PéKáPéLá: ALTO-MAÉ QUE MORA EM MIM

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Jovem moçambicano que podia ser um afrolisboeta, a meu ver [Carla Fernandes]!

Por Hirondina Joshua (Moçambique/Maputo)

O bairro onde moro foi atropelado pelo tempo que forçosamente nega-se a empacotar outros destinos. Chama-se “Alto”…Quando a chuva que lhe corre é fria não nas suas temperaturas, escorregadia como a brisa que se ventea nos buracos felizes destas ruas serpenteadas em areias ao invés de betão.

Chama-se “Alto”…Este habitat de “latas” novas trazidas por sei lá quem a este paraíso urbano sem nome em nós, queremo-lo assim entre-alma e carne, passageiro, nomes são significados que não significam nada. Além de mais não os sabemos ler nem escrever e se soubessemos isto menos significaria. Em nós há um bairro onde moramos e nos moramos, vivemos e morremos a cada milésimo de segundo. E isto basta-nos. Basta-nos.

Tenho um alto-maé que vive em mim

alto-maé de casas que testemunham o silêncio a fúria em cinza

das moças que vestem saias que demarcam fronteiras suspeitas

com os rapazes que ao invés de calças vestem “tchuna boys”

suas roupas interiores são mais curiosas que o mundo.

Há muitos alto-maés em mim,

das flores que transpiram a volúpia nocturna perto da pelé-pelé

das rotundas de jardins quadrados

da gente alegre e mais esperta da cidade (alto-maé não me deixa mentir)

nem suas mesquitas e igrejas calam a voz de Deus aqui onde o sol se senta

mesmo de noite

do negro mercado negro que devia se chamar lua ao invés de “estrela” pois nela embarcam todas ânsias daquelas gentes, muitas delas não daqui,

da padaria Moçambique que desde sempre alimentou a esperança de um melhor pão,

dos barulhos quentes dos ralis antes do fim de semana

do sapateiro que canta com o seu martelo abingalado

de alguém a escrever um verso que talvez não mude nada, mas um verso é um verso,

um verso é um universo

o inverso disto é que não era é humano

cada um com o seu alto-maé.

Este é o meu. Este foi o que me deram. Este é o que vejo e que me olha sempre.

De um outro não preciso.

Daqui consigo sentir a voz de todos alto-maenses

porque o som não tem gente na sua metafísica

nem um bairro existe quando não se tem por existir

repito: cada um com o seu alto-maé, e este meu é altíssimo em mim.

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Nós Nos Livros: “Sangue Negro” de Noémia de Souza

Eu acho importante ler este livro porque…

por Hirondina Joshua

Um livro que me fez viajar sem sair do sítio foi: ” Sangue Negro ” de Noémia de Sousa, poeta moçambicana.
É um livro de poemas ou atrevo-me: é um livro de poesia.
Que assenta na realidade diária, tem uma forte expressão coloquial. Poesia de combate mas que ao mesmo nos traz intimidade, privacidade do quotidiano da autora. Nota-se nele o “modus vivendi” das pessoas que a cercavam e mais particularmente o meio envolvente.
Textos que passamos disso, afinal contam a História de um povo, a vida das gentes diversas unidas por uma só força. A força de viver e ver a vida mais digna com respeito aos Direitos Humanos.
Poesia do quotidiano, mas com alma divina e para seres humanos que na verdade buscam afinal um pouco do que têm dentro: a bondade, a justiça e a misericórdia.

DEIXA PASSAR O MEU POVO

Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimbas chegam até mim
— certos e constantes —
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar…
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Maria cantam para mim
spirituals negros do Harlem.
Let my people go
Snague Negro— oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo –,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
Let my people go.

Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo…
(Dentro de mim,
oh let my people go…)
deixa passar o meu povo.

E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda — minha Irmã.

Escrevo…
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada de Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças,
algodoais, e meu inesquecível companheiro branco,
e Zé — meu irmão — e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Noemia de SouzaTodos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso do rádio
— let my people go,
oh let my people go.

E enquanto me vierem do Harlem
vozes de lamentação
e meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insônia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Marian gritando comigo:
Let my people go,
OH DEIXA PASSAR O MEU POVO.

Entrevista com Realizadora Ike Bertels sobre o filme “Guerrilla Grannies

**Áudio em inglês

Rádio AfroLis (RA): Obrigada Ike por falar com a AfroLis sobre o filme que trouxe [ao Festival Rotas e Rituais], ”Guerrilla Grannies”. Pode falar-me um pouco sobre o filme, do que trata o filme?

