Entrevista com Realizadora Ike Bertels sobre o filme “Guerrilla Grannies

**Áudio em inglês

Rádio AfroLis (RA): Obrigada Ike por falar com a AfroLis sobre o filme que trouxe [ao Festival Rotas e Rituais], ”Guerrilla Grannies”. Pode falar-me um pouco sobre o filme, do que trata o filme?

Ike Bertels (IB): É a história de três mulheres da guerrilha que vi num filme quando eu própria era muito jovem. Tinha visto, por acaso, um filme sobre uma guerra de guerrilha em Moçambique e a maior parte desses filmes de guerra eram sobre homens que libertaram o país e neste filme havia três mulheres sentadas no mato com as suas espingardas e falaram sobre o que estavam a fazer e porquê. E elas estavam tão entusiasmadas e cheias de esperança e acreditavam que eram capazes, juntamente com os homens, de mudar o mundo, de mudar o seu mundo, de mudar Moçambique que foi colonizado por muito tempo e tornar-se independentes. Eu fiquei impressionada com isso porque eu própria era jovem e queria libertar-me da vida em que vivíamos e fiquei tocada por elas. Depois de ver o filme fiquei a pensar no que teria acontecida a estas três mulheres, então fui procura-las. Eu vivo na Holanda e é longe, então levei muito tempo para descobrir. Se elas ainda estavam vivas e onde viviam.

RA: Depois de vermos o filme, disse que esta foi uma viagem em três fases. Esta foi primeira fase, qual foi a segunda?

IB: A primeira fase foi um filme que fiz em 1984, que se chamava “Mulheres da Revolução” [“Women of the revolution”]. Foi um filme onde tentei retratá-las com as imagens que tinha visto. Então mostrei-lhes num cinema, às três mulheres, depois da independência, eu vi com elas como elas eram quando eram jovens. Este foi o ponto de partida para falar sobre os seus ideais e no que eles se tinham tornado.

Depois de 1984, quando terminei o filme, a vida delas mudou porque houve uma nova guerra. A guerra civil que se iniciou entre os dois grupos políticos a FRELIMO, principal partido,  e a RENAMO. Durante a guerra eu não podia encontrar-me com elas, estas mulheres que tinha filmado e de quem tinha gostado tanto, então, depois da guerra fui vê-las e pensei que seria importante fazer outro filme sobre elas.

 

guerrilla_granniecopiaQuando fui a segunda vez, ficámos mais próximas umas das outras. Elas ficaram impressionadas por eu ter querido voltar. E, depois, voltei a Moçambique por um outro motivo e quis encontrar-me com elas, novamente, e nessa altura fui mesmo convidada para as suas casas e para conhecer as suas famílias. E, a partir daí, encontrávamo-nos todos os anos. Eu ia lá todos os anos para vê-las. Depois disso decidi que tinha de fazer um terceiro filme porque assim tinha a imagem completa. A situação em Moçambique era uma história paralela às vidas delas, às suas lutas.

RA: De que modo é que este filme mudou a sua maneira de olhar para as mulheres em África ou para as mulheres em geral?

IB: Durante o primeiro filme que fiz, estava impressionada e admirava-as porque elas tinha feito uma coisa tão maravilhosa. Mas vivi com elas a fase da desilusão por não terem conseguido cumprir o sonho por completo e terem de lidar com a realidade, mesmo sendo uma má realidade, então, aprendi com isso. Também aprendi com a força delas a nunca desistir, continuar. O que também achei muito importante, para mim, foi a forma como elas mostraram que podiam continuar a viver sem o apoio de homens, mesmo estando sozinhas a cuidar, não só da própria família, mas da família alargada. A Amélia é um bom exemplo com a sua pequena machamba (horta). Ela alimentava uma família grande, de trinta pessoas. Para mim isso foi incrível e faz-te ficar humilde e pensar que é um bom exemplo para todas as mulheres, estejas em África ou no norte.

RA: Agora só para resumir, estivemos sempre a falar “delas”, mas na realidade,  acabou de dizer  o nome de uma delas, Amélia. Mas gostaria que descrevesse cada uma delas. Eu vou dizer o nome e queria que me desse três adjetivos para cada uma delas.  Não sei se é difícil descrevê-las com apenas três adjetivos, mas essa seria a minha sugestão. Se sentir que precisa de alargar a explicação pode fazê-lo. Vou começar pela Amélia:

IB: A Amélia é uma mulher, dura, cheia de humor, fuma muito e é muito severa com os homens.

RA: Maria?

IB: A Maria é uma mulher muito inteligente mas burguesa, que consegue sempre encontrar uma forma de melhorar a sua vida e a da sua família.

RA: E agora, vamos falar sobre a Mónica, a única que ainda está viva.

