Áudio 161 – Doenças crónicas vs Doenças infecciosas em África

“A questão é que historicamente priorizou-se as [doenças] infecciosas e foi-se adotando uma atitude um bocado cega  em relação às doenças crónicas. Mas é preciso olhar para elas e dar uma resposta muito rápida (…) é preciso olhar para todas as doenças como prioridade.”

Combate a doenças crónicas em África são subfinanciadas, apesar das primeiras estarem a matar cada vez mais pessoas. Gefra Fulane faz um doutoramento em Conhecimento Tropical e Gestão, acolhido pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa,  e fala do exemplo do cancro do colo do útero, que mata metade das pessoas diagnosticadas em Moçambique.

 

Áudio 143 – Sobre Identidades: Sobre A Descendência Do Rei Gungunhana E Do Rei D. Carlos I

Yara Costa Pereira é moçambicana, realizadora e, de momento, realiza um filme que trata a questão da identidade, a partir da descendência de duas figuras que refletem tempos marcantes da História de Moçambique e de Portugal: o rei Gungunhana e o rei D. Carlos I.
Segundo Yara Costa Pereira, “Os dois [descendentes dos reis] são consequências contemporâneas de um passado colonial comum.” (Ilha de Moçambique)

Documentário de Yara Costa Pereira: Os Desterrados

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Áudio 142 – Tirso Sitoe Sobre Rap E Política Do Afeto – Maputo

Mais uma semana com uma entrevista a partir de Maputo. Desta vez, o nosso entrevistado é Tirso Sitoe, antropólogo e investigador do centro Kaleidoscopio, que tem feito investigação em áreas relacionadas com políticas públicas e cultura. O centro da sua pesquisa envolve a análise da música e dos fazedores de rap (música de crítica e protesto social) em Maputo/Moçambique.

Especial – Entrevista sobre documentário Behind the Lines (FRELIMO)

Behind the Lines é um dos mais emblemáticos filmes da luta armada da FRELIMO contra o colonialismo português em Moçambique. Foi filmado em 1970, no Niassa, quando a região foi alvo da ofensiva “Nó Górdio”, apresentando entrevistas com combatentes e quadros da FRELIMO, e procurando ilustrar a organização da vida civil nas áreas libertadas.”

Na sessão de apresentação de 2 de dezembro de 2016, no espaço Hangar, falámos com Margaret Dickinson, a realizadora do documentário. A entrevista esta em inglês mas deixamos aqui a transcrição para quem preferir ler em português.

RA: A Margaret Dickinson realizou um filme chamado Behind the Lines,  em Moçambique, nos anos de 1970…

MD: Sim, foi filmado em 1970 e publicado em 1971.

RA: Gostava que nos apresentasse a Margaret de 1970 e a Margaret de 2016.

MD: Em 1970, eu tinha… Devia ter 27 anos, não era assim tão jovem, trabalhava na indústria cinematográfica há algum tempo, e tinha estado a trabalhar de 1968 a 69 na Tanzânia com a FRELIMO na Tanzânia.

RA: E agora em 2016?

MD: Agora são uma mulher velha… [gargalhadas] Mas apesar de ser uma mulher velha ainda sou politizada, continuo a fazer filmes de uma forma mais modesta. Na realidade já me reformei do mercado comercial mas voltei a fazer filmes porque estou interessada em algo.

RA: Quando estava a ver o filme [Behind the Lines] achei muito interessante a forma como o filme retratou relações familiares, de género, educação e o crescimento de um sentido de nação. Uma das coisas que mais me interessou foi a ideia de comunidade e como as pessoas começaram a relacionar-se por causa deste ambiente de guerra. Pode falar sobre esse aspeto, a construção de uma comunidade?

