Áudio 50 – “Racistas são os outros”, reflexão apresentada por Fernando Conceição

“Racistas são os outros” é o mote de um ciclo de debates mensais que estão a ser realizados na Universidade Nova de Lisboa desde Novembro de 2014 com continuidade até Julho de 2015. Fernando Conceição,  professor na Universidade Federal da Bahia, no Brasil, fala sobre as temáticas que estão a ser debatidas neste ciclo, que cria uma ponte entre o Brasil e Portugal nas questões relacionadas com o racismo.

Opinião: Quem é a vítima? A Cova da Moura e outras histórias

Concentração: Contra a violência policial

por Elisabete Cátia Suzana 

Para que fique bem claro, a minha nacionalidade é marítima e o meu país é o mar que não pertence a ninguém e pertence a todos.

A sociedade portuguesa com uma estrutura e uma história particulares é que já separou as águas e forjou um conto ancestral sobre quem pertence a que lado. Os recentes acontecimentos na Cova da Moura, onde mais uma vez a polícia exerceu a sua autoridade aterrorizando jovens negros foram episódios desprezíveis e alarmantes. Mais do que com esta violência policial, fiquei enraivecida com as reações a este crime contra a humanidade.

Os relatos fantasiosos dos meios de comunicação portugueses criaram e reforçaram a narrativa tão comum do “negro criminoso”, a que já estamos habituados. Basta relembrarmo-nos de outros eventos, histórias sobre “arrastões” e “invasões” e “concentrações” que inundaram o imaginário português nos últimos anos, cimentando a ideia de que os negros são perigosos e mais ainda, se estiverem em grupo. O que aconteceu na Cova da Moura não é surpreendente, nem novo, nem um caso isolado. Não é fruto de algumas maçãs podres da polícia.

Abram os olhos e escutem as vozes negras de Portugal: isto é um exemplo do racismo institucional e estrutural que afecta a população negra de Portugal desde sempre. E as reações ao sucedido demonstram a falta de consciência pós-colonial do povo português. A falta de reflexão sobre os resultados abjectos do colonialismo português, uma ditadura racial mascarada de empreendimento glorioso, inovador, cume dos grandes feitos do povo português. Quando, na realidade, se perguntarem ás vítimas, mesmo se perguntarem ás fontes históricas, o que foi deveras foi um holocausto, pilhagem, roubo, destruição. Destruição de povos, das suas línguas, religiões, culturas, ecossistemas. Destruição da sua própria dignidade humana. Na realidade, destruição da sua própria humanidade. Só assim se compreende como ainda hoje em Portugal, negro é criminoso, ladrão, preguiçoso, animal sexual, estúpido, tolo, burro, irresponsável, pobre.

Concentração: Contra a violência policial [12.02.15]

É incrível que precisemos afirmar a nossa humanidade com um curso superior e postura bem -falante, “Sou um negro inteligente e instruído. Vivo na Cova da Moura, mas sou normal.” Quando negro com curso superior vai ser visto como “macaco que pensa que sabe”, é óbvio que o problema não é nosso, mas de uma sociedade que nos define a todos de maneira tão desumana, façamos o que façamos, digamos o que digamos, com português bem-falante, cursos superiores, perfis ativistas de relevo ou não. Aqui chegamos ao ponto que eu queria demonstrar neste texto. Quem são as vítimas e quem são os opressores?

Mesmo que faça comichão a muita gente, precisamos de ter uma conversa sobre privilégio branco em Portugal. Na área dos estudos críticos da branquitude (critical whiteness studies), branquitude é definida como um sistema de poder que privilegia pessoas vistas como brancas às custas da opressão de pessoas que não passam por brancas. Admitir que o negro sofre e é oprimido com o racismo é mais fácil do que assumir o próprio privilégio branco, a verdadeira raiz do problema. O problema não é alguns serem oprimidos. Isto não é um problema ‘dos negros’, ‘daqueles ali, mas que não me toca pessoalmente’. O problema é um grupo de pessoas serem privilegiadas pelo seu privilégio branco às custas do sofrimento e alienação de outras. Este é um raciocínio básico na teorização de relações de poder e hegemonia. Focando a atenção no racismo como uma coisa que acontece ali longe, e pontualmente, quem beneficia com o racismo consciente ou inconscientemente fica livre de sequer pensar no seu papel de opressor, quanto mais de sentir todas as maneiras em que tem privilégio só por ser branco. O privilégio branco é sistemático, estrutural, constante, no dia-a-dia, nas instituições, no funcionamento e organização da sociedade, nas relações interpessoais, na escola, na literatura, na criação artística, nos meios de comunicação.

