentes e os portugueses naturalizados negros dizem, a questão é que não sentem expectativas sobre a política portuguesa. As suas vidas não mudariam perante as propostas apresentadas pelos partidos e políticos; a sua voz não conta; os seus interessem não são válidos.

E o que poderia criar esta expectativa?
– Maior representatividade dos negros nas instituições nacionais e em lugares de visibilidade;
– Mudança nos discursos políticos, que raramente abordam as questões que afetam esta população e os seus familiares, como a lei da nacionalidade, como o racismo e a segregação, a violência policial, como a importância do voto dos negros, etc.
– Abertura dos partidos políticos a cidadãos negros e que os queiram colocar em cargos elegíveis.

– Qual o impacto de uma maior e mais visível participação política dos cidadãos de origem africana em Portugal?
– Reforço da democracia nacional, com uma maior participação da sua população; Ou seja, a participação política destes cidadãos contribui para a consolidação da democracia em Portugal.
– Reforço da democracia nacional e europeia pois esta população dificilmente elegerá partidos racistas de extrema direita que ameaçam a democracia europeia.

 

Sobre Joacine Katar Moreira: assistente de investigação no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL e membro da PADEMA – Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana.

 

Áudio 158 – Isabél Zuaa sobre ser atriz negra

“O maior talento é permanecer nesse meio que é tão hostil para corpos que são diferentes (…) Nós somos diferentes e temos que assumir essa diferença sem constrangimentos.” (Isabél Zuaa)

Isabél Zuaa nasceu de uma mãe angolana e de um pai da Guiné-Bissau em Lisboa.  Foi aqui que iniciou a carreira de atriz e bailarina e foi para o Brasil para alargar os seus horizontes e aprofundar a sua formação. Integrou-se no grupo de Gustavo Ciriaco e, no cinema, como coprotagonista do filme Joaquim. Aqui em Portugal faz parte do elenco da peça de teatro Moçambique , de Jorge Andrade, que ganhou o prémio de “Melhor Espectáculo”, da Sociedade Portuguesa de Autores e foi nomeada para os Globos de Ouro.