Ike Bertels (IB): É a história de três mulheres da guerrilha que vi num filme quando eu própria era muito jovem. Tinha visto, por acaso, um filme sobre uma guerra de guerrilha em Moçambique e a maior parte desses filmes de guerra eram sobre homens que libertaram o país e neste filme havia três mulheres sentadas no mato com as suas espingardas e falaram sobre o que estavam a fazer e porquê. E elas estavam tão entusiasmadas e cheias de esperança e acreditavam que eram capazes, juntamente com os homens, de mudar o mundo, de mudar o seu mundo, de mudar Moçambique que foi colonizado por muito tempo e tornar-se independentes. Eu fiquei impressionada com isso porque eu própria era jovem e queria libertar-me da vida em que vivíamos e fiquei tocada por elas. Depois de ver o filme fiquei a pensar no que teria acontecida a estas três mulheres, então fui procura-las. Eu vivo na Holanda e é longe, então levei muito tempo para descobrir. Se elas ainda estavam vivas e onde viviam.

RA: Depois de vermos o filme, disse que esta foi uma viagem em três fases. Esta foi primeira fase, qual foi a segunda?

IB: A primeira fase foi um filme que fiz em 1984, que se chamava “Mulheres da Revolução” [“Women of the revolution”]. Foi um filme onde tentei retratá-las com as imagens que tinha visto. Então mostrei-lhes num cinema, às três mulheres, depois da independência, eu vi com elas como elas eram quando eram jovens. Este foi o ponto de partida para falar sobre os seus ideais e no que eles se tinham tornado.

Depois de 1984, quando terminei o filme, a vida delas mudou porque houve uma nova guerra. A guerra civil que se iniciou entre os dois grupos políticos a FRELIMO, principal partido,  e a RENAMO. Durante a guerra eu não podia encontrar-me com elas, estas mulheres que tinha filmado e de quem tinha gostado tanto, então, depois da guerra fui vê-las e pensei que seria importante fazer outro filme sobre elas.

 

guerrilla_granniecopiaQuando fui a segunda vez, ficámos mais próximas umas das outras. Elas ficaram impressionadas por eu ter querido voltar. E, depois, voltei a Moçambique por um outro motivo e quis encontrar-me com elas, novamente, e nessa altura fui mesmo convidada para as suas casas e para conhecer as suas famílias. E, a partir daí, encontrávamo-nos todos os anos. Eu ia lá todos os anos para vê-las. Depois disso decidi que tinha de fazer um terceiro filme porque assim tinha a imagem completa. A situação em Moçambique era uma história paralela às vidas delas, às suas lutas.

RA: De que modo é que este filme mudou a sua maneira de olhar para as mulheres em África ou para as mulheres em geral?

IB: Durante o primeiro filme que fiz, estava impressionada e admirava-as porque elas tinha feito uma coisa tão maravilhosa. Mas vivi com elas a fase da desilusão por não terem conseguido cumprir o sonho por completo e terem de lidar com a realidade, mesmo sendo uma má realidade, então, aprendi com isso. Também aprendi com a força delas a nunca desistir, continuar. O que também achei muito importante, para mim, foi a forma como elas mostraram que podiam continuar a viver sem o apoio de homens, mesmo estando sozinhas a cuidar, não só da própria família, mas da família alargada. A Amélia é um bom exemplo com a sua pequena machamba (horta). Ela alimentava uma família grande, de trinta pessoas. Para mim isso foi incrível e faz-te ficar humilde e pensar que é um bom exemplo para todas as mulheres, estejas em África ou no norte.

RA: Agora só para resumir, estivemos sempre a falar “delas”, mas na realidade,  acabou de dizer  o nome de uma delas, Amélia. Mas gostaria que descrevesse cada uma delas. Eu vou dizer o nome e queria que me desse três adjetivos para cada uma delas.  Não sei se é difícil descrevê-las com apenas três adjetivos, mas essa seria a minha sugestão. Se sentir que precisa de alargar a explicação pode fazê-lo. Vou começar pela Amélia:

IB: A Amélia é uma mulher, dura, cheia de humor, fuma muito e é muito severa com os homens.

RA: Maria?

IB: A Maria é uma mulher muito inteligente mas burguesa, que consegue sempre encontrar uma forma de melhorar a sua vida e a da sua família.

RA: E agora, vamos falar sobre a Mónica, a única que ainda está viva.

IB: A Mónica é uma agricultora, apesar de não praticar a agricultura, no sentido em que tem opiniões fortes e bem assentes na terra. Ela é uma mulher muito forte e terra a terra. Ela também tem um tipo de humor muito peculiar que não é muito fácil de compreender porque ela tem um sentido de liderança natural, e se ela sente que tu és uma pessoa igualmente forte, ela gosta de entrar em “combate”.