É preciso relembrar que o privilégio branco está inserido no contexto da ideologia colonial que estabeleceu durante séculos a primazia de uma imaginada raça branca sobre todas as outras. Estamos perante uma hierarquia de poder, onde o negro foi relegado para o patamar mais baixo da humanidade, na realidade, por muitos séculos, nem sequer tido como parte integral da humanidade e passível de ser comprado e vendido e abusado como mercadoria. Basta ler famosos filósofos europeus como Descartes e Kant para perceber o estado degradante em que eles com toda a autoridade e facilidade posicionam o negro na categoria do sub-humano. As colónias portuguesas não foram um modelo de democracia ocidental que iluminou o povo africano com a “civilização”. As colónias portuguesas foram, como todas as outras, um modelo de apartheid racial e terrorismo estatal. Ou a memória é curta e já nos esquecemos do holocausto negro, do secular e lucrativo negócio de escravos que possibilitou a supremacia portuguesa por um tempo? Ou já nos esquecemos dos cinemas para brancos e cinemas para negros, casas-de-banho públicas para brancos, casas-de-banho públicas para negros nas queridas colónias portuguesas? Ou já nos esquecemos de uma justiça colonial com dois pesos e duas medidas, o braço longo da justiça sempre pronto a punir os negros com mais veemência e brutalidade? Ou talvez já tenha passado à memória que “ajuntamentos de nativos” foram regularmente proibidos e criminalizados, porque mais do que três ou quatro juntos, já eram uma turba desregrada? Quem se surpreende com a violência policial contra negros em Portugal? Eu não.

Concentração: Contra a violência policial

Quem é negro ou negra em Portugal já passou, digamos, nas últimas horas, por humilhações, violência física e/ou psicológica pelo mero facto de ser negro ou negra. “Race trumps class”, dizem nos EUA. E, deveras, quando Obama ganhou as eleições nos EUA, que comentários ouvi eu em Portugal? “Agora, é que o mundo vai desabar, com um preto a governar. Os pretos nem se sabem governar, por isso, estávamos lá nós, quando nos fomos embora, olha o que aconteceu.” Ou entre pessoas da classe alta branca portuguesa, conversas sobre como o Kofi Annan “é preto, mas inteligente”.

Ou na minha última visita á minha amada Lisboa, entro no supermercado no meu bairro e vem logo o segurança atrás, preocupado com esta negra que certamente entra só para roubar. Ou sempre que havia um roubo no bairro, lá ia a polícia á procura dos negros transeuntes, os suspeitos do costume. E os raids na parte do bairro onde a população era maioritariamente negra africana?

Eu visitava as minhas amigas que viviam nessa parte do bairro e arriscava-me a uma bala perdida, como tantos outros levaram. E presenciava a tempestade deixada pelos polícias em casa de uma amiga cuja mãe acabara de ter bebé. Aquilo não era casa, era um redemoinho depois da visita dos polícias, á procura de drogas que não encontraram. E, se encontrassem? Quem as comprava? Por acaso, iam á parte do bairro onde estas eram consumidas? Ou às casas de brancos que vendiam, ou todo o bairro dizia que eles o faziam? Eu vivia entre eles e nunca lá vi a polícia.

Ou na praia do Tamariz, com amigas, todas negras, adolescentes, fomos á água. Voltamos para descobrir que fomos roubadas e só não levaram foi o biquini que tínhamos no corpo. Queixamo-nos á polícia. “Vocês são todos do mesmo bando”, foi a resposta calorosa do polícia. Ou seja, todos negros, todos ladrões. Ou ainda antes, criança e levo com os brandos costumes de portugueses rebarbados e pedófilos, mesmo que não saibam que o são, pois, ao contrário do que possam pensar, uma criança negra também é uma criança e não uma miniatura de “negro”. Levo com o comum: “Preta para trabalhar, mulata para f***, branca para casar.” Brando português suave para principiantes.