MD: Sim, eu acho que quando diz um ambiente de guerra, o facto é que, antes da guerra, eles tinham tido um ambiente de colonialismo que já tinha produzido pressões dolorosas. O homem mais velho no filme fala de refugiados de Moçambique. Houve muitas ondas de moçambicanos a fugir para a Tanzânia, porque tendo o colonialismo britânico sido o mau, o colonialismo português foi pior ainda. Então as pessoas até fugiam de um mau governo para outro mau governo, mas é um indicativo do quão mau as coisas tinham sido antes da guerra. Então, não é tanto a guerra, e que quando o movimento de libertação se instalou nas províncias do norte,  acho que foram capazes de dar esperança às pessoas de lá, apesar do facto de as coisas estarem ainda mais difíceis porque havia uma guerra. Havia a possibilidade de que as dificuldades anteriores que eles tinham sofrido por causa do colonialismo pudessem mudar.

RA: E como descreveria a forma de organização nesse ambiente?

MD: Suponho que tenha sido uma organização clássica do tipo guerrilha, onde existe um número de unidades que operam de forma bastante independente. Mas não sou uma perita em assuntos militares, então, não sei exatamente como organizaram o exército. Mas, ao mesmo tempo, há uma forte tentativa de organizar a população civil em grupos políticos modernos, onde as pessoas teriam, em teoria, uma voz igual. Claro que tudo isto não acontece imediatamente, e as pessoas que estavam habituadas a dominar teriam continuado a dominar. Mas a FRELIMO tentou dar mais voz aos jovens e as mulheres.

RA: E a mulheres, exatamente. No filme foi mencionado que as mulheres também tinham acesso a educação, também tinham armas, também lutaram. Não estavam lá apenas para cozinhar, ou só para cuidar dos órfãos que recebiam. Havia um sentimento de igualdade ou as pessoas sentiam essa igualdade?

MD: Para ser honesta é difícil dizer porque não estive la o tempo suficiente e porque só falava português, não podia comunicar nas línguas das pessoas. Mas as mulheres sempre trabalharam muito, mas não se esperaria que as mulheres andassem com armas ou que tivessem uma voz política ou que fossem ouvidas em oposição aos homens. Então, é um problema diferente. E não sei até que ponto as mulheres no exército tinham uma palavra a dizer e o quanto elas…

RA: Mas no filme foi retratado como se as mulheres tivessem as mesmas oportunidades que os homens ou assumissem os mesmos papéis.

MD: Bem, papéis semelhantes. Não exatamente os mesmos. Até mesmo no filme nos ouvimos o que as mulheres estavam a dizer mas a tendência era que elas fizessem um trabalho social,  tratassem mais das crianças ou da organização de mulheres. Então não acho que elas fossem idênticas aos homens, mas seria possível se elas quisessem, ser como foi com a Josina Muthemba, a mulher de Samora Machel. Ela era uma grande líder militar na luta.

RA: Chegou a conhecê-la?

MA: Sim, conheci-a. Ela era uma mulher maravilhosa. Foi triste ela ter morrido tão jovem.

RA: E a motivação para fazer este filme? Achei muito honesto e interessante a Margaret ter dito no final [da apresentação] que foi um acidente…

MA: Ah, não, foi um acidente encontrar a FRELIMO. Isso aconteceu acidentalmente. Mas uma vez que isso aconteceu, fiquei muito envolvida. Tinha passado um ano a trabalhar com a FRELIMO, tinha amigos la e sentia um compromisso para com a causa deles. O que queria dizer é que não teria saído à procura deles [da guerrilha no terreno] porque não imaginava que poderia ajudá-los. Mas quando os encontrei, sim, quis fazer qualquer coisa que fosse útil.

RA: Depois do filme, estava ansiosa por mostrá-lo ao mundo? Onde foi exibido?

MA: Sim, claro. E uma grande luta fazer um filme em fita, na altura, e o objetivo era ajudar a luta de libertação, então, sim, queria muito mostrá-lo.  Fiquei desapontada com o filme, porque não conseguimos fazer o que queríamos fazer. Tivemos de trabalhar às pressas e parecia a muitos outros filmes de guerrilhas, onde andamos com a guerrilha, vemos um pouco do programa que fazem com os civis e parece que não é muito profundo. Mas mesmo assim, eu sabia que ia ser útil e foi muito útil. Alertou pessoas para a existência da luta e ajudou a conseguir apoios, então gostei de exibi-lo.