RA: Se tivesse de convidar as pessoas a verem o filme o que diria?

IB: Eu diria que estas três mulheres, por elas próprias significarem tanto e viverem uma vida normal com as suas famílias, pode mostrar-nos algo sobre a vida em África que não vemos frequentemente. E também por causa do tempo que passamos com elas, porque as vemos a mudar e a crescer e a lidar com dificuldades. O que também gostei foi que tive a oportunidade de contar histórias paralelas através das quais também podemos ver o crescimento de um país que se torna independente e com as mesmas lutas e os mesmos problemas que elas sentem pessoalmente.

 

 

 

Especial Rotas & Rituais 2015

programa Rotas e rituaisO Rotas & Rituais 2015 convida-nos a refletir sobre o significado das independências dos nossos países, subjugados ao domínio português: Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé  e Princípe. Passaram-se 40 anos mas estas independências ainda não são plenas e as lutas para as alcançar ganham novas formas. É este percurso que vai ser discutido em conferências, observado em filmes, questionado e festejado com música.

A AfroLis vai acompanhar e documentar o Rotas & Rituais 2015 a decorrer no Cinema S. Jorge de 22 a 29 de maio. A organização é da EGEAC, empresa municipal da cidade de Lisboa responsável pela Gestão de Equipamentos e Animação Cultural.

Dia 29

Os Tubarões apresentados por Mário Bettencourt (ver artigo)

Dia 28

Ghorwane no Rotas & Rituais, apresentado por Roberto Chitsondzo (ver artigo)

Dia 27

Nástio Mosquito No Rotas & Rituais (ver artigo)

“Brothers e sisters, vamos nos pôr a caminho! E no caminho, tenho a certeza que vamos descobrir soluções, parceiros, companheiros, colegas, amigos, colaboradores e sócios que nos vão ajudar a construir esse sonho, e a materializar as coisas que circulam na nossa cabeça à noite e nós não contamos a ninguém.”

 

Dia 24

Entrevista com Realizadora Ike Bertels sobre o filme “Guerrilla Grannies”

“É a história de três mulheres da guerrilha que vi num filme quando eu própria era muito jovem. Tinha visto, por acaso, um filme sobre uma guerra de guerrilha em Moçambique e a maior parte desses filmes de guerra eram sobre homens que libertaram o país e neste filme havia três mulheres sentadas no mato com as suas espingardas (…)” Ler mais

 

Conferencia “Como fazer futuro hoje”

General D foi convidado a trazer novas vozes de afrodescendentes para falar sobre novos desafios daquelas comunidades.

 

Dia 23

No dia da inauguração da exposição “Filhos do Vento” (22-29 de maio 2015) com fotos de Manuel Roberto, a AfroLis quis saber a opinião dos visitantes. As imagens são da sua autoria e fazem parte de duas reportagens inéditas divulgadas pelo jornal Público, da autoria de Catarina Gomes e imagens-vídeo de Ricardo Rezende.

O que dizem os visitantes do Rotas & Rituais sobre a exposição “Os Filhos do Vento”?

 

Dia 22 de Maio

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Clicar para ouvir – Entrevista: Manuel Roberto é de origem moçambicana e é fotojornalista do jornal Público. No Rotas & Rituais, apresenta a exposição “Filhos do Vento” (22-29 de maio 2015). As imagens são da sua autoria e fazem parte de duas reportagens inéditas divulgadas pelo jornal Público, da autoria de Catarina Gomes e imagens-vídeo de Ricardo Rezende.

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Logo Rotas RituaisClicar para ouvir –  Áudio 58 – Rotas e Rituais: 40 anos de independências africanas cá e lá 

Entrevista com Paula Nunes, programadora do Festival Rotas e Rituais onde as questões que se levantam trazem uma reflexão sobre o que representa o colonialismo hoje e problematizam a construção de um futuro comum a partir desse passado. “Labanta braço, grita bô liberdadi” (Levanta o braço, grita a tua liberdade) é o mote do Ritos e Rituais 2015.

Áudio 58 – Rotas e Rituais: 40 anos de independências africanas cá e lá

Paula Nunes é a programadora do Festival Rotas e Rituais que decorre entre 22 e 29 de maio. As questões que levanta trazem uma reflexão sobre o que representa o colonialismo hoje e problematizam a construção de um futuro comum a partir desse passado. “Labanta braço, grita bô liberdadi” (Levanta o braço, grita a tua liberdade) é o mote do Ritos e Rituais 2015. Este festival é organizado pela EGEAC, empresa municipal da cidade de Lisboa responsável pela Gestão de Equipamentos e Animação Cultural.

programa Rotas e rituais