Mulheres Negras Falam.  Rostos (in)visíveis na cidade

Mulheres Negras Falem

por Sónia Vaz Borges

São quatro e meia da manhã, para muitas o dia já começou. Há que apressar porque o primeiro comboio é às seis da manhã e o trabalho começa às sete horas e a encarregada não espera. Durante os seis dias da semana, o panorama é o mesmo em todas as estações de comboio e camionetas. São carruagens e carruagens de mulheres negras que partem para mais um dia de trabalho. O salário raras vezes ultrapassa os duzentos euros, um valor muito abaixo do tão falado rendimento mínimo nacional, proposto pelos sucessivos governos. Do total, uma parte é descontado para a segurança social, a outra vai para o bilhete mensal do transporte, o que sobra vai para aquilo que deus quiser, desde que haja vida, saúde e força para trabalhar.

O seu trabalho é a limpeza, a limpeza dos escritórios, dos edifícios do governo e outras empresas, das garagens, as escadas do prédio, as casas da patroa, os centros comercias, as escolas, os hotéis e hospitais, os edifícios em fase final de construção e acabamento. Trabalham em tudo o que há para limpar na cidade, preparando-a para mais um dia de trabalho. São elas, que acabam por limpar aquilo que os maridos, anos antes emigraram da terra, para construir, trabalhando na tchuba na bento, na frio, por um salário que muitas vezes não chegou porque o patrão desapareceu, recusou-se a recebê-lo, pagou aquilo que achou mais (in)justo, ou que simplesmente foi gasto nas frustrações de um balcão de café.

O primeiro trabalho termina às nove horas, mas há quem fique até mais tarde. Num passo de lebre, cruzam a cidade, pois há que não chegar atrasada ao outro serviço. Não vá a patroa descontar, ou ter outra pessoa no seu lugar! Pelo caminho, pensam no que vai ser o almoço dos filhos que vêm da escola almoçar. Será que se levantaram a tempo para não chegarem atrasados à escola? Será que fizeram os deveres? Será que levaram o lanche? Será que foram mesmo para escola? É uma avalanche de interrogações para as quais só terá resposta no final do dia, se conseguir adiantar serviço e sair cedo do trabalho e os transportes não se atrasarem. Que vai ser hoje o jantar lá em casa?

A semana corre num instante, entre o trabalho, os transportes, o almoço e o jantar. E a família? Há tempo para a família? São, na verdade, poucos os momentos em que está com ela. As preocupações são muitas e os sonhos para os filhos e filhas muito mais. Saúde, escola e juízo, são os seus principais sonhos, não vão elas e eles acabar como ela, nesta vida de corre- corre e corre. Têm na sua maioria entre os trinta e os cinquenta anos, embora haja mulheres muito mais novas. Há casos em que as filhas já as acompanham e partilham com elas o serviço. Afinal os ofícios aprendem-se cedo.

Para a semana, tem consulta no médico e os remédios para a pressão, o seu principal problema, já acabaram. Há que ver o que sobra no final do mês, a ver se chega para comprar outra caixa. No final do mês termina a validade da autorização de residência, a chamada Nova Carta de Alforria, no vocabulário dos jovens negros africanos. Já cá está há mais de trinta anos, e nada de um documento decente. De tempos a tempos toda a família se torna ilegal. Nesse dia há que aproveitar para dar entrada nos papéis dos filhos e do marido, pois não vá o diabo tecê-las, e ficarmos todos sem documentos.

Finalmente é domingo, é dia de descanso, mas será que vai ter tempo para tratar de si? Mas a cabeça desta mulher não pára, anda de um lado para o outro, prepara o almoço e o jantar, enquanto isso põe a máquina da roupa a trabalhar, e em três dedos de conversa com a vizinha, aproveita para estender a roupa. A caminho da mercearia para comprar o caldo de carne que acabou, faz pequenas paragens para falar com os vizinhos e vizinhas que não viu durante toda a semana. Talvez tenha visto um ou outro na estação de comboios ou na paragem de camioneta na correria da semana. Às crianças que passam, pergunta se, por acaso, não viram os filhos que saíram de manhã para jogar à bola e até agora não voltaram. – Se os vires, diz que quero falar com eles!

Amanhã é segunda-feira e começa tudo de novo. Nos lugares onde trabalha mal se apercebem da sua presença ou do seu trabalho. Os olhares são cruzados e rápidos, porque ninguém lhes olha nos olhos, ninguém lhes toca, abraça ou sorri ou diz obrigado. No meio do mundo da cidade passam como seres invisíveis, invisíveis como mulheres mas bem visíveis como negras. Humilhadas, verbalmente ofendidas, psicologicamente desprezadas, interiormente violentadas, são estes os rostos femininos, de olhos e pernas cansadas da cidade, que percorrem as calçadas. Na verdade, estes não são os únicos rostos negros que cruzam a cidade. São apenas um exemplo entre as milhares de jovens, mães e avós, advogadas, empresárias, estudantes, empregadas de balcão, engenheiras, juízas, investigadoras, actrizes, cabeleireiras, arquitectas, educadoras, professoras, manequins e todas as demais profissões que ser Mulher é.

Por vezes surgem-me as perguntas: Quais serão os seus maiores e mais íntimos desejos? Que escondem, no fundo daquele olhar? Que querem elas dizer, quando nos olham nos olhos, sem pronunciar uma palavra? Que medos e desejos escondem?  Que gritos, que sorrisos escondem dentro de si e que só para elas guardam?

Mulheres Negras Falem.

 

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Áudio 3 – Discriminação Racial no Trabalho

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No dia 1 de Maio, dia do trabalhador, as mulheres da Plataforma Gueto, fazem uma passeata contra a discriminação no trabalho. A Rádio AfroLis teve acesso a uma carta de uma trabalhadora negra que fala sobre vários aspectos da sua vida inclusive de discriminação no trabalho. A Carta foi dedicada ao Grupo de Mulheres da Plataforma Gueto, um Movimento Social Negro, que defende a auto-determinação de todos os povos através da Resistência anti-imperialista e anti-racista. Anabela Rodrigues, jurista e elemento do grupo de mulheres negras da plataforma gueto comenta parte da carta em entrevista com Carla Fernandes.[Carta na integra]