Saudades

Saudades Sonia 1por Sónia Vaz Borges

Sinto saudades.
Sinto saudades de dançar.
Sinto saudades de dançar, mesmo que tenha dois pés quase esquerdos e nunca tenha atinado muito com os passos de kizomba e funaná e zouk nas longas noites africanas de Lisboa dos anos 90,
onde dançar era um prazer suado cheio de risos,
e não uma demonstração de passos técnicos memorizados como acontece hoje.
Sinto saudades de dançar onde o corpo era um todo e não um somente rebolar aqui e ali.
Sinto saudades de dançar,
dançar uma dança onde o companheiro embora num passo trocado e desequilibrado de dois pés quase esquerdos que tenho,
sabia levar-te e continuar a dança sem criticar e no meio de risos
” não tem mal, continua a dançar, o importante é dançar” dizia.
Sinto saudades de dançar e de ouvir uma musica sensual e não uma musica de caráter quase pornográfico medíocre.
Sinto de saudades de dançar.
Sinto saudades das músicas decoradas em frente ao rádio,
ou do set do Dj.
Sinto saudades de dançar,
onde num dançar aprendia sobre as histórias e o Cabo Verde dos meus pais e ainda no meio praticava o meu crioulo.
Sinto saudades de dançar,
onde a dançar aprendi o romance e as ser romântica.
Sinto saudades de dançar, e do pós dançar,
em que de madrugada ia-se para casa com os pés doridos, mas o ritmo continuava nos pés e o zumbido de uma noite ainda ia nos ouvidos e nas camionetas cheias.
Sinto saudades das festas em família, e da mesa sempre cheia.
Sinto saudades de dançar,
com os meus primos e primas, tios e tias, avós e vizinhos,
com as minhas irmãs e os meus pais.
Hoje deu-me para isto.
Sinto saudades de dançar,
em que dançar era brincar, rir, brigar.
Sinto saudades de dançar.
Sinto saudades de muitas coisas.
Sinto saudades

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Áudio 53 – Afrodiscursos sobre Lisboa e mais…

Esta é a última semana, este é o último programa do primeiro ano da Rádio AfroLis. Desde 17 de Abril de 2014, todas as quintas-feiras, publicámos entrevistas com pessoas da comunidade negra, ou interessados em temáticas africanas a viver em Lisboa. Ficámos a conhecer os seus saberes e fazeres ,e fomos descortinando facetas da consciência negra em Portugal. No programa de hoje vamos fazer uma retrospetiva deste primeiro ano com excertos dos programas mais ouvidos e mais partilhados da AfroLis até agora.

Vozes por ordem de surgimento: Elisabete Cátia Suzana,  Kalaf Epalanga, General D, LBC, Mamadou Ba, Anabela Rodrigues, Maria Barbosa, Bilan, Sara Tavares e Sónia Vaz Borges

Nós Nos livros: Na Pó di Spera

Sugestão de leitura: Na pó di Spera de Sónia Vaz Borges (2014)

SoniaEu acho importante ler este livro porque…

Em Na pó di Spera, a autora Sónia Vaz Borges apresenta-nos possibilidades de relacionamento com “o bairro”, esse espaço que é do outro, que nos é periférico. Ao ir trabalhar para o Bairro de Santa Filomena, na Amadora, como técnica de um projeto social e mulher negra de origem cabo-verdiana, Sónia Vaz Borges entra num mundo que lhe é estranhamente familiar. O Bairro de Santa Filomena é um espaço estigmatizado onde vivem vários imigrantes e famílias pobres sob a ameaça de despejo. A autora domina várias das linguagens do bairro através dos ecos e resquícios de vivências e convivências com pessoas como ela, gente dela – os pais, os parentes afastados ou proximamente distantes, os amigos, os colegas.

Sónia personaliza a relação com “o bairro” através das dúvidas que partilha connosco perante certezas não comprovadas. Comprovando a nossa ignorância sobre convicções alimentadas sobre “o bairro”. A ausência de conhecimento sobre as gentes do bairro torna-se presente nos caminhos que percorremos guiados pelo olhar de Sónia Vaz Borges. Após cada ação de intervenção socializante, própria do seu papel de técnica, após cada convívio com os moradores do bairro, a autora transforma-se gradualmente em vizinha, amiga, irmã, filha do bairro.

O livro Na pó di Spera evidencia as falhas no olhar sobre “o outro” em nós próprios e cria um ambiente em que o reconhecimento da falta de conhecimento leva ao entendimento. Um entendimento que humaniza não o nosso olhar sobre o bairro, nem o próprio bairro, mas que humaniza a nossa relação com o bairro, com o periférico, com “o outro”. No bairro existem pessoas que não se sabem portuguesas. No bairro existem pessoas que se desconhecem cidadãs. No bairro existem pessoas que se conhecem como “os outros”.

Ler o livro Na pó di Spera incomoda porque nos lembra que o facto de nos reconhecermos todos iguais continua a não garantir igualdade de tratamento. Por outro lado, ler este livro inspira porque nos abre os olhos de dentro e faz-nos pensar no nosso papel enquanto agentes ativos de um sistema que nos mantém “outros”.

A expressão “na pó di spéra”, em crioulo de Cabo Verde, pode ser entendida da seguinte forma: “​Quando não se tem outro lugar para ir ou para ficar, quando se espera por alguém ou por alguma coisa, quando não se tem o que fazer no momento, quando se está a descansar durante uns momentos na soleira de uma porta, ou simplesmente se está parado em algum lugar, estamos todos ‘na pó di spéra’.”(Sónia Vaz Borges)

Por Carla Fernandes

Podem ouvir também a Entrevista com a Sónia Vaz Borges para a AfroLis

 

 

Áudio 35 – Sónia Vaz Borges apela à produção literária dos afrodescendentes

Sónia Vaz Borges é a autora do livro “Na Pó Di Spera” com lançamento marcado para esta quinta-feira [11.12.14] na  Fundação Calouste Gulbenkian. A académica e autora de obras publicadas defende que a produção literária por parte dos afrodescendentes é essencial para garantir as referências à sua presença histórica em Portugal.

Ouçam o programa para saberem o significado de “Na Pó Di Spera” que conta a história do bairro de Santa Filomena através da experiência de uma descendente de cabo-verdianos, que se distancia da sua posição de técnica e se deixa adotar pelo bairro.

Sónia Vaz Borges é licenciada pelo ISCTE-IUL  em História Moderna e Contemporânea, variante política e relações internacionais. O seu mestrado foi em história de África pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Atualmente faz um doutoramento em Berlim, na Universidade de Humboldt em História da Educação, centrando-se no tema: luta de libertação enquanto prática educativa no PAIGC entre 1956-1974.