IB: A Mónica é uma agricultora, apesar de não praticar a agricultura, no sentido em que tem opiniões fortes e bem assentes na terra. Ela é uma mulher muito forte e terra a terra. Ela também tem um tipo de humor muito peculiar que não é muito fácil de compreender porque ela tem um sentido de liderança natural, e se ela sente que tu és uma pessoa igualmente forte, ela gosta de entrar em “combate”.

RA: Se tivesse de convidar as pessoas a verem o filme o que diria?

IB: Eu diria que estas três mulheres, por elas próprias significarem tanto e viverem uma vida normal com as suas famílias, pode mostrar-nos algo sobre a vida em África que não vemos frequentemente. E também por causa do tempo que passamos com elas, porque as vemos a mudar e a crescer e a lidar com dificuldades. O que também gostei foi que tive a oportunidade de contar histórias paralelas através das quais também podemos ver o crescimento de um país que se torna independente e com as mesmas lutas e os mesmos problemas que elas sentem pessoalmente.

 

 

 

Manuel Roberto sobre exposição “Filhos Do Vento”

Manuel Roberto é de origem moçambicana e é fotojornalista do jornal Público. No Rotas & Rituais, apresenta a exposição “Filhos do Vento” (22-29 de maio 2015). As imagens são da sua autoria e fazem parte de duas reportagens inéditas divulgadas pelo jornal Público, de autoria de Catarina Gomes, com imagens-vídeos de Ricardo Rezende.

Especial Rotas & Rituais 2015

programa Rotas e rituaisO Rotas & Rituais 2015 convida-nos a refletir sobre o significado das independências dos nossos países, subjugados ao domínio português: Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé  e Princípe. Passaram-se 40 anos mas estas independências ainda não são plenas e as lutas para as alcançar ganham novas formas. É este percurso que vai ser discutido em conferências, observado em filmes, questionado e festejado com música.

A AfroLis vai acompanhar e documentar o Rotas & Rituais 2015 a decorrer no Cinema S. Jorge de 22 a 29 de maio. A organização é da EGEAC, empresa municipal da cidade de Lisboa responsável pela Gestão de Equipamentos e Animação Cultural.

Dia 29

Os Tubarões apresentados por Mário Bettencourt (ver artigo)

Dia 28

Ghorwane no Rotas & Rituais, apresentado por Roberto Chitsondzo (ver artigo)

Dia 27

Nástio Mosquito No Rotas & Rituais (ver artigo)

“Brothers e sisters, vamos nos pôr a caminho! E no caminho, tenho a certeza que vamos descobrir soluções, parceiros, companheiros, colegas, amigos, colaboradores e sócios que nos vão ajudar a construir esse sonho, e a materializar as coisas que circulam na nossa cabeça à noite e nós não contamos a ninguém.”

 

Dia 24

Entrevista com Realizadora Ike Bertels sobre o filme “Guerrilla Grannies”

“É a história de três mulheres da guerrilha que vi num filme quando eu própria era muito jovem. Tinha visto, por acaso, um filme sobre uma guerra de guerrilha em Moçambique e a maior parte desses filmes de guerra eram sobre homens que libertaram o país e neste filme havia três mulheres sentadas no mato com as suas espingardas (…)” Ler mais

 

Conferencia “Como fazer futuro hoje”

General D foi convidado a trazer novas vozes de afrodescendentes para falar sobre novos desafios daquelas comunidades.

 

Dia 23

No dia da inauguração da exposição “Filhos do Vento” (22-29 de maio 2015) com fotos de Manuel Roberto, a AfroLis quis saber a opinião dos visitantes. As imagens são da sua autoria e fazem parte de duas reportagens inéditas divulgadas pelo jornal Público, da autoria de Catarina Gomes e imagens-vídeo de Ricardo Rezende.

O que dizem os visitantes do Rotas & Rituais sobre a exposição “Os Filhos do Vento”?

 

Dia 22 de Maio

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Clicar para ouvir – Entrevista: Manuel Roberto é de origem moçambicana e é fotojornalista do jornal Público. No Rotas & Rituais, apresenta a exposição “Filhos do Vento” (22-29 de maio 2015). As imagens são da sua autoria e fazem parte de duas reportagens inéditas divulgadas pelo jornal Público, da autoria de Catarina Gomes e imagens-vídeo de Ricardo Rezende.

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Logo Rotas RituaisClicar para ouvir –  Áudio 58 – Rotas e Rituais: 40 anos de independências africanas cá e lá 

Entrevista com Paula Nunes, programadora do Festival Rotas e Rituais onde as questões que se levantam trazem uma reflexão sobre o que representa o colonialismo hoje e problematizam a construção de um futuro comum a partir desse passado. “Labanta braço, grita bô liberdadi” (Levanta o braço, grita a tua liberdade) é o mote do Ritos e Rituais 2015.

Áudio 58 – Rotas e Rituais: 40 anos de independências africanas cá e lá

Paula Nunes é a programadora do Festival Rotas e Rituais que decorre entre 22 e 29 de maio. As questões que levanta trazem uma reflexão sobre o que representa o colonialismo hoje e problematizam a construção de um futuro comum a partir desse passado. “Labanta braço, grita bô liberdadi” (Levanta o braço, grita a tua liberdade) é o mote do Ritos e Rituais 2015. Este festival é organizado pela EGEAC, empresa municipal da cidade de Lisboa responsável pela Gestão de Equipamentos e Animação Cultural.

programa Rotas e rituais

Áudio 40 – “Xindiru”, girando com a música de André Cabaço

O nosso convidado de hoje é André Cabaço, músico moçambicano, nascido em Maputo. André Cabaço veio para Portugal nos anos 80 e lança uma campanha de crowdfunding para financiar o seu álbum a solo “Xindiru” – um “albúm de fusão entre Moçambique e a Europa”.André Cabaço já participou em vários projectos musicais como “Saudades” ao lado de Vitorino, Janita Salomé e Filipa Pais, “Sons da fala” com músicos dos PALOP, Brasil e Portugal como Filipe Mukenga, Juca, Guto Pires, Tito Paris, Sérgio Godinho, Vitorino e Janita Salomé. Mais recentemente, participou no álbum de Tora Tora Big Band, nos “Sons da Lusofonia”, por exemplo.

Vamos apoiar os músicos africanos em Portugal a documentar o seu trabalho!

Participa na campanha de Crowdfunding para o “Xindiru”, álbum de estreia de André Cabaço. É só clicar no link abaixo e seguir as instruções.

http://ppl.com.pt/pt/prj/andre-cabaco

Áudio 22 – “Há uma certa emancipação a nível visual na moda afro…”, Celeste Cambaza

Celeste Cambaza é designer de moda porque foi cantora. Atualmente é uma blogger que fotografa é fotografada! Saibam mais sobre esta jovem moçambicana que passou pelo Porto, Lisboa e agora vive em Estocolmo. Estranhamente, todas estas cidades europeias fizeram com que Celeste fosse descobrindo cada vez mais facetas da sua identidade africana.

Visitem o Blogue de Celeste Cambaza em:

http://www.dumbanenguebyceleste.blogspot.de/

 

 

 

Áudio 18 – Elsa Noronha “apresenta-se à lua” após 80 anos

Elsa Noronha, a dizedora de poesia de origem moçambicana, celebra os seus 80 anos no dia 22 de Agosto de 2014, pelas 21:30, na Livraria Ler Devagar. É uma celebração muito especial para Elsa e, por isso, quer partilhá-lo com todos os amantes de poesia como ela própria No programa de hoje vamos também ter acesso a memórias e aspirações desta dizedora de poesia afrolisboeta.

  • Inscrição para o aniversário de Elsa Noronha – ligar para 919949333 até ao dia 18 de Agosto.

 

Poema da semana: “Africana”, de Sónia Sultuane

Africana

dizes que me querias sentir africana,
dizes e pensas que não o sou,
só porque não uso capulana,
porque não falo changana,
porque não uso missiri nem missangas,
deixa-me rir…
mas quem é que te disse?!
Só porque ando de “Levis, Gucci ou Diesel”,
não o sou… será?
Será que o meu sentir passa pela indumentária?
Ou que o serei
pelo sangue que me corre nas veias,
negro, árabe, indiano,
essa mistura exótica,
que me faz filha de um continente em tantos
onde todos se misturam,
e que me trazem esta profundidade,
mais forte que a indumentária ou a fala,
e sabes porquê?
Porque visto, falo, respiro, sinto e cheiro a África,
afinal o que é que tu saberás? O que é que tu sabes?
Deixa-me rir…
deixa-me rir…

Áudio 14 – A escritora moçambicana, Sónia Sultuane, “não seria quem é sem a arte”

Desta vez  a AfroLis tem uma visitante, a escritora e artista plástica moçambicana Sónia Sultuane. A artista não vive em Lisboa mas esteve na capital portuguesa para receber um prémio muito especial no VII Encontro de Escritores Moçambicanos que se realizou aqui em Lisboa no mês de junho.  Delmar Gonçalves, Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, poeta e Curador dos Encontros de Escritores Moçambicanos na Diáspora.

 

 

 

 

Áudio 2 – Elsa Noronha, a dizedora de poesia

Elsa Noronha

Elsa de Noronha [foto: Poetas Sem Rede]

Elsa Noronha é moçambicana, dizedora de poesia e veio pela primeira vez para Lisboa na década de 1950. Estudou contabilidade em Lisboa e regressou ao seu país de origem, onde ficou alguns anos após o povo moçambicano ter-se libertado da colonização portuguesa. Regressou a Lisboa em 1977 e começou a dizer poesia em escolas e depois em bares. Desde então dá a conhecer poetas moçambicanos, portugueses e não só, um pouco por toda a cidade de Lisboa. Vamos conhecer a história desta afrolisboeta!