RA: No final, o filme foi essencialmente, um instrumento de luta também, no sentido em que alertou pessoas e deu-lhes a possibilidade dar o seu apoio.

MD: Sim. E importante saber que o filme não teria existido se não houvesse já um movimento político de solidariedade forte que fez a realização do filme parecer algo pertinente, porque depois eles poderia certificar-se de que seria visto. E quando foi feito, eles asseguraram a sua exibição.

RA: Quem assegurou que o filme tenha sido visto e onde foi visto?

MA: Inicialmente havia o Comité para a Liberdade em Moçambique, Guiné e Angola [Committee for Freedom in Mozambique, Guinea and Angola], que era um movimento britânico solidário com as lutas de libertação das colónias portuguesas. Mas mais ou menos ao mesmo tempo, possivelmente uma imitação, houve movimentos semelhantes a formar-se no Canada, na Holanda maior parte de países na Escandinávia e eventualmente em França e na Alemanha. Então havia a possibilidade de mostrar [o filme] por toda a Europa.

RA: E aqui em Portugal, foi dito que o filme foi mostrado há cinco anos num Festival, DocLisboa, e agora foi mostrado aqui [na sessão de exibição do filme no Hangar 2/12/16]. Quer dizer que o filme só foi mostrado 2 vezes aqui [em Portugal]?

MA: A não ser que alguém tenha mostrado, pelo que sei, sim, foram as únicas duas vezes que foi mostrado em Portugal.

RA: E em Moçambique foi exibido lá?

MA: Sim, claro. Assim que veio a independência foram-lhes dadas copias.

RA: E qual foi o feedback? Teve acesso ao público quando o filme foi exibido?

MA: Sim, foi bastante emocional. Alguns ex-combatentes vieram e algumas lágrimas foram derramadas.

RA: Qual a avaliação que faz do seu filme, tendo em consideração as varias apresentações feitas ao longo dos anos?

MA: Em alguns aspetos agora sinto-me melhor porque as vezes, filmes, assim como o vinho, melhoram com a idade. Tornam-se algo raro. Torna-se mais difícil compreender aquele período sem ver um filme, então, apesar de todos os seu defeitos, parece trazer algo de útil agora. Na altura também foi útil, mas eu estava mais consciente do facto de não estar a apresentar o suficiente. Mas aquilo que apresenta gora, porque não existe tanto material. Tem um outro tipo de utilidade.

 

 

 

 

 

 

Áudio 72 – Mikas cria novas formas de saborear a noite lisboeta

“Eu gosto do lado da aventura, porque estimula essa necessidade de fazeres diferente, de marcares a diferença! (…)”

Mikas é um nome simples, a sua forma de estar é igualmente simples. Mas o que estará por detrás do Mikas empreendedor? Hoje vamos conversar com um moçambicano empreendedor que tem mudado a noite Lisboeta há décadas, seja através de restaurantes com comida de fusão ou bares nocturnos com uma programação variada e alternativa. O Bicaense, a Velha Senhora, Restaurante Costa do Castelo, Clube Ferroviário, só para menciona alguns locais, fazem parte da lista de espaços impulsionados ou dinamizados por Mikas. Recentemente o bar A Tabacaria na Rua de São Paulo n° 75-77 juntou-se a estes nomes de referencia. Recomenda-se!

Áudio 65 – Nzualo Na Khumalo: Ensaios Fotográficos Em Maputo

Hoje o programa é feito pensando na nossa nova rubrica PékáPéLá, onde retratamos experiências em viagens ao continente mãe, África. Desta vez a viagem leva-nos a Moçambique, Maputo, onde conversei com Eliana Nzualo. Eliana é uma das fundadoras do blogue Nzualo Na’ Khumalo, onde ensaios fotográficos servem de base para contar estórias identitárias de duas jovens moçambicanas e não só. Vamos conhecer Eliana Nzaulo e o seu blogue!

 

PéKáPéLá: ALTO-MAÉ QUE MORA EM MIM

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Jovem moçambicano que podia ser um afrolisboeta, a meu ver [Carla Fernandes]!