Concentração: Contra a violência policial [12.02.15]

Repito: a Cova da Moura não é um acontecimento isolado. O grau de instrução das vítimas ou o cadastro de bom cidadão, negro bem-falante faz parte da estratégia do oprimido para se defender numa primeira fase e evitar ficar marcado com a estampa de “criminoso”. Mas, não nos fiquemos por aí. Já escrevia Franz Fanon: “But we can already state that to talk pidgin-nigger is to Express this thought: ‘You’d better keep your place’ “. E os negros portugueses que não falam “bem”, ou aqueles que não trabalham, as mães que desesperam para manter os seus filhos enquanto tomam conta dos filhos de mulheres brancas que só assim se podem emancipar, ou ainda aqueles que foram justa ou injustamente apanhados nas redes da criminalidade? Quem é merecedor de dignidade humana? Quem é vítima? Estamos perante um caso de dignidade humana, da qual fomos privados como negros. Raça” é uma construção social e cultural que tem infelizmente implicações graves na vida real. É urgente iniciar um diálogo sério e consequente sobre racismo afrofóbico e privilégio branco em Portugal. Um DIÁLOGO e não um monólogo, as nossas vozes negras precisam de ser ouvidas. Nós falamos por nós próprios.

Sobre a autora: Elisabete Cátia Suzana

Elisabete Cátia Suzana

Elisabete Cátia Suzana

Áudio 38 – Kalaf, O Angolano que comprou Lisboa…

Começamos o ano com uma conversa com Kalaf Epalanga que fala, entre outros assuntos, sobre o seu último livro O angolano que comprou Lisboa (por metade do preço).

“Eu não quero, de todo, construir uma cultura unilateral. Pelo contrário, quero fazer parte de uma cultura plural, onde o ser negro tem várias nuances, várias formas estar, várias formas de abordar…”, afirma Kalaf.

Áudio 31 – Mamadou Ba Descreve Relação Entre Cultura e Racismo (Parte II)

Mamadou Ba, nasceu no Senegal e vive há 17 anos em Portugal. É ativista do SOS Racismo e fala-nos sobre Cultura e Racismo – tema da Agenda de 2015 da organização anti-racista, lançada no início de Novembro aqui em Lisboa. Nesta segunda parte da entrevista com Mamadou Ba, o ativista continua a problematizar a herança de grandes pensadores para a luta anti-racista e/ou para a construção do pensamento racista.

Áudio 16 – Educação para a diversidade

Que desafios enfrentam os pais ao educar uma criança negra na Europa? Elisabete Cátia Suzana, investigadora na área de estudos de religião e branquitude, na Universidade de Uppsala (Suécia),  fala sobre o papel de produtos culturais para crianças na educação para a diversidade. Segundo Elisabete Cátia Suzana, nenhuma criança está livre da exposição a conteúdos que limitam a sua sensibilidade para a diversidade cultural.

Áudio 12 – General D, o ativista social

Foto: Vera Marmelo

General D, o rapper, quase que dispensa apresentações. Depois de 15 anos de ausência, o pai do Hip Hop em português quer contribuir para a melhoria das condições de vida dos seus irmãos e irmãs negr@s onde quer que esteja. Na  AfroLis vamos conhecer melhor a sua faceta de ativista social. No dia 5 de Julho ele vai estar no Largo Intendente com a primeira edição da Mostra de Arte Africana, inserida no Bairro Intendente, no Largo do Intendente. Um encontro de cultura africana, uma celebração! Inscrições  para ter uma banca na Mostra de Arte africana!

 

 

Áudio 3 – Discriminação Racial no Trabalho

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No dia 1 de Maio, dia do trabalhador, as mulheres da Plataforma Gueto, fazem uma passeata contra a discriminação no trabalho. A Rádio AfroLis teve acesso a uma carta de uma trabalhadora negra que fala sobre vários aspectos da sua vida inclusive de discriminação no trabalho. A Carta foi dedicada ao Grupo de Mulheres da Plataforma Gueto, um Movimento Social Negro, que defende a auto-determinação de todos os povos através da Resistência anti-imperialista e anti-racista. Anabela Rodrigues, jurista e elemento do grupo de mulheres negras da plataforma gueto comenta parte da carta em entrevista com Carla Fernandes.[Carta na integra]

 

Áudio 1 – Media e estereótipos raciais

Elisabete Cátia Suzana

Elisabete Cátia Suzana

Os media contribuem tanto para a construção como para a desconstrução de estereótipos raciais. Esta é a conclusão a que especialistas na área de estudos de raça como Grada Kilomba da Universidade de Humboldt (Berlim/Alemanha) e Elisabete Cátia Suzana da Universidade de Uppsala (Suécia) chegaram. Ambas são afrodescendentes nascidas em Lisboa. Neste primeiro programa vamos ouvir a tradução de uma entrevista de Grada Kilomba e os comentários de Elisabete Cátia Suzana, insvestigadora na área de estudos de religião e branquitude sobre o papel dos media, dos negros e dos brancos na luta contra o racismo.  Acompanhem-nos!