Áudio 142 – Tirso Sitoe Sobre Rap E Política Do Afeto – Maputo

Mais uma semana com uma entrevista a partir de Maputo. Desta vez, o nosso entrevistado é Tirso Sitoe, antropólogo e investigador do centro Kaleidoscopio, que tem feito investigação em áreas relacionadas com políticas públicas e cultura. O centro da sua pesquisa envolve a análise da música e dos fazedores de rap (música de crítica e protesto social) em Maputo/Moçambique.

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Áudio 65 – Nzualo Na Khumalo: Ensaios Fotográficos Em Maputo

Hoje o programa é feito pensando na nossa nova rubrica PékáPéLá, onde retratamos experiências em viagens ao continente mãe, África. Desta vez a viagem leva-nos a Moçambique, Maputo, onde conversei com Eliana Nzualo. Eliana é uma das fundadoras do blogue Nzualo Na’ Khumalo, onde ensaios fotográficos servem de base para contar estórias identitárias de duas jovens moçambicanas e não só. Vamos conhecer Eliana Nzaulo e o seu blogue!

 

PéKáPéLá: ALTO-MAÉ QUE MORA EM MIM

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Jovem moçambicano que podia ser um afrolisboeta, a meu ver [Carla Fernandes]!

Por Hirondina Joshua (Moçambique/Maputo)

O bairro onde moro foi atropelado pelo tempo que forçosamente nega-se a empacotar outros destinos. Chama-se “Alto”…Quando a chuva que lhe corre é fria não nas suas temperaturas, escorregadia como a brisa que se ventea nos buracos felizes destas ruas serpenteadas em areias ao invés de betão.

Chama-se “Alto”…Este habitat de “latas” novas trazidas por sei lá quem a este paraíso urbano sem nome em nós, queremo-lo assim entre-alma e carne, passageiro, nomes são significados que não significam nada. Além de mais não os sabemos ler nem escrever e se soubessemos isto menos significaria. Em nós há um bairro onde moramos e nos moramos, vivemos e morremos a cada milésimo de segundo. E isto basta-nos. Basta-nos.

Tenho um alto-maé que vive em mim

alto-maé de casas que testemunham o silêncio a fúria em cinza

das moças que vestem saias que demarcam fronteiras suspeitas

com os rapazes que ao invés de calças vestem “tchuna boys”

suas roupas interiores são mais curiosas que o mundo.

Há muitos alto-maés em mim,

das flores que transpiram a volúpia nocturna perto da pelé-pelé

das rotundas de jardins quadrados

da gente alegre e mais esperta da cidade (alto-maé não me deixa mentir)

nem suas mesquitas e igrejas calam a voz de Deus aqui onde o sol se senta

mesmo de noite

do negro mercado negro que devia se chamar lua ao invés de “estrela” pois nela embarcam todas ânsias daquelas gentes, muitas delas não daqui,

da padaria Moçambique que desde sempre alimentou a esperança de um melhor pão,

dos barulhos quentes dos ralis antes do fim de semana

do sapateiro que canta com o seu martelo abingalado

de alguém a escrever um verso que talvez não mude nada, mas um verso é um verso,

um verso é um universo

o inverso disto é que não era é humano

cada um com o seu alto-maé.

Este é o meu. Este foi o que me deram. Este é o que vejo e que me olha sempre.

De um outro não preciso.

Daqui consigo sentir a voz de todos alto-maenses

porque o som não tem gente na sua metafísica

nem um bairro existe quando não se tem por existir

repito: cada um com o seu alto-maé, e este meu é altíssimo em mim.