Por Hirondina Joshua (Moçambique/Maputo)

O bairro onde moro foi atropelado pelo tempo que forçosamente nega-se a empacotar outros destinos. Chama-se “Alto”…Quando a chuva que lhe corre é fria não nas suas temperaturas, escorregadia como a brisa que se ventea nos buracos felizes destas ruas serpenteadas em areias ao invés de betão.

Chama-se “Alto”…Este habitat de “latas” novas trazidas por sei lá quem a este paraíso urbano sem nome em nós, queremo-lo assim entre-alma e carne, passageiro, nomes são significados que não significam nada. Além de mais não os sabemos ler nem escrever e se soubessemos isto menos significaria. Em nós há um bairro onde moramos e nos moramos, vivemos e morremos a cada milésimo de segundo. E isto basta-nos. Basta-nos.

Tenho um alto-maé que vive em mim

alto-maé de casas que testemunham o silêncio a fúria em cinza

das moças que vestem saias que demarcam fronteiras suspeitas

com os rapazes que ao invés de calças vestem “tchuna boys”

suas roupas interiores são mais curiosas que o mundo.

Há muitos alto-maés em mim,

das flores que transpiram a volúpia nocturna perto da pelé-pelé

das rotundas de jardins quadrados

da gente alegre e mais esperta da cidade (alto-maé não me deixa mentir)

nem suas mesquitas e igrejas calam a voz de Deus aqui onde o sol se senta

mesmo de noite

do negro mercado negro que devia se chamar lua ao invés de “estrela” pois nela embarcam todas ânsias daquelas gentes, muitas delas não daqui,

da padaria Moçambique que desde sempre alimentou a esperança de um melhor pão,

dos barulhos quentes dos ralis antes do fim de semana

do sapateiro que canta com o seu martelo abingalado

de alguém a escrever um verso que talvez não mude nada, mas um verso é um verso,

um verso é um universo

o inverso disto é que não era é humano

cada um com o seu alto-maé.

Este é o meu. Este foi o que me deram. Este é o que vejo e que me olha sempre.

De um outro não preciso.

Daqui consigo sentir a voz de todos alto-maenses

porque o som não tem gente na sua metafísica

nem um bairro existe quando não se tem por existir

repito: cada um com o seu alto-maé, e este meu é altíssimo em mim.

Nós Nos Livros: “Sangue Negro” de Noémia de Souza

Eu acho importante ler este livro porque…

por Hirondina Joshua

Um livro que me fez viajar sem sair do sítio foi: ” Sangue Negro ” de Noémia de Sousa, poeta moçambicana.
É um livro de poemas ou atrevo-me: é um livro de poesia.
Que assenta na realidade diária, tem uma forte expressão coloquial. Poesia de combate mas que ao mesmo nos traz intimidade, privacidade do quotidiano da autora. Nota-se nele o “modus vivendi” das pessoas que a cercavam e mais particularmente o meio envolvente.
Textos que passamos disso, afinal contam a História de um povo, a vida das gentes diversas unidas por uma só força. A força de viver e ver a vida mais digna com respeito aos Direitos Humanos.
Poesia do quotidiano, mas com alma divina e para seres humanos que na verdade buscam afinal um pouco do que têm dentro: a bondade, a justiça e a misericórdia.

DEIXA PASSAR O MEU POVO

Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimbas chegam até mim
— certos e constantes —
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar…
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Maria cantam para mim
spirituals negros do Harlem.
Let my people go
Snague Negro— oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo –,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
Let my people go.

Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo…
(Dentro de mim,
oh let my people go…)
deixa passar o meu povo.

E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda — minha Irmã.

Escrevo…
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada de Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças,
algodoais, e meu inesquecível companheiro branco,
e Zé — meu irmão — e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Noemia de SouzaTodos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso do rádio
— let my people go,
oh let my people go.

E enquanto me vierem do Harlem
vozes de lamentação
e meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insônia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Marian gritando comigo:
Let my people go,
OH DEIXA PASSAR O MEU